A CASA OBLÍQUA - CAPÍTULO III

CAPÍTULO III

Não havia como recuar, embora Clara se sentisse perdida. Toda a euforia do resgate passara como por encanto. Estava deprimida, irritada consigo, atordoada. Como tirar aquele homem do carro, abrir a porta do prédio e torcer para que ninguém a visse.

O vento estava mais intenso, embora não mais chovesse desde que deixara o porto.

Começou por etapas, tentando acordá-lo. Agora percebia que ele estava praticamente dobrado em dois, como um malabarista. Encolhido no banco, a cabeça rente à janela e as pernas estiradas para baixo, joelhos articulados de forma a caber os pés sob o assento dianteiro.

Puxou a capa, descobrindo-lhe os ombros, surgindo um corpo magro, cuja ossatura se salientava sob um casaco ruço, que mal lhe cobria as costas, tão curto, como se não fosse dele. Usava calças de algodão escuro e um cheiro de suor exalava de seu corpo.

Clara tentou acordá-lo, mas não foi necessário. Ele virou a cabeça lentamente, fitando-a da mesma maneira anterior: entre suplicante e assustado. Olhos grandes, rosto sovado, queixo quadrado, lábios ressequidos.

Ela estendeu-lhe a mão, pedindo que se levantasse, sairiam dali, precisavam entrar no prédio, se aquecer.

Embora não decifrasse o que ela dizia, ele percebeu a ajuda. Obedeceu, esforçando-se para ajeitar-se no banco e tentar sair. As botinas de camurça prendiam nas ferragens dos bancos.

Clara não distinguia se era por inabilidade ou por estar extremamente debilitado.

Não demorou muito e estavam os dois na rua.

O vento açoitava-lhes o rosto, mas o que interessava naquele momento, era chegar até a porta de ferro, girar a chave na fechadura, adentrar num ambiente menos hostil.

Foi o que fizeram: ele ao seu lado, arrastando os pés, lentamente. Ela empurrando-o até chegarem no elevador antigo, arrastar a grade, apertar o botão correspondente ao 9º andar e aguardarem, respirando o mesmo ar confortante da chegada.

Felizmente, estavam sozinhos.

Àquela hora, o prédio ainda não despertara.

Quando ela entrou em casa, quase o esqueceu no elevador, tão apressada estava em livrar-se da bolsa e da gabardine molhada que carregava.

Abriu a porta, fez um gesto chamando-o.

Não sendo obedecida, correu ao seu encontro, segurando-lhe o braço com firmeza.

Em seguida, ele estava no sofá de sua sala de estar. Ela ajudou-o a deitar-se. Torceu o nariz, porque a primeira providência deveria ser a de um banho, mas sabia que isto seria impossível por enquanto.

Livrou-se do agasalho molhado, pendurando-o junto com a gabardine. Dirigiu-se à cozinha e preparou um leite quente.

Quando voltou, encontrou-o dormindo, encolhido no sofá. A boca cerrada, fisionomia tranquila, sob uma barba rala. Soltou a bandeja com o leite e algumas fatias de pão sobre mesa e trouxe um cobertor, cobrindo aquele corpo úmido, com todos os humores exacerbados.

Clara sentou ao seu lado. Chamou-o. A refeição, naquele momento era providencial. Tentou acordá-lo, batendo em seu ombro, obrigando-o a mexer-se.

Ele pronunciou alguma coisa estranha. Olhou-a como se jamais a tivesse visto: um misto de surpresa e aflição.

Clara insistiu, perguntou em inglês, se não se lembrava que ela o tinha ajudado a sair do navio.

Ele sorriu levemente e desanuviou o olhar. Certamente entendia alguma coisa.

Ela levantou-se e trouxe a bandeja, oferecendo-a.

Ele aquietou-se por um momento, como se precisasse decidir que atitude tomar. Depois, tentou-se sentar-se, sem conseguir se equilibrar, mesmo assim, estendeu o braço, tentando segurar o copo. A mão tremia, o corpo desestabilizado.

