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A CASA OBLÍQUA - CAP.ITULO X

Em seu trabalho, Clara não conseguia esconder o nervosismo, principalmente após a notícia do jornalístico da TV, que informava a busca por um clandestino, chegado à cidade num navio mercante e que desaparecera como por encanto. Presumiam, inclusive que havia grupos constituídos no Brasil, para facilitarem a sua fuga. Tanto ela, quanto ele estavam amedrontados. Clara tentava concentrar-se em suas atividades, mas sabia de antemão que era uma tarefa impossível. Suas mãos estavam trêmulas, seu olhar desorientado, observando as ondas escuras do mar dava mostras de cansaço. Ao sentir a presença de Gustavo, empurrando a porta, sem pedir licença, teve a impressão de que ele sabia de tudo. Via nas maçãs sumidas do rosto, a ironia estampada nos olhos pequenos e vivos. Com as mãos segurando o cinturão, e as pernas meio abertas, balançava o corpo, como se quisesse marcar a presença de forma definitiva. Clara prosseguiu digitando alguns dados no computador, fingindo cuidado com a tarefa. Levantou os olhos por um instante, cumprimentando-o e voltou-os para a tela. Ele permaneceu na mesma posição. Perguntou com indisfarçável satisfação: — Viu as notícias de hoje? Ela respondeu, sem nenhuma conotação de curiosidade: — Não, de que se trata? — Vai me dizer que não sabe de nada? Todo o porto ta comentando. — Então eu não sei de nada mesmo, porque não falei com ninguém. Vim direto para o meu setor. — E nem tá curiosa? — Por que estaria? Diz respeito a algem daqui? O que aconteceu? Ele sorriu, torcendo levemente a boca para o lado esquerdo e contornou o gabinete, espiando desatento o que ela digitava. Clara, forçada a parar o que fazia, viu-o sentar na pequena poltrona que ficava a sua frente. Perguntou então do que se tratava, impaciente. — Calma Clarinha, você já vai saber. Clara alterou a voz, impaciente: — Gustavo, por favor, me respeite. Eu já lhe pedi que não me chame com esta intimidade. Ele levantou os braços, fingindo-se ofendido. — Ei, eu vim aqui, na melhor das intenções, comentar uma notícia e você me escorraça desse jeito! Por que está tão nervosa? — Eu não estou nervosa. Clara alongou o corpo na cadeira, deixando as mãos sobre a mesa, na expectativa do que viria a seguir. Não disse nada, deixou que Gustavo prosseguisse, na forma teatral que usava expressar-se. Ele não se fez de rogado. — Pois é, você perguntou se dizia respeito a nós, pois se refere exatamente a alguém daqui. Dizem que veio um clandestino num navio, dum país destes que estão sempre em guerra. E o pior, alguém acobertou o homem. — Como assim? – perguntou dissimulando uma curiosidade imprecisa. — Porque ele sumiu. Clara estava pálida. Sentia-se perdida. Mais cedo ou mais tarde descobririam tudo. Ela era a culpada, a funcionária que acobertara irregularmente um estrangeiro no País. À medida que o ouvia, tornava-se mais acuada, mas como de praxe, nestes momentos de aflição, reunia todas as energias que conseguia, desafiando o medo. Desta forma, fingiu tranquilidade e decepção com a notícia. — Isto só acontece em filme. Como é que um homem vai desaparecer como por passe de mágica? — Ele desapareceu das nossas vistas. Alguém o levou. — Como assim? — A polícia federal está investigando o caso. Já se comunicaram com a interpol. Eles acham que alguém deu cobertura a este cara. — É só um? — Pelo que eu saiba sim. — Mas, se existiu realmente este homem, ele pode ter se suicidado ou sido assassinado. — Agora é você quem está vendo filme demais. — É, pode ser. Mas você não acha meio estranho esta noticia agora, que todos os navios do Egito já partiram. — Mas quem falou em Egito? Desta vez, Clara abalou-se, ameaçada, a ponto de desfalecer. Entretanto, esforçou-se em parecer indiferente. — Como assim, eu falei em Egito? Bem, talvez porque chegaram alguns navios provenientes do mundo árabe. E como você disse, é um país em permanente conflito. — Você não acha que ta sabendo demais, Clara? — Acho que menos do que você. Renato esticou as pernas, encostando-as na mesa em que Clara estava sentada. Ficou assim, por um momento reflexivo. Depois, num ímpeto, levantou-se, colocou as duas mãos espalmadas sobre a mesa, dobrando o corpo atlético e observando-a atentamente, de perto. A seguir, uma observação maliciosa: — Sabe de uma coisa, eu fiquei muito cabreiro com aquela história do navio. — Que navio? – ela perguntou sem desviar os olhos. — Você sabe muito bem. Você até nos chamou. — Ah, por favor Gustavo, não crie histórias fantásticas. As que me contou já são suficientemente interessantes. Ele afastou-se, erguendo o corpo e concluiu: — Já sei, já sei, tô de saída. Mas fique de olho, a policia federal vai investigar e vai nos interrogar. — Eles estão cumprindo o seu papel. – respondeu friamente. Quando Gustavo afastou-se, Clara sentiu que o mundo desandava a sua volta. Trêmula, tinha apenas vontade de fugir dali para nunca mais voltar. Seu coração batia, alertado. Um suor frio inundava-lhe o rosto, o pescoço, os pulsos. Sentia um misto de medo e ódio por aquele homem que a perseguia com desconfiança. A noite certamente seria interminável. Clara mexia na bolsa, nervosa, revisando os pertences, como se necessitasse contá-los um por um, para ter a certeza de que não faltava nada. Separava os produtos de maquiagem, algumas canetas, documentos, uma pequena caderneta antiga de endereços, o celular, chaves, dividindo-os em compartimentos, guardando-os de acordo com a serventia. De repente, seus dedos deslizaram por um rolo de filmes. Lembrou dos filmes que achara no telhado, certamente jogados por Cida. Tentaria juntar todos que pudesse, mesmo que precisasse de alguém para fazê-lo e os revelaria, para saber detalhes da vida de Dona Luisa que talvez completasse a história. Deixou-se pensar nisso, como uma válvula de escape. Precisava acalmar-se. Não havia nada de concreto contra ela, a não ser a palavra de uma moradora de rua, que fazia serviços escusos para Gustavo, numa provável investigação. De qualquer forma, estava muito envolvida e precisava tomar uma atitude, com urgência. Voltou mais cansada do que de costume. Não conseguia desvencilhar-se dos pensamentos inoportunos, da voz irônica de Gustavo, das notícias da TV, de tudo que lera nos sites especializados. Estava absorta e triste. Sabia que os problemas se acumulavam e ela os havia criado. Algo lhe dizia, que não ficaria incólume naquela investigação. Soltou a bolsa sobre o móvel da sala de estar, como de hábito e dirigiu-se ao quarto para tomar um banho e depois tentar comer alguma coisa. Foi o que fez. Logo dirigiu-se à cozinha e surpreendeu-se ao ver a mesa posta, o café, sucos, frutas, pães. Alyan a aguardava, solícito. Fitou-o, recompensada. Até sorriu. Senti-lo assim, tão próximo e presente, deixava-a novamente em paz.
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