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A CASA OBLÍQUA - CAPÍTULO IV

CAPÍTULO IV

Clara levantou-se inquieta e espiou pelas frestas da veneziana.

Luzes que evocavam movimentos, pessoas que passavam na calçada, lá embaixo, mas cujas vozes ressoavam agitadas, como se estivessem ali, bem próximas.

Buzinas de carros, motos que rasgavam tímpanos, dilacerando ouvidos.

Portões de ferro arranhando os pisos. Lojas abrindo. Operários chegando. Conversas no café, na padaria, nos açougues. Primeiros acordes do dia.

Não conseguia relaxar, como pretendia. Pensamentos confusos, que iam e vinham ao sabor das recordações, ora agradáveis, ora tristes ou trágicos. Por vezes, lembranças da infância, trazendo-lhe aromas conhecidos de fins de tarde de outono, brincadeiras na rua, amassando folhas secas, ouvindo o estalido agradável de se partirem como papel.

Vozes dos pais, resgatando pequenas alegrias, que se espalhavam no dia a dia, sem maiores preocupações, do que ser feliz.

Até que eles desapareceram, um de cada vez, como folhas agora não mais rígidas, recém caídas da árvores, mas murchas, maceradas pela chuva e lama de início de inverno: inverno de doença e tristeza, que pareciam não ter fim.

Talvez por isso tivesse se apegado tanto à Dona Luisa, assim só, perdida em seus pequenos temores, sua introversão e seus segredos.

Aos poucos, se acostumara com ela, diferente dos demais condôminos, que a evitavam. Ela, ao contrário, aproximou-se aos poucos, vencendo as resistências, participando de seus silêncios, respeitando sua intimidade, ouvindo-a.

Se ao menos tivesse um tarja preta, poderia serenar a mente e dormir. Mas não tinha este hábito. Tinha um certo preconceito contra estas fragilidades. Não era de seu feitio resolver seus problemas com muletas químicas.

Hoje, porém, estava especialmente conturbada.

Decidiu fazer qualquer coisa que fizesse sentido e a tirasse daquela inquietação.

Talvez dedicar-se a alguns capítulos de sua dissertação, mas sabia de antemão que não se concentraria o suficiente.

Vestiu então um jeans, uma blusa grossa de lã, enfiou os chinelos, enquanto prendia os cabelos com um acessório qualquer, retirado da cômoda, colocou os óculos e afastou-se lentamente do quarto.

Respirou fundo, espiou pelo corredor e dirigiu-se à sala de estar.

Observou o estranho enrolado, do mesmo jeito que deixara, a sono solto.

Então, voltou para a outra extremidade do apartamento, uma sala contígua à cozinha, que servia de escritório e deixou-se ficar, com os braços no parapeito da janela, observando a paisagem cinza dos telhados.

Dali, podia avistar apenas a janela do apartamento de Dona Luisa, vazio há algum tempo, numa contenda entre herdeiros, uns sobrinhos distantes.

Lembrava dela e doía-lhe a alma, sempre que a imaginava tão sozinha. Via o espectro da solidão, como se a divulgasse por aí, como uma parceira da qual não pudesse se livrar.

Poucas vezes, saía de casa, e quando o fazia, trazia um embrulho de supermercado ou de remédios.

Algumas vezes, a vira com livros.

Quando morreu, o apartamento ficou interditado, até que os sobrinhos aparecessem. Assim como chegaram, sumiram.

Clara afastou o olhar, cansada, mas por um momento, voltou-se para a janela do apartamento com a impressão de que havia alguma luz lá dentro.

Era impossível, porque o litígio jurídico continuava e o apartamento permanecia lacrado. Devia ser o reflexo da janela, já que o sol modorrento a iluminava.

Desviou os olhos e os pensamentos. Não tinha nada a ver com o que acontecia lá, além do que, a única pessoa que fazia algum sentido no apartamento era Dona Luisa.

Ficou absorvendo o sol morno de fim de inverno, que parecia interminável.

Voltar para o interior do apartamento era revisitar o seu passado, os últimos acontecimentos.

Estava tão apática quanto o sol. Sem disposição para mexer um dedo, muito menos, enfrentar seus próprios pensamentos.

O melhor que lhe aconteceria, seria desabafar, mas com quem?

No trabalho, sentia-se quase uma invasora. Participava de uma seara tipicamente masculina e sempre tivera o freio puxado, quando tentava impor a sua opinião.

Havia assumido o cargo de conferente, na falta providencial de um profissional que se aposentara e na percepção de sua competência, pelo diretor da época.

O fato de saber línguas havia facilitado a sua inclusão no meio, além de ter o convívio assegurado com os demais, como telefonista, enquanto fazia a graduação.

Aos poucos, firmara a sua competência profissional, através de uma postura formal e burocrática.

Na Universidade, pouco se encontrava com colegas, já que estava estruturando a sua monografia.

