A CASA OBLÍQUA - CAPÍTULO XIII

Um retrato em preto e branco. Cenário romântico. Luisa sentada num banco de praça. Vestido branco, gola em vê, enfeitada com uma corrente de ouro, com uma pequena medalha que lhe caía no colo. As pernas juntas, oblíquas, numa postura comportada. No ângulo detrás, um lago e patos enfiando a cabeça sob a água escura ou passeando garbosos, pontos brancos em movimento. Rápidos, aos olhos inquietos de Clara. Ele, a sua frente, com a máquina fotográfica, fazendo dela a sua musa. Aqueles rolos deveriam estar no baú, que nunca tivera acesso. Cida tomara conta, desfizera o segredo que aos poucos fora acalentado por Luisa. Odiava aquela mulher que a subjugara aos seus caprichos, tomando conta do que lhe era de direito. Imaginou que aquela fotografia deveria ter sido tirada por Saymon, numa tarde de primavera, talvez a mesma que Luisa lhe narrara com pormenores e tão cheia de emoção. E tudo acontecera tanto tempo depois da noite fatídica em que o salvara e por ele sofrera a discriminação da família e de toda a comunidade. Havia chegado ao cais, estacionando ao lado de um vagão de trem, que parecia abandonado. Estava tão nervosa, que qualquer movimento a deixava em estado de pânico. Por isso, quando um cão veio ao seu encontro, lambendo-lhe a ponta dos sapatos, ela, estremeceu dos pés à cabeça. Chutou-o, mas ele pouco se afastou, ficando a alguns metros, observando-a, talvez surpreso por ver um ser vivo, naquela hora da noite. Luisa havia deixado o carro e se aproximado do vagão, caminhando entre os trilhos que ressaltavam brilhantes, na pavimentação irregular. Não havia ninguém por perto, a não ser o cachorro, que inspecionava na volta, como se a imitasse. De repente, um gemido chamou-lhe a atenção, deixando-a apreensiva. Devia ser o homem que pedia socorro, naquela voz macilenta e sumida. O cão correu para o interior do vagão, dando latidos sonoros, que se perdiam na noite. Luisa o seguiu, reunindo todas as forças que possuía, subindo os degraus de ferro e alcançando o interior em plena escuridão, ouvindo os gemidos latentes. O cão já se acercara do homem estirado ao meio de sacos, que pareciam de arroz. Um bico de luz da rua, iluminava debilmente o rosto, através da janela entreaberta. Luisa suspirou, decidida, aproximando-se e tentando comunicar-se. Ele apenas pedia ajuda, numa súplica, sentindo-s desfalecer. O sangue borbulhava no ombro direito, pintando de vermelho o uniforme escuro. Ela, numa atitude impetuosa, tirou o cachecol que trazia ao pescoço e enrolou-o com energia, apaziguando o ferimento. Em seguida, esforçou-se para levantá-lo e levá-lo até o seu carro. O cão a seguiu, saltando de um lado para o outro, cheirando aqui, fuçando acolá, numa diligência que Luisa dispensava. O homem reconhecendo a ajuda, fez um esforço supremo para, apoiado em seus braços, segui-la, ajustando um pé no degrau, arrastando o outro, na tentativa de sair daquele esconderijo. Já na rua, respirava ofegante, tentando recuperar as forças. Nas costas uma mochila, que Luisa não se atrevera a tirá-la, percebendo que não teria tempo para tomar outra atitude a não sair dali, antes que alguém chegasse. Na verdade, pediu que ele a esperasse ali, na porta do vagão, pois traria o veículo até ali, dispensando a caminhada penosa e inútil. O vento retornava um pouco mais forte, levantando poeira, desenhando círculos nas calçadas. Luisa retornou com o carro, desequilibrando os pneus sobre trilhos e buracos da rua, parando bruscamente ao lado do vagão. O homem se encontrava escorado no vagão, prostrado, a cabeça caída, os braços estirados no chão, pernas esticadas empurravam as pedras com as botas. Ela o chamou várias vezes, gritando qualquer coisa que o acordasse. O cão ladrava sem cessar, alarmado. Aos poucos, o homem recobrava os sentidos e se lutava com suas forças para entrar no carro. Quando Luisa finalmente viu o seu rosto espalmado no vidro, respirou aliviada. Ao chegar em casa, o céu já se riscava de luzes mais claras, desenhando a aurora. Guardou o carro na garagem, correu para o interior da casa, certificando-se se poderia prosseguir no seu intento. Tudo em ordem, precipitou-se a acordá-lo, conduzindo-o para a escada que dava ao porão. *** Clara largou a fotografia sobre a cama. Nem quis examinar todo o conjunto. Veio-lhe a imagem do caderno, que Dona Luisa insistira tanto em entregar-lhe, quando estivesse no momento que adequado, segundo ela, próximo a sua morte. Não