A CASA OBLÍQUA - CAP. XVII

Quando o interfone tocou, Clara deu um salto. Espiou pela janela e teve a impressão de ver luzes no apartamento de Dona Luisa. Estremeceu, imaginando que Cida havia voltado. Um ódio insano se apoderou dela. Sentia-se invadida em sua privacidade, em seus segredos, em sua vida.

A campainha insistia e antes que Nael aparecesse à porta, aborrecendo-a, levantou-se imediatamente da cadeira, guardando as fotos na gaveta, empurrando-as para o seu interior, negligente, investindo contra a porta, como se fosse se defender de um assassino.

Em seguida, passou por ele pelo corredor e antecipou-se rápida, para a porta de entrada. Ajeitou os cabelos, puxando-os com energia para trás e abriu a porta. Quando avistou Gustavo do outro lado, tentou fechá-la, indignada, mas ele impediu-a com o pé.

— Ué, Clarinha, não quer a minha visita?

Clara controlou-se. Perguntou o que queria àquela hora, pois ela não estava esperando visitas.

— Pois é, mas eu posso entrar, não?

— Você já entrou. O que aconteceu?

Gustavo deu alguns passos, aproximando-se de uma poltrona, perguntando se poderia sentar-se.

Clara voltava-se ansiosa, em direção ao corredor que dava para o escritório, temendo que Nael aparecesse a qualquer momento.

Então, convidou Gustavo a sentar-se e afastou-se rápida.

Gustavo passeou pela sala, segurando o cinto, observando os móveis, os bibelôs, os quadros, como se investigasse minuciosamente a cena do crime. Deu um meio sorriso, balançou a cabeça negativamente decidiu sentar-se.

Quando Clara voltou, observou-a atentamente. Percebeu uma um leve tremor nas mãos, que pareciam não lhe obedecer os gestos: ora torcia uma na outra, ora pousava-as delicadas sobre um móvel antigo, como se procurasse uma arma para atacá-lo. Ela esperou que Gustavo tomasse a iniciativa e expusesse o que o levara até ali. Ele perguntou se ela não queria sentar-se para conversar mais tranquila.

_ Gustavo, eu estou calma, mas vou ficar muito nervosa, se você não disser o quer de mim. Tenho muito a fazer.

— Muito bem. Estamos muito preocupados com você.

— Estamos? Quem?

Gustavo refletiu um pouco, como se lembrasse de um fato ocorrido. Após o silêncio provocado, lembrou-lhe que estava faltando muito ao emprego, sem dar explicações devidas, assegurando que seu nome vinha à baila diariamente, principalmente pela chefia.

— Era só isso que queria dizer-me?

— Vim representando o chefe, mas estou aqui para ajudá-la.

— Pois eu dispenso a sua ajuda, Gustavo.

Gustavo sorriu, seguro.

— Você é muito arrogante, mesmo.

Clara então decidiu mudar a tática, evitando um choque maior com o colega, especialmente, porque temia a exploração do caso.

— Olhe, Gustavo, eu agradeço muito a sua preocupação, mas é que estou tendo uns problemas com a minha monografia. Meu orientador exigiu umas mudanças no conteúdo, entende? Eu vou fazer um acerto com o meu chefe e desconto estes dias nas férias.

Gustavo voltou a levantar-se e Clara suspirou aliviada, imaginando que ele se retiraria, mas ele permaneceu na sala. Havia mais o que dizer e antes que ela interviesse, dispensando-o, indagou:

— Você não soube das últimas?

Clara afastou-se do móvel onde apoiava o corpo, insegura e aproximou-se da poltrona, sentando-se, desolada. Cruzou os joelhos e colocou as mãos uma sobre a outra, de cabeça baixa, olhando-as sem ver nada. Sabia que Gustavo havia guardado a revelação para agredi-la, para prendê-la na teia que estava cuidadosamente tecendo. Não sabia mais o que dizer ou fazer, apenas esperar o desfecho cruel que se aproximava.

Gustavo passeou pela sala, produzindo certo suspense. Colocou como de hábito as mãos no cinto, escondendo os dedos, deixando à mostra apenas o indicador, voltado para cima. Abriu as pernas e se balançou um pouco. Olhou para o teto e despachou, sonoro:

— É, Clara, a vida tem fatos surpreendentes. A polícia federal que o diga!

Ela levantou a cabeça e limitou-se a encará-lo com ódio. Ele prosseguiu, eufórico:

— Já dizia Agatha Christie que o mistério sempre acaba no final.

Clara não se conteve e perguntou, irônica:

— Ela dizia isso, é? Que criativa!

O guarda portuário se encorajou e desfiou toda a resenha de literatura policial que conhecia. Citou algumas histórias, misturando tramas e autores. Finalmente, disparou a revelação tão brilhantemente contida.

— A polícia federal descobriu tudo.

