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A CASA OBLÍQUA - CAPÍTULO II

Resumo do primeiro capítulo (anterior). Todos os capítulos são publicados nas terças e sextas-feiras

Naquela noite de muita chuva, vento e frio, Clara chegara ao porto, seu local de trabalho. Enquanto examinava as planilhas dos navios que deveriam ancorar no cais, recordava da desilusão amorosa que tivera com o namorado Bruno, que a deixara por não saber conviver com a rotina de um presumível casamento.

Sozinha e triste, ela executou as suas tarefas no navio chegara, dirigindo-se ao porão para a inspeção normal.

Assustou-se quando viu um homem escondido, percebendo tratar-se de um clandestino. Lembrando-se da vizinha e amiga, dona Luisa, que na época da Segunda Guerra Mundial, acolhera um refugiado, um tanto confusa , Clara decidira reproduzir a mesma situação.

O homem revelava-se muito doente e ela dissera aos guardas portuários, que não havia nada de anormal no navio. Sendo assim, imaginou um plano de retirá-lo da embarcação.

A seguir o segundo capítulo de A CASA OBLÍQUA

CAPÍTULO II

A atmosfera lá fora era quase um desafio à sobrevivência humana. Raios riscavam o céu, como lanças sem rumo, iluminando a escuridão enviesada de nuvens. A chuva aumentara, organizando poças que se uniam em corrente, formando verdadeiros rios, só atravessados por pés emborrachados. Os guardas permaneciam nas cabines. Os estivadores se juntavam sob os alpendres dos galpões do porto.

Um ponto nebuloso, encoberto na capa escura arrastava-se em direção ao carro de Clara. Esta corria até o alpendre próximo a sua sala e gritava aos homens que descarregassem o navio. Que estavam esperando? Que a chuva passasse? Pois que corressem porque a noite seria longa demais. Entrou no seu escritório, em seguida, molhada da cabeça aos pés. Disfarçou como pôde e logo que viu uma brecha nos cuidados consigo, correu até o carro. Desligou o alarme e praticamente empurrou o homem para dentro dele, que ficou espichado no banco traseiro, sem ao menos livrar-se da capa que era dela.

Correu para o gabinete. Estava nervosa, porém com uma satisfação interior que se delineava em sua fisionomia. Agitada, não conseguia se concentrar em nada. Agora, não mais pelos percalços de sua vida atribulada, mas pelo que o destino lhe reservara: a presença daquele clandestino no navio. Nem sabe porque lhe viera esta história de destino à cabeça. Na verdade, ela decidira tudo. Resolvera salvar aquele homem, ajudá-lo, talvez aí sim, comandar o destino. Por isso, estava feliz.

O que a assustava a partir de agora era o fato de alguém encontrar o clandestino em seu carro, ou talvez ocorrer alguma tragédia, como a sua morte. Afinal, não sabia em que estado de saúde se encontrava. Se ele morrer, como ela explicará um cadáver em seu carro? Ainda mais de um homem fugido no navio!

Mais uma vez a imagem de Dona Luisa e sua pele frágil como de um papel amassado.

Os olhos aguados, quase sem vida, a solidão ronronando como o gato que a acompanhava, e fazia dela uma refém do silêncio. A velhinha somente conversava com ela. Não havia ninguém que compartilhasse seus momentos e sua história. Mas ao seu lado, sentia-se até feliz, confiava-lhe pequenos segredos, desvendava aos poucos o passado, contara-lhe a história do grande amor de sua vida.

Foi aos poucos, devagar, mastigando frases entrecortadas de emoção e pudor. Mostrava-lhe os livros, algumas fotos e um pequeno baú de madeira envernizada, que parecia resgatar toda a sua história.

Um dia lhe confiaria a chave, mas nunca o fez, porque morrera tão inesperadamente quanto fora a aproximação entre as duas. Talvez agora as histórias de suas vidas se assemelhassem, pelo menos neste fato inusitado: abrigar um estranho, ocultando-o das autoridades.

Clara examinou a planilha. Outro navio se aproximava. Certamente daqui a duas ou três horas teria uma outra inspeção a fazer. Não haveria como se afastar dali, nem por uma hora. Era a sua função. Tinha de cumpri-la até o fim.

A chuva amainava um pouco, quando bateram à porta do escritório. Teve um sobressalto, ao ver um dos guardas à espera que abrisse. Não sabia exatamente que atitude tomar. Acenou que estava guardando alguma coisa na gaveta e que logo abriria a porta. Foi o que fez, um pouco trêmula e indecisa.

— Puxa, Clara, pensei que ia me deixar quarando na rua!

Clara lembrou da mãe, novamente. Era uma expressão que ela costumava usar.

— A chuva deu uma parada, percebeu? – enquanto falava, mostrava uma xícara de café que trouxera para ela. Clara sorriu, aliviada. Agora percebia, que era o mais magro, mas nunca lembrava exatamente o nome.

— Obrigada. Vai me fazer bem.

— Ora se vai. Pelo seu jeito... – sorriu irônico. Tinha os olhos claros e bochechas vermelhas de frio. – Você está toda encharcada. Essa eu não entendi.

Clara tentou parecer calma. Seus olhos, porém, revelavam aflição. As mãos magras, dedos finos e longos seguravam a xícara, tremendo. Sorveu um gole. Anuiu, sorrindo. – Está quente, pra este frio. Você tem razão.

O outro insistiu: – Mas a sua capa, onde foi parar?

Clara silenciou, assustada. Depois, fingindo não entender, perguntou: — Você fala de quê?

Ele prosseguiu, folgado: — Ora, Clarinha, não se faça de ingênua. O que você fez com a sua capa?

Clara aproveitou o excesso de intimidade, para arrogar-se uma importância que não costumava impor.

— Desculpe, mas não sei o seu nome.

Ele tossiu, resmungou, irritado:

— Gustavo. Se sente tão importante assim, é?

— Não é nada disso. Você sabe que meu turno muda com frequência