imaginava que tudo se precipitaria, que não teria tempo de dar-lhe a chave do baú, de entregar-lhe o caderno, de mostrar-lhe as cartas. Precisava encontrar aquele caderno, tinha que entrar no apartamento, incorrer no mesmo crime de Cida, mas não poderia deixar de cumprir o que prometera. Ficar com os seus bens mais preciosos, a sua verdadeira relíquia, que correspondia aos seus segredos, a sua história. Teria de tomar esta decisão importante, assumir o apartamento de Dona Luísa, como se fosse seu. Por um momento, esqueceu-se completamente de Nael e quando lembrou, considerou-o um empecilho. Estava afoita, preocupada com os últimos acontecimentos, sabia que as coisas tomavam outro rumo, um rumo que ela não desejava. Entretanto, pareceu esquecer-se de tudo que a afligia e voltou ao escritório, dando voltas pela casa, à procura de Nael. Ele continuava no escritório, sentado na poltrona, com as mãos na cabeça, pensativo. Talvez estivesse decidindo o que faria de sua vida. Alguma coisa havia partido dentro de si, um elo da corrente soltara e não mais o ligava ao passado, ao mesmo tempo que o afastava do presente. Quando Clara surgiu, sorridente, ele fingiu que tranquilidade. Ela assegurou-o que estava tudo bem, que havia estranhado um pouco aquelas fotografias estarem espalhadas pela mesa, porque pertenciam a um passado muito importante de sua vida. Não esclareceu do que se tratava. Como imaginara, assistiram alguns filmes juntos. À noite, saborearam a comida esperada, acompanhada de um vinho, que Nael achara muito bom. Aos poucos, estavam mais descontraídos, principalmente ele, que começara a falar com muito vigor de acontecimentos remotos, especialmente os de sua infância e de sua família. Clara também estava animada. Havia entre eles, uma ligação que aflorava, ainda mais exacerbada pela bebida, que insistiam em repeti-la em doses sucessivas. Em dado momento, Nael ficou silencioso, como se um pensamento doloroso o assaltasse. Clara levantou-se, meio titubeou entre as cadeiras, sentindo-se um pouco tonta. Sorrindo, carregou o copo consigo, convidando-o a voltarem para a sala de TV. Ele obedeceu. Sentia-se também um pouco zonzo e ao atravessar a porta que dava para o corredor, inevitavelmente bamboleou as pernas, encostando-se na parede, como anteparo. Há muito tempo não sabia o que era tomar uma bebida de álcool, mesmo um vinho de apurado sabor como aquele. Não demorou muito, estava recuperado. Clara voltava, chamando-o e, descuidada, choca-se com ele, derrubando todo o conteúdo da taça, espatifando-a no piso. Nael deixou o seu copo sobre a mesa e abaixou-se para ajudá-la a juntar os fragmentos, mas ela se opunha, afirmando que não era necessário. Ou por não entendê-la ou por achar que devia fazê-lo, ele prosseguiu na tarefa, juntando os cacos. Clara abaixou-se também, mas desequilibrando-se, apoiou as mãos em seus joelhos, já que ele estava sentado sobre os calcanhares. Instintivamente, Nael parou de juntar os pedaços da taça e a encarou demoradamente. Clara também o fez, experimentando uma doce sensação de ternura e bem estar. Lentamente, foram se levantando do chão, ele segurando-a pela cintura, com delicadeza. Ela deixando-se levar por aquelas mãos firmes e suaves ao mesmo tempo, aproximando o seu corpo ao dele, sentindo o hálito forte e as mãos que se deslocavam suavemente para a nuca, enfiando os dedos em seus cabelos, alisando-os com carinho, arrepiando-lhe todo o corpo. Não tomava nenhuma atitude. Deixava seus braços estirados ao lado do corpo, as mãos sem ação, aprisionada por um laço poderoso, que a dominava, produzindo-lhe uma sensação de vertigem. Ele aproximou ainda mais o seu rosto, tocando-lhe levemente os seus lábios nos dela, sucedendo-se no contato, uma vez sobre o lábio superior, outra no canto da boca, uma terceira no lábio inferior, absorvendo o sabor de sua boca, acelerando a paixão. E finalmente, beijava-a, numa mistura de paixão e ternura, invadido por uma chama que completava os sentidos. Clara enlaçou-o no pescoço, deixando-se conduzir naquele enlevo de ternura e sensualidade. E, num ritmo alucinado, foram-se desfazendo das roupas, ele voluptuoso, abrindo os botões da blusa, sentindo-lhe os seios rijos junto ao seu tórax já despido, ela experimentando o toque de suas mãos percorrerem seu corpo, seus braços, sua cintura, seus seios, atrevendo-se a sentir tanto quanto ele, o prazer do seu corpo nu.
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