Pular para o conteúdo principal

A CASA OBLÍQUA - CAPÍTULO IX

Capítulo IX

Clara temia que os fatos acelerassem alguma atitude extrema que precisasse tomar. Não podia abandonar Nael à própria sorte, mas ao mesmo tempo, sentia-se constrangida pela revelação de Cida.

A sua situação se agravava, arriscava-se a ser parte de um processo administrativo que poderia afastá-la do trabalho, inclusive ser demitida. Na verdade, sentia-se uma tola, por ter deixado que os sentimentos sobrepujassem a razão, a ética profissional e os seus deveres de funcionária. Mas por outro lado, aquela situação havia preenchido uma lacuna de sua existência. Resgatando a liberdade de Nael, estava resgatando também um pouco de sua liberdade, sua condição de mulher, que se sentira ultrajada. Estava tão frágil e dependente quanto ele. Talvez por isso, tomara a decisão sem compromisso com a realidade.

Ele por sua vez, estava envolvido em muitas dificuldades e lutava, como ela, para sobreviver. Percebera a maneira aflita de Clara, após a conversa com Cida. Mostrara-lhe os pertences, alguns documentos, inclusive dinheiro, insinuando que precisava achar uma saída para não comprometê-la com seus problemas. Entretanto, nem desconfiava o quanto ela já estava comprometida.

Mas como dizer isso a ele, como explicar-lhe que pouco adiantaria ele sair dali, se aquela mulher sabia de tudo, se poderia contar a Gustavo ou a qualquer um, se poderia gritar ao prédio inteiro que ela escondia um clandestino em casa. Logo ela, que trabalhava num setor em que lhe depositavam extrema confiança.

Estava assim, confusa, quando ele bateu à porta do quarto.

Clara ajeitou os cabelos, puxando-os para trás. Depois secou os olhos com o dorso da mão e aproximou-se da porta, indecisa. Na verdade, não queria atendê-lo, não tinha o que dizer-lhe além do que conversaram. Mas parece que Nael tinha outra motivação.

Trazia nos olhos uma expectativa que a surpreendia, quando abriu a porta. Pediu-lhe desculpas no mesmo inglês obtuso, argumentando que gostaria de conversar com ela. Disse-lhe que a esperaria na sala ou no escritório, se não se importava.

Clara assentiu com a cabeça. Por um momento, sentiu um certo entusiasmo por aquela companhia inusitada. Acrescentou que faria um café e que conversariam em seguida, apenas ia arrumar-se um pouco.

Ele não entendeu o fato de arrumar-se, mas disse-lhe que a ajudaria, colocando a água no fogo. Afastou-se e deixou-a pensativa.

Que lhe falaria com tanta urgência? Que teria acontecido para chamá-la em seu quarto, depois de tudo que haviam conversado, inclusive sobre a vida dele, a profissão e suas dificuldades políticas. Mas, de todo modo, sentia um certo ânimo em seu estado de espírito que a deixava quase feliz.

Então, lavou o rosto e sem demora já esboçava uma maquiagem suave, escondendo o desânimo. Vestiu um blusão de lã fina que lhe delineava o corpo, sobre uma saia escura, aliando-os ao sapato preto, de salto não muito alto. Olhou-se de perfil, no espelho, virou-se de um lado, do outro. Por que estava tão preocupada com aquele homem a ponto de se mostrar bonita? Acenou a cabeça, negativamente. Evitaria qualquer análise de si própria.

Abriu a porta do quarto e deu alguns passos pelo corredor, sentindo um aroma gostoso de café. Sorriu, levantou a cabeça e dirigiu-se com elegância até a cozinha. Parou na porta e esperou a reação dele.

Nael voltou-se, com a chaleira na mão, para devolvê-la ao fogão. Ficou assim, com a mão no ar, segurando a chaleira, fitando-a embasbacado. Seus olhos estavam fixos naquela mulher que parava a sua frente, como se estivesse ali, exclusivamente por por ele.

Clara correu ao seu encontro e, sorrindo, tirou-lhe a chaleira, colocando-a sobre o balcão de pia. Ele também sorriu, desajeitado, avisando da tentativa de contribuir, fazendo o café. Ela concordou, dizendo que sentira o cheiro do café, ainda no corredor, quando saíra do quarto.

