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A CASA OBLÍQUA - CAPÍTULO XVI

Clara passava as cartas sucessivamente nas mãos, como se as animasse num filme, vendo as cenas acontecerem ante seus olhos. Como uma cartomante cuidadosa, que retira uma carta do baralho, enquanto pensa na interpretação, puxou uma delicadamente, estendendo-a sobre a escrivaninha.

Ficou ali, admirando o casal de mãos dadas na frente de casa.

Dona Luisa, certamente ficaria contente, em vê-la tão entusiasmada com a sua história e principalmente tão interessada em cumprir a missão que lhe coubera.

Sabia o quanto havia sofrido, tanto quanto ela, com a ajuda que dispensara a um homem desconhecido, em situação perigosa.

Que dia teriam tirado aquela fotografia? Teriam vencido todos os conflitos, todas as dificuldades e oposições, ficando finalmente juntos?

Após uma conversa demorada com o marido, Moema fechou-se em si mesma. Viu o médico afastar-se do porão, subindo com dificuldades as escadas que davam para a cozinha e ficou no quarto, imóvel. Até mesmo quando o marido explicou que em se tratando do Doutor Osvaldo Dias, o segredo seria guardado a sete chaves, pois confiava plenamente no amigo, ela não retrucou, recebendo a informação, como decisão definitiva. Nada lhe restava, a não ser calar-se e deixar que os acontecimentos transcorressem sem a sua participação.

O marido confirmou, que logo que o homem melhorasse, iria embora para sempre. Ela deu de ombros, fingindo indiferença. Não se convenceu e nunca mais falou no assunto.

Deixou-se ficar numa solidão cada vez mais profunda.

Parecia uma sombra na casa. Quase não dormia. Os olhos argutos pesquisavam todas as frestas, todos as luzes da rua, mesmo nas noites fechadas. Ouvidos atentos, um ódio intenso que a destruía aos poucos.

Nunca mais desceu até o porão. Caminhava pela casa e já fumava à vista de todos. Sentia-se no direito, assim como lhe tinham tirado a privacidade. Considerava o marido um fraco, que fazia todas as vontades da filha, por isso, se calara, vivendo às ocultas, como uma estranha na própria casa.

Luisa ao contrário, participava da vida do desconhecido, ministrando-lhe os remédios na hora certa, trazendo os alimentos que precisava, tentando fazer-se entender.

Às vezes, se deparava com o olhar indignado da mãe. Tentava se aproximar, fazer-lhe um carinho, mas Moema a repelia, projetando nela a revolta da situação insustentável em que vivia.

Certo dia, porém, a surpresa foi maior, ao ver aquele homem subir as escadas e ingressar em sua cozinha. Luisa o acompanhava, amparando-o.

Moema levantou-se da mesa, onde tomava o café da manhã, transformando a fisionomia numa máscara de dor e ódio.

Levantou-se, num ímpeto, lançando um olhar de desaprovação à filha, sem jamais encarar o homem e afastou-se para o interior da casa.

Luisa pediu que ele sentasse. Serviu-o. Ele era um homem alto, forte e parecia estar completamente recuperado.

Seus olhos enchiam-se de gratidão, ao observar as maneiras solícitas que Luisa lhe dedicava, mas também percebia-lhe os gestos delicados, as mãos pequenas cortando as fatias de pão, servindo o café, aquecendo o leite, vindo de lá para cá, numa faina incansável para agradá-lo.

Reparava nos seus olhos castanhos, tão vivos e vibrantes, que tinha a impressão que estava sempre disposta a contar-lhe mil histórias, que lhe trouxessem boas novas e um mundo de felicidade.

Como um fotógrafo que era, enquadrava-a em sua mente, as sobrancelhas perfeitas, emoldurando o rosto branco, que contrastava com o vermelho dos lábios, enfeitados num sorriso permanente.