Vez que outra, deparava-se com um ou outro, quando se encontrava com o seu orientador para discutir a formalização ou o conteúdo do trabalho.

Entre tantas perdas, como a de Dona Luisa, associava-se a do noivo: o único que não tinha o direito de afastar-se de sua vida de uma forma agressiva e inesperada, sem preparar-lhe o espírito para maturar a dor que produzia. Marcas profundas, difíceis de aplacar.

Estes pensamentos a incomodavam, esta análise rasa de sua vida, que mais parecia uma aventura de adolescente. Costumava censurar-se assim, sem qualquer hesitação, principalmente agora, que estava com a estima em baixa.

Devia voltar para o quarto, passar aquele dia monótono, para quem sabe, recompor o pouco do que restara de suas energias. Mas nada a demovia dali e ficou tanto tempo que se perdeu nas horas.

Uma pomba pousava delicada sobre o telhado, bicando obstinada um pequeno objeto que Clara não conseguia visualizar. Era alguma coisa que brilhava de vez em quando.

A pomba escondia, fazendo círculos, misturando o seu cinza com o do telhado.

Vieram algumas em bando, mas logo desistiram.

O parceiro também surgiu e só os dois permaneceram ali, imbuídos em descobrir o indecifrável. Ela pertinaz, disciplinada. Ele fazia a corte, por vezes, peito estufado, envaidecido. Em seguida, perdia-se numa semente oculta nas fendas dos telhados ou buscava alguma coisa que somente ele atinava.

Clara alongou o corpo para fora do parapeito, envolvida naquele cenário inusitado.

Aguçou a vista e os ouvidos e percebeu que se tratava de um objeto um tanto estranho. Não tinha o formato de um celular, embora se assemelhasse no tamanho, nem de um isqueiro ou mesmo de uma cigarreira.

Talvez um antigo rádio à pilha ou um pen drive.

Ela estava quase desistindo da epopéia, quando percebeu tratar-se de um cilindro, que parecia um rolo de filmes antigo.

Clara deitou o olhar mais longe, desviando do objeto e reparou que havia outros em pontos diversos: nas calhas, nas beiradas dos telhados, próximos à parede do prédio e todos tinham o mesmo formato de rolos de filmes.

Então decidiu entrar e encontrar um método de resgatar um dos rolos.

Quando voltou com um rodo, as pombas debandaram.

Puxou o que lhe parecia mais próximo e sem muito esforço, já o tinha em mãos.

Examinou o rolo, percebeu que estava enferrujado, tanto que mal se decifrava a marca. Levantou-o na direção dos olhos, examinando minuciosamente contra o sol, mas instintivamente voltou-se para a janela do apartamento abandonado e surpreendeu-se com uma figura que a observava da janela.

Teve um sobressalto que a empurrou dois passos para trás.

Jamais imaginaria alguém naquela janela, uma janela pouco frequentada, inclusive pelo proprietária, que mergulhava em seu interior para afastar-se de tudo que a cercava.

Parecia a fisionomia de uma mulher, não visualizava com clareza, devido à opacidade provocada pela sujeira.

Clara não conseguia desviar os olhos e a pessoa afastou-se da janela.

Clara tomou a mesma atitude, voltando para o interior do gabinete.

Não sabia exatamente como voltar para o quarto e mergulhar em seus pesadelos, entretanto aquele rolo de filme instigava a sua imaginação.

Talvez pertencessem à dona Luisa e ela encontraria neles alguma informação, um parente distante, cenas de seu passado. Cenas que revelassem talvez uma personalidade não tão introvertida.

Além disso, alguém, naquele apartamento, havia quebrado o lacre judicial e tomado conta do imóvel.

Clara largou o rolo sobre a escrivaninha, sentou-se ficou rememorando o passado.

Subitamente ouviu um gemido, que a transportou imediatamente ao cenário que criara em sua sala de estar: o estrangeiro enrolado em cobertores, queimando em febre.

Foi ao seu encontro, temerosa de encontrar um quadro ainda mais aflitivo. E não se enganara, o homem apresentava uma fisionomia doentia, o rosto molhado de suor. Os cabelos negros constituíam uma espécie de pasta, os olhos encovados, muito abertos, a boca trêmula. Gemia, balbuciava palavras, frases desconexas, que ela não distinguia se traduziam expressões provocadas pelo delírio febril ou pertenciam à língua estranha de sua origem.

Ela afastou-se rapidamente e trouxe um comprimido e água. Uma aspirina certamente o ajudaria naquele momento, mas se a febre não passasse, teria de tomar outra providência.

Precisava pensar que caminho tomar, quem chamar para socorrê-lo, que desculpa inventar para a presença daquele estranho em sua casa.

Sentou-se ao seu lado, como fizera da outra vez, segurou-lhe a cabeça, para que ingerisse o comprimido.

Ele obedeceu e aos poucos adormeceu novamente, transformando a agitação numa tranquilidade aparente.

Clara suspirou, aliviada.

Afastou-se, procurando não fazer ruído.

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