Então, quase se chocaram, estabanados, ele afastando-se do fogão, com a garrafa de água quente, ela tentando aproximar-se do outro lado do balcão de pia, para preparar uns sanduíches rápidos, abrir o armário aéreo, tirar alguns biscoitos, procurar as xícaras, os pratos e servir a mesa.

Em seguida, sugeriu que ele sentasse, que terminaria a tarefa.

Ele desobedeceu, queria ajudá-la, já tinha decidido. Tirou as xícaras de sua mão, dispondo-as sobre a mesa, colocando os pratos ao lado e os talheres.

Em seguida, tomaram o café, conversando amenidades. Ela contou-lhe sobre o curso de mestrado e as dificuldades em dividir o tempo, já que seu serviço exigia horários diversos. Falou sobre a mãe, que morava numa pequena cidade bem ao centro do estado, viúva e solitária, sempre preocupada, achando que estava sempre correndo riscos por viver sozinha. Costumava influenciar-se pelas notícias policiais, das quais fazia o seu programa favorito.

Nael a ouviu atento e numa pausa, perguntou se não havia riscos realmente em morar sozinha, se sua mãe tinha razão. E assim conversaram por muito tempo, até ele elucidar o motivo principal de sua conversa. Não devia esconder nada de seu passado, era preciso contar-lhe sobre Tamara, sobre a tragédia que fora a sua vida e da culpa que carregava por ter sido ineficaz em sua negociação.

Quando acabou, estava exausto. Clara percebeu seus olhos se encherem de lágrimas e o quanto aquele assunto o mortificava.

Nael soltou os braços sobre a mesa, como se desatasse um nó em seus músculos retesados, abandonando-os sem ação. Permaneceu calado, com a impressão de que as imagens nebulosas dos acontecimentos retomavam o rumo e lhe atingiam a retina.

Clara também estendeu os seus braços e quase sem querer, tocou-lhe levemente as mãos, consciente de que deveria confortá-lo de alguma maneira. Deixou-se ficar uns instantes, com as mãos sobre as dele, sentindo-lhe a pele fria e úmida. Tentou retirá-las, , mas ele as segurou, afetuoso e agradecido. Reteve-as assim, entre as suas, como se precisasse delas para sobreviver.

Clara então, levantou-se, afastando-as delicadamente, com a desculpa de convidá-lo para se dirigirem à sala. E assim procederam.

Nael, aos poucos foi reavendo a calma, extravasando os sentimentos, após tanto tempo contidos. Comentou sobre a fuga no navio e na espera torturante que havia sido a sua permanência, confinado entre a carga. Também considerava que ela havia sido um anjo, que o salvara, que cuidara dele e que já fazia parte de sua vida. Sua imagem estava gravada em seu espírito, guarnecida por sentimentos de carinho e gratidão.

Clara sorria, satisfeita. Queria interrompê-lo, mas não havia silêncios. Ele tinha uma necessidade de expressar-se, sendo fiel aos seus pensamentos. Aliado a todos os acontecimentos, preocupava com a segurança de Clara, já que ela estava envolvida com ele, comprometida com todo o seu drama, e ele não queria prejudicá-la, por isso, pensava numa maneira de procurar outro lugar para ficar. Ele tinha dinheiro que o ajudaria a sobreviver por algum tempo, vivendo em outro lugar como refugiado, até solucionar a sua situação, pedir asilo na embaixada, acertar a sua permanência no País.

Clara não concordava com esta decisão. Sabia que as leis eram severas com clandestinos, ele infalivelmente seria preso. Além disso, achava que era muito cedo para tomar alguma atitude, porque ele deveria se restabelecer. E entre uma discordância e outra, ficaram conversando durante muito tempo, tanto tempo que ela passou também a contar a sua vida e suas últimas frustrações.

— Como vê – concluiu em inglês – nós temos destinos semelhantes, embora o seu, muito mais dramáticos, porque esta tragédia abominável, só existiu em função de uma guerra civil e um regime de exceção. Mas, no meu caso, eu estou também muito infeliz, tive uma desilusão amorosa, senti-me abandonada, a última das mulheres. De certo modo, você foi a minha redenção.

A última frase, ela não chegou a proferir, sem coragem de prosseguir.

Finalmente, acabou contando-lhe sobre a mulher do apartamento ao lado, inclusive revelando suas chantagens.

Esta situação o tornou ainda mais convicto de que a sua presença só lhe traria prejuízos.

