Não me perguntes

Não me perguntes porque o mundo gira, porque o tempo passa, porque os ventos sopram e o calor não se atenua.

Não me perguntes porque ficamos mais velhos, porque as crianças se deseducam e os pais se desobrigam em seus princípios.

Não me perguntes porque as coisas se substituem e o homem não vence as batalhas cotidianas e tudo se aproxima do caos.

Não me perguntes quem se corrompe ou é corrompido, quem se deixa corromper ou corrompe.

Não me perguntes se os rios secam e as indústrias expelem produtos nocivos. Não me perguntes quem polui ou quem colabora com o mau aproveitamento da natureza.

Não me perguntes quanto volume possui cada gota de chuva que se espalha no parabrisa do carro. Nem se posso juntá-las com as mãos. Pois o que sei, é que não posso medir jamais. Os hidrogênios, oxigênios e metais pesados não podem ser medidos mecanicamente, assim como não se pode avaliar nada sem comparar com nossas próprias ações, porque somos deste mundo caótico, cheio de falhas e perversões.

Somos portanto cada célula que o constitui e jamais teremos distância suficiente para qualquer avaliação. Fazemos parte do estrume. Fazemos parte das labaredas que lambem as margens das estradas, nas queimadas de baganas e falta de luz. Luz na mente, na alma, no raciocínio.

Fazemos parte dos trocados jogados no amanhecer das noites de baladas inseguras e autoridades desfocadas.

Fazemos parte dos coturnos que esmagam cabeças, quando vaticinamos mudanças ditatoriais.

Fazemos parte das madrugadas sedentas de viagens agridoce e amargas, nas vielas sombrias de casas noturnas ou nas salas enluaradas das grandes festas, regadas a vôos de comprimidos, agulhas e pó.

Fazemos parte do avanço descontrolado nas estradas, ilustrando as estatísticas de sangue ou dor, aviltando os humanos em virtude do motor potente ou da impotência dos saberes.

Fazemos parte do desdém dos votantes, inaugurando facções reacionárias, retrógradas e preconceituosas.

Fazemos parte do pensamento hegemônico da mídia, que distingue classes como quem partilha o bife, execrando os nervos e a gordura, porque o que nos é contado com oratória bem falante do narrador, é o que acreditamos.

Fazemos parte dos cartéis de idiossincrasias onde o brasileiro gosta de samba, carnaval e futebol, agora, pasmem, também funk. Gostamos de tudo isso, mas de muito mais.

Entretanto, vamos pelo senso comum. E a vala é sempre a mesma.

Então, não me perguntes o que está errado. Não julgues o mal, o corrupto, o mentiroso, o ladrão, porque está em nós, no nosso mundo caótico, do qual fazemos parte.

Quem sabe, quando escolhermos as fontes e as compararmos, para acreditar em algum fato, quando pensarmos na biografia de nossos candidatos, na hora do voto, quando não incorrermos nos desvios do cidadão comum, do dia a dia, quando observarmos as leis do trânsito, do estacionamento, das vias públicas e de tantas escolhas de nossa vida, quem sabe aí, possamos até perguntar a verdadeira razão de viver ou de humanidade.

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