Pensar nas nuvens

Desci lentamente a rua, uma ladeira estreita, amaciando os pés nas folhas amarelas, dobrando esquinas, pesquisando um ar mais puro, rarefeito. Sem saber, tinha em meu coração que coisas ameaçadoras interromperiam minha trajetória.

Mas que fazer, se não esmagar com as mãos aquele gato pequenino, que miava insistente, que teimava em não ser afogado no tanque? Puxar o gatilho da mente, disparar as ondas elétricas do cérebro, insistir no improvável. Viver outra armadilha, muito mais densa, mais perigosa. Enroscar-me na rede como um peixe agonizante.

Olhar pelos atalhos e sentir que a dor é bem mais intensa quando se vê a alegria dos outros. Os outros que estão tão próximos, instigando suas curiosidades, com olhos fixos em nossa dor, que quase os tocamos e sentimos sua gosma grudenta, sua respiração ofegante, seu hálito sujo.

Poder fugir da armadilha, escapar da dor imensa, mergulhar no passado, pisar novamente as folhas secas, amaciar os pés na fofura verde-amarela, sentir o hálito puro do entardecer do outono, correr. Correr, correr, correr. Buscar longe uma alegria aqui, tão perto, dentro do peito. Jogar, jogar, jogar. Até cansar e deitar no chão de grama molhada, pernas para cima, barriga ofegante, coração calmo. Olhar o infinito do céu e perceber as nuvens se deslocando faceiras. Respirar fundo.Olhar para o amigo do lado e sentir-se apoiado. Saber que não se é um só, mas uma falange. Uma alegria única jamais conquistada.

Esta quase certeza da ameaça que se aproxima. Que as nuvens já não correm faceiras, nem posso vê-las deitado.

Que a alegria era única e o céu ficou pra trás. Pungente. Doída. Vida a esmo, indefinida. Perdida. Nau sem rumo, peixe quase morto, agonizante, agoniado, agonia, urro de dor.

Fechar e abrir os olhos e antever o futuro insosso, bisonho, sem luz, sem brilho, sem. Vestir-me assim, qualquer cor que faça presença. Que sobressaia na multidão de zeros, que fuja de senso padronizado de ver o mundo.

Que fuja da certeza e afunde nas incertezas, nas buscas, nas procuras insensatas, no gargalhar insano de afundar o gato no tanque.

Que se dane o gato, que se dane o seu miar horroroso. Que se dane a dor. A dor do gato. A minha dor. Libertá-lo pode ser apenas o início da prisão eterna, libertá-lo pode significar a morte. Por que deixar viver o que morto está? Por que ouvir o desespero do miado, se a constância da fome vai lhe percorrer o caminho? Por que insistir na esperança?

Mas quem sabe tem uma saída? Todos os gatos são resistentes, são caprichosos, perspicazes. Sabem lutar, sobreviver.

Por que dividir o cálculo, destruir a lógica. Por que inferir uma certeza se não há nada absoluto. Quem sabe salvá-lo ou deixá-lo à própria sorte.

Gato maldito que me deixa tantas dúvidas. Interrompes meus pensamentos, te inseres em minhas ideias, me pressionas com teus ais.

Entrar na sala, sentir os lambidos indecorosos, as súplicas nos meio-olhares, os meio-sorrisos, as meias-atitudes, as mesmices, a mediocridade.

Conviver com elas e pensar elevado. Pensar nas nuvens com os pés atolados na lama.

Pular a cerca, correr pelos muros, subir paredes, com as pernas presas no concreto, no subir das escadas, no descer em elevadores, no respirar aflito, na ansiedade da porta que se fecha. Ouvir as risadas lá fora. Só as risadas e não ver ninguém. Não ver o amigo do lado. Nem a falange.

Quem sabe pela luz filtrada da cortina, ainda enxergo o menino esticado na grama molhada, sorrindo, escamoteando o tempo, sugando a vida sem pressa, olhando as nuvens faceiras no céu e pensando que o amigo ainda é uma falange.

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