Clara afirmou que lhe falara sobre a mulher para que ele jamais abrisse a porta e acrescentou que dificilmente, Cida faria alguma coisa contra ela. Seu interesse era permanecer no prédio. Evitou entrar em maiores detalhes.

Ele por fim, disse-lhe que se sentia mal nesta situação de dependência, inclusive financeira, por ela assumir todas as despesas.

Clara, entretanto questionou o que ele faria num país estranho, do qual ainda nem conhecia o idioma. Não obstante, era um homem procurado em seu país, dia mais dia menos, descobririam o seu paradeiro.

Nael aquietou-se, pensativo. Imaginou que as investigações já deveriam ter começado.

Clara, adivinhando-lhe o silêncio, assegurou que nunca desconfiariam que ele estava escondido em seu apartamento, embora intimamente, se preocupasse com as desconfianças de Cida.

Postar um comentário

PULICAÇÕES MAIS VISITADAS

TRABALHO VOLUNTÁRIO NO HOSPITAL PSIQUIÁTRICO : UMA PROVOCAÇÃO PARA A VIDA

 TRABALHO VOLUNTÁRIO NO HOSPITAL PSIQUIÁTRICO : UMA PROVOCAÇÃO PARA A VIDA
Participávamos de um grupo de jovens religiosos, no final da década de 70. Era um grupo incomum, porque embora ligado à igreja católica, recebia participantes que não possuíam religião definida, sendo um deles, inclusive espírita.  Formava um caldo interessante, porque as discussões, ainda que às vezes, estéreis, produzia muitos encaminhamentos para discussão. Era  realmente um agrupo eclético, e por assim dizer, quase ecumênico. A linha que nos norteava era a solidariedade com o próximo. Queríamos inconscientemente modificar o mundo, pelo menos minorar o sofrimento dos que estavam a nossa volta. Diversos temas vinham à pauta, tais como moradores de vilas paupérrimas, desempregados, idosos do asilo, crianças sem acesso a brinquedos ou lazer. Era uma pauta bem extensa, mas houve um tema que foi sugerido por mim. Tratava-se de se fazer algum tipo de trabalho com os pacientes do hospital psiquiátrico. Houve de imed…

METÁFORAS CRUÉIS : desqualificação das mulheres e negros

Certa vez, em uma disciplina de um curso de pós-graduação em linguística, avaliamos uma série de adjetivos ou substantivos adjetivados que soam lisonjeiros para os homens e ao contrário, para as mulheres produziam conotação pejorativa, pois a própria palavra utilizada possui juízo de valor, tanto para um lado quanto para o outro. Estas distorções linguísticas são foco de vários estudos de cursos de pós-graduação e muito bem explanadas em vários artigos. Sabe-se entretanto, que a língua é apenas um instrumento que é fruto da cultura dos cidadãos de um país.
Estes adjetivos constituem metáforas que desquafilicam o sujeito feminino e qualificam o masculino. Se não, vejamos alguns exemplos, que foram exaustivamente avaliados em vários trabalhos, mas que cabe aqui, identificá-lo en passant. O adjetivo vadia, para a mulher tem a ver com promiscuidade, assim como vagabunda. No caso do homem, o termo vagabundo ou vadio, tem a abordagem do trabalho, mas pode incluir também um significado pos…

PIOLHOS DE RICO

Há quem adore rico. Certamente não àquele rico de fachada, que aparece toda semana nas páginas de socialite dos jornais ou fazendo campanhas de benemerência, sob alcunhas de bons moços e gente de bem. Gente chic que veste nos grandes magazines (sic) e se atualiza em grifes de marketing.
Há os que adoram gente rica, e não são pessoas ruins ou cidadãos menores. São apenas simplórios.
E também não há nada contra os verdadeiramente abonados, que construiram suas fortunas e obtiveram seus bens com seu trabalho, aumentaram seu patrimônio ou investiram nos que lhes foi legado de direito.
Mas há os que grudam nos ricos, diria que são verdeiros piolhos de rico, cono costumava dizer um colega de trabalho, talvez um pouco incomodado pela sabujice de um ou outro companheiro.
Mas analisando a situação, percebi que piolho de rico é aquele que está sempre grudado numa pessoa abonada, em qualquer esquina que vá, em qualquer cruzeiro pra lhe dar as boas idas (e vindas), em qualquer festa de bodas em …