Clara aproximou-se e ajudou-o a segurar o copo, antes porém, arranjou algumas almofadas em suas costas.

Ele sorveu o líquido, mas mal conseguia engolir, ofegante, arfando como se as últimas forças o abandonassem por completo.

Logo que terminou, Clara livrou-se do copo, solícita. Mostrou-lhe o pão, mas ele rejeitou com um aceno. Provavelmente teria dificuldades para mastigar qualquer alimento sólido.

Ela entendeu e levantou-se, afastando-se um pouco.

Sem perceber, Clara examinava aquele homem deitado em seu sofá, vestido com roupas andrajosas, tão frágil e ao mesmo tempo um provável problema, que pode trazer-lhe muita confusão. Parecia imitar a Madre Tereza de Calcultá, tão solidária estava sendo, mas não era do seu feitio. Ela sempre fora uma mulher voluntariosa, preocupada com seus problemas, seu trabalho, seu mestrado, talvez até um pouco indiferente com o próximo. Mas agora, a situação se obrigara a tomar uma decisão que não permitia pensar muito. Ou ajudava aquele homem ou o deixava à sorte da justiça, devendo ser extraditado.

Por um momento, seus olhos se encontraram com os dele, que a fitavam pensativos.

Voltou-se para a bandeja, segurou-a com as duas mãos e fez um gesto para que ele dormisse e descansasse. Afastou-se rapidamente da sala pisando firme.

Na cozinha, sentou-se à mesa, olhando para as paredes, imaginando nelas um outro ambiente, que não era o seu. Tudo assumia uma atmosfera estranha, até o velho relógio, herança de sua avó, parecia rejuvenescido. Não parecia a sua casa, a sua cozinha. Aquelas paredes brancas e monótonas, adquiriam novos matizes, mais coloridos e festivos.

Na verdade, era sua alma que estava mais livre. Seus sentimentos de rejeição, sua baixa estima e as últimas frustrações davam uma trégua.

Talvez, pela primeira vez, não estava pensando somente em si, no mau-caratismo de Bruno, no ritmo alucinante do trabalho, no pouco tempo para as pesquisas do curso, na sua falta de lazer.

Sentia-se leve, quase liberta pela atitude que tomara, talvez até egoísta em poder decidir sobre a vida de uma pessoa.

Ao mesmo tempo, refletia que tudo não passava de uma grande bobagem e ela estava apenas tentando esquecer o passado, as últimas ocorrências nefastas e o seu ódio contido.

Talvez uma desculpa, que dava a si mesma, por não ter sido perspicaz o suficiente para acreditar na fidelidade do homem, ao qual compartilhara toda a sua intimidade, na certeza de que palmilhariam o mesmo futuro.

Levantou-se, irritada. Preparou o café no microondas e pegou o tablet para zapear as notícias do dia. Não se dedicava à grande mídia, preferia os jornais alternativos e os regionais. Saber da sua cidade, dos acontecimentos tão próximos era integrar-se na comunidade. Mas estava exausta. Nem mesmo o café a impediria de atirar-se na cama e cair num sono profundo.

Teve um sobressalto. Como dormiria em seu quarto, com o estrangeiro na sala? Como se sentiria segura, tendo ao seu lado uma pessoa estranha, cujos hábitos desconhecia? Não sabia nem ao menos o seu nome.

Dedicou-se a estas especulações por pouco tempo. Aquele homem estava mais morto do que vivo.

Encaminhou-se devagar para o quarto, trancando a porta e dirigindo-se ao banheiro.

O vento sacudia as venezianas, que iluminavam o quarto através de pequenos rasgos de luz.

Clara acabou de secar os cabelos e atirou-se na cama, como estava, sem preocupar-se com outra peça de roupa.

Aos poucos, ouvia o barulho das ruas.

A cidade acordava.

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