Clara sentiu-se desfalecer. Estava perdida, ele estava apenas esperando o momento certo para atingi-la e mostrava-se satisfeito por ter conseguido o seu objetivo. Tentou levantar-se, mas sentiu um zumbido, uma falta de ar e a impossibilidade de tomar alguma atitude. Apenas registrou, acabrunhada, quase numa confissão:

— Mais cedo ou mais tarde, descobririam.

Ele confirmou, sentando-se a sua frente, interessado.

— É verdade, os caras são fera. Sabe que eu me espelho muito neles. Você não acha que eu tenho todo o jeito daqueles policiais? Me falta só a técnica.

Impaciente e desesperada, sabendo que não tinha mais como defender-se nem lutar, levantou-se desafiadora, mandando-o embora. Não queria mais vê-lo a sua frente. Não queria vê-lo assistir de camarote a sua desgraça.

— Agora, você já sabe de tudo, saia da minha casa. Vá embora, me deixe em paz.

Gustavo não arredou pé. Apalermado, encarou-a, sem saber o que dizer. Ela insistiu na ordem, gritando, desorientada.

—Mas você ta me chutando da sua casa como um cachorro vira-lata? O que foi que eu disse pra lhe deixar assim? Destrambelhou de vez? – perguntou, fazendo um gesto com o indicador, próximo à orelha. – Só vim lhe dizer que encontraram o clandestino. Era do Egito, mesmo. Você tinha razão!

Desta vez, um turbilhão de sentimentos a atingiu de forma tão intensa, que ela titubeou, deixando-se cair na poltrona, tombando a cabeça para trás. Não sabia se ria ou chorava. De repente, a pressão que a constrangia, deixou de existir, dando lugar a uma sensação de extremo stress. Começou a chorar, desmedida. O outro se assustou.

— Que houve com você? Parece que cometi um crime. Só queria ajudá-la.

Desculpou-se, contrafeita. Não queria demonstrar fraqueza, mas explicou que estava muito nervosa, principalmente pelo trabalho da faculdade. Ele acenou com a cabeça, confirmando a si mesmo, que não valia à pena estudar demais.

Clara então, sentiu uma sensação de alívio. Sentia-se novamente capaz de defender-se. Revelou-se interessada.

— Mas então encontraram o homem? E já foi extraditado?

— Ainda não. O cara está preso. Mas vão tocar o infeliz, embora. Não tenha dúvida.

Houve um silêncio. Não tinham mais nada a dizer. Talvez Gustavo pudesse discorrer sobre as inúmeras possibilidades de julgamento do clandestino, se fosse incentivado. Mas, como tal não aconteceu, resolveu despedir-se.

Clara sorria, feliz, logo que fechou a porta. Imaginou a polícia vindo à sua casa, investigando a sua vida, fazendo perguntas, invadindo a sua privacidade, inventando histórias absurdas, fazendo ilações insensatas.

Como Dona Luisa deve ter sofrido, quando a comunidade passou a hostilizar o homem pelo qual nutria um amor tão intenso. Suas mãos continham pequenas manchas mais claras, como pequenas sardas, herança desagradável da idade. Mostrava-as naquela manhã, queixando-se das dificuldades pelas quais passara, enfrentando uma fila desumana para realizar uma consulta.

Como uma mulher vibrante, forte, voluntariosa, havia se tornado uma pessoa frágil, carente e medíocre.

Quem a analisasse com os olhos do preconceito, jamais imaginaria que havia tido uma paixão tão forte. Mas os velhos de hoje, foram os jovens apaixonados de ontem. Foi o que lhe dissera, naquela oportunidade.

***************

Dona Luisa apresentava uma tristeza fora do comum, naquela manhã. Parecia não se concentrar em nada.

Clara tentava ajudá-la com atenção afetuosa, sentando-se ao seu lado e ouvindo-a no seu desabafo. Perguntou-lhe se havia acontecido alguma coisa além do fato de irritar-se com a fila.

Dona Luisa sorriu, tentando mostrar-se tranquila.

— Você sabe como são os velhos. Se deprimem por nada.

— Mas a senhora me parece muito ansiosa. – percebeu que Dona Luisa não queria tocar no assunto, então concluiu – mas não é preciso contar-me nada. Quando achar que deve, eu estou aqui, para ouvi-la.

— Obrigada, querida. Sei que posso contar com você, sempre. Mas vou lhe dizer sim o motivo de minha tristeza. É que após ir ao Instituto de Previdência, fui ao cemitério. Fui visitar o túmulo de Saymon. Sabe que não levei nenhuma flor? Ele não gostava de flores em túmulos. Achava que não passavam de cadáveres enfeitando outros. As flores deviam existir plantadas nos jardins, nos campos, vivas. Mortas não significavam nada. Era um jeito só dele, de pensar. Por isso, não me dava flores, tirava retratos.

— Retratos?

— Achava que uma fotografia marcava sempre um momento especial, espontâneo. Uma vez, ele se arriscou me visitando na escola. Enviou-me um bilhete, através de um dos meus alunos, para que a gente se encontrasse na Igreja do Padre Antônio. Quando cheguei lá, ele me esperava na sacristia.

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