Pular para o conteúdo principal

A CASA OBLÍQUA - CAPÍTULO XII

Com o passar do tempo, as coisas pareciam se ajustar, embora as circunstâncias não favorecessem em nada à tranquilidade de Clara. Se por um lado, Cida subitamente desaparecera do prédio, por outro, as investigações se tornavam cada dia mais intensas. Entretanto, não havia nenhum indício que pudessem associar o evento à Clara. Tinha a impressão, entretanto de que a tempestade se aproximava lentamente. O mar estava aparentemente calmo e um abrasamento do ar que se resumia em comportamentos estranhos que davam o que pensar. Gustavo, por exemplo, afastara-se dela, tratando-a, inclusive com absoluta indiferença. Os demais colegas também mantinham uma determinada distância, como se fossem orientados para agir assim. De qualquer forma, Clara procurava não pensar nestas atitudes, despendendo todas as suas energias no trabalho e na elaboração de sua monografia. Preocupava-se exclusivamente com o fim de semana que chegava e tentava prosseguir a sua rotina, envolvendo-se em compras de vestuário para o início de primavera. Sabia que Nael estava cada dia mais ansioso e que pretendia sair de sua casa para não comprometê-la. Investia na escolha do advogado, que o orientaria no processo junto à embaixada. Entretanto, precisava de tempo, para encontrar a pessoa na qual pudesse confiar plenamente. Clara decidira que naquele sábado não faria nada a não ser esquecer todos os problemas: assistiria alguns filmes, encomendaria um jantar saboroso e conversaria amenidades com Nael. Sentia-se feliz em tê-lo por perto.

Na verdade, a presença daquele homem em sua casa lhe mostrara o quanto sua vida era estreita, no relacionamento medíocre ao lado de Bruno, sem perceber a distância que os separava. Descobrira finalmente, que nunca o amara de verdade, pois o amor não se resume a uma só via, onde não há retornos e encontros. Ele apenas fingia, se acostumara com o seu jeito, a sua disponibilidade e expectativa. Até que o copo transbordou e a abandonou daquele modo covarde. Talvez não fosse ele o culpado, e certamente não era o único. Mas, por último, as adversidades resultaram em pelo menos uma vantagem: ela amadurecera e descobrira que o que sentia não era amor, mas a idealização de uma vida futura compartilhada com um homem de objetivos completamente diferentes dos seus. Inevitavelmente, a imagem de Nael povoava-lhe os pensamentos. Com ele, havia uma empatia, uma atração afetiva, que ela de certa forma desfrutava abstendo-se de qualquer compromisso. Não queria nenhum relacionamento, principalmente com um homem, cuja vida estava tão tumultuada. Queria-o como amigo, um amigo querido que estava ali, ao seu lado, ao qual egoisticamente o havia ajudado, num momento de frustração. Lembrava-se sempre de seu olhar suplicante, atemorizado, revelando uma infelicidade tão imensa que a solidarizava. Eram dois desafortunados numa noite de tempestade. Quando chegou em casa, observou que ele estava no escritório, na penumbra. Avistou-o assim, sério: olhar denso, o nariz alongado, a boca expressiva, revelando com o semblante os sentimentos que lhe ocupavam a alma. Não tinha mais o rosto sovado e debilitado. Talvez agora, voltasse a ser o homem que fora no passado, o homem que ela não conhecera, mas sem dúvida, achava-o bem atraente. Estava assim, absorta, examinando-o, que nem percebera que ainda estava com as inúmeras sacolas de roupas nas mãos. Ele levantou os olhos, como se não a reconhecesse por um momento. Depois, sorriu, mas parecia triste. Chamou-a para ver umas fotos. Clara ficou intrigada. Largou as sacolas nas poltronas e aproximou-se, antes porém, ergueu a persiana, enchendo de luz a peça. Ele dispôs as fotos na escrivaninha, como se alinhasse cartas de baralho. Disse-lhe em português: — Olhe. Clara não conteve uma exclamação: — Dona Luisa, as fotos de Dona Luisa. Nael confirmou que eram fotografias dos rolos de filme, que ela resgatara do telhado. Apesar da boa surpresa, Clara se perguntava como ele as tinha revelado, até pela dificuldade em encontrar estúdios de revelação. Nael logo explicou: — Foi fácil, coloquei uns óculos escuros, um chapéu que encontrei por aí e fui até um estúdio. Clara censurou-o, dizendo que era perigoso. Não deixou de rir, ao perceber que o adereço que usara era um chapéu feminino de praia. Em seguida, sentou-se ao seu lado, observando as fotos com cuidado. Mas foi só por um momento. Juntou-as rapidamente, como se recompusesse o baralho, guardando-as na bolsa. Fitou-o ansiosa. Sentia-se, de certa forma, atingida em sua intimidade. Ele não devia ter revelado aquelas fotografias, como se fossem imagens pitorescas, sem qualquer importância, apenas para rirem de um passado que não conhecera. Levantou-se e deu alguns passos até a janela. Olhou para o apartamento de Dona Luisa. Procurou vestígios da imagem de Cida. Ela havia ido embora, mas assim como fora, poderia voltar a qualquer momento. Um gato atravessou o telhado e parou por um segundo, observando-a, intrigado, como se ela fosse uma figura indesejável. Clara observou os olhos grandes e sentiu um arrepio. Afastou-se da janela e voltou-se para Nael, que a olhava surpreso. Não entendia a reação. Clara não deu maiores explicações. Dirigiu-se ao quarto, rapidamente.

Postar um comentário

PULICAÇÕES MAIS VISITADAS

TRABALHO VOLUNTÁRIO NO HOSPITAL PSIQUIÁTRICO : UMA PROVOCAÇÃO PARA A VIDA

 TRABALHO VOLUNTÁRIO NO HOSPITAL PSIQUIÁTRICO : UMA PROVOCAÇÃO PARA A VIDA
Participávamos de um grupo de jovens religiosos, no final da década de 70. Era um grupo incomum, porque embora ligado à igreja católica, recebia participantes que não possuíam religião definida, sendo um deles, inclusive espírita.  Formava um caldo interessante, porque as discussões, ainda que às vezes, estéreis, produzia muitos encaminhamentos para discussão. Era  realmente um agrupo eclético, e por assim dizer, quase ecumênico. A linha que nos norteava era a solidariedade com o próximo. Queríamos inconscientemente modificar o mundo, pelo menos minorar o sofrimento dos que estavam a nossa volta. Diversos temas vinham à pauta, tais como moradores de vilas paupérrimas, desempregados, idosos do asilo, crianças sem acesso a brinquedos ou lazer. Era uma pauta bem extensa, mas houve um tema que foi sugerido por mim. Tratava-se de se fazer algum tipo de trabalho com os pacientes do hospital psiquiátrico. Houve de imed…

METÁFORAS CRUÉIS : desqualificação das mulheres e negros

Certa vez, em uma disciplina de um curso de pós-graduação em linguística, avaliamos uma série de adjetivos ou substantivos adjetivados que soam lisonjeiros para os homens e ao contrário, para as mulheres produziam conotação pejorativa, pois a própria palavra utilizada possui juízo de valor, tanto para um lado quanto para o outro. Estas distorções linguísticas são foco de vários estudos de cursos de pós-graduação e muito bem explanadas em vários artigos. Sabe-se entretanto, que a língua é apenas um instrumento que é fruto da cultura dos cidadãos de um país.
Estes adjetivos constituem metáforas que desquafilicam o sujeito feminino e qualificam o masculino. Se não, vejamos alguns exemplos, que foram exaustivamente avaliados em vários trabalhos, mas que cabe aqui, identificá-lo en passant. O adjetivo vadia, para a mulher tem a ver com promiscuidade, assim como vagabunda. No caso do homem, o termo vagabundo ou vadio, tem a abordagem do trabalho, mas pode incluir também um significado pos…

O URUGUAI E SEUS CARROS ATRAENTES

http://O URUGUAI E SEUS CARROS ATRAENTES

O Uruguai é um país muito bonito e como integrante da América, cheio de contrastes, sem dúvida. Mas o que me chama a atenção, sempre que visito aquele país, além da hospitalidade e elegância de seu povo, é a a maneira como as autoridades de trânsito permitem que determinados veículos sejam dirigidos nas estradas. Na verdade, a obediência às leis me parece muito bem orientada. É um povo tranquilo, que conduz seus veículos obedecendo as regras. Todavia, o que sempre me deixa intrigado são os inúmeros carros velhos, danificados, em precárias condições para transitar, que ainda vez que outra surgem nas rodovias. Por isso, tirei algumas fotos para ilustrar esta curiosidade. É uma peculiaridade de comportamento, da qual é provável que sirva de tema a muitos blogs, no entanto quero deixar aqui, às vezes a minha perplexidade, por observar estes “automóveis” andando.
Em tempo: estou torcendo pelo Uruguai, nesta copa, assim como muitos brasileiros, ac…