Se fosse um pintor, certamente a eternizaria numa tela, realçando o castanho dos cabelos ondulados, caídos sobre os ombros, o corpo perfeito, seios desenhados sob a blusa branca, a cintura fina, pernas bem torneadas e uns passinhos voláteis, como os de uma andorinha beliscando peixes na praia.

Sentia-se tão bem com ela, que faria tudo para estar ao seu lado, para ouvir-lhe a língua musical, tão bonita ao seus ouvidos, diferente da sua, tão viril e rígida.

Queria aprender a língua portuguesa e disciplinado, aos poucos foi se inteirando, como uma criança que palmilha os primeiros passos.

Luisa era uma excelente professora e zelosa, se aplicava tanto com ele, quanto com os alunos da escola pública.

Ele tinha vontade em aprender, desde falar até escrever com facilidade. Por isso, arriscava-se em pequenos bilhetes, convertendo o texto em frases meio sem sentido, mas que para ela diziam muito: era a vitória do seu resgate, do apoio que dera a um ser humano que pedia socorro, que transformara também, num sentido para a sua vida.

Saymon, aos poucos, foi se acostumando com os hábitos da casa, disciplinado, aprendendo como bom aluno, a língua que passara a ser a sua segunda, naquele lugar que o acolheram com tanta solidariedade.

Chegou um dia, em que ele pode lhe contar a série de acontecimentos que desencadearam no desfecho, em que fora parar no porto, como um foragido e desertor.

Seu país, a Tchecoslováquia fora ocupada pelos nazistas, que cometeram toda a sorte de crimes para controlar o movimento de resistência. Saymon fazia parte do comando e junto com outros companheiros protagonizou um atentado contra um dos mais terríveis líderes nazistas, numa aldeia próximo à Praga.

Numa manhã de junho, o militar alemão saiu em seu carro, dirigido pelo motorista, em direção ao aeroporto.

Saymon e seus parceiros o esperavam numa emboscada.

Um dos revolucionários tentou acertar o carro do alemão com uma submetralhadora, mas fracassou, porque avistando o grupo artilheiro, o motorista desviou-se rapidamente por uma ladeira, enfiando-se por uma estrada irregular, quase despencando num precipício ao lado.

Com o fracasso da missão, tiveram que fugir e esconder-se na capital. A Gestapo imaginava que os líderes da resistência estivessem na aldeia e invadiram a região, procurando pelos refugiados, executando seus habitantes ou mandando-os para os campos de concentração.

Quando descobriram que o grupo se dispersara e que não estavam na aldeia, partiram para a ofensiva na cidade, numa caçada mortal.

Saymon foi obrigado a fugir, conseguindo tomar um trem para a Holanda.

Dali foi para a Inglaterra e tomou um navio cargueiro que vinha para o Brasil.

Ficou escondido entre as cargas, em condições subumanas, sofrendo de muito frio, sede e fome, até ser descoberto pelos britânicos que pensaram tratar-se de um alemão.

Apesar de comprovar pelos documentos que era tchecoslovaco, foi trancafiado numa cabine do navio, para ser entregue às autoridades brasileiras.

Então, em desespero, num descuido, ao chegar próximo à barra de Rio Grande, atirou-se ao mar.

Fora alvejado pelos marinheiros, obedecendo as ordens do almirante.

Ficou não sabe quanto tempo no mar, sentindo-se fraco e ferido, com a certeza de que morreria. O navio afastou-se na escuridão da noite e ele acreditou que seria o seu fim.

O destino, porém lhe reservava muitas surpresas: uma delas era um barco de pescadores, que o recolheu do mar, mas ao imaginarem que era alemão, não quiseram se envolver, embora tivessem a solidariedade para o salvarem.

Acionaram o rádio e deixaram que ele próprio se comunicasse. Quando conseguiu, deixaram-no no cais, levando-o para um vagão abandonado com alguma carga armazenada. Foi neste momento, que Luisa o salvou.

Ilustração: fonte: http://olhealem.blogspot.com.br/foto de Leonardo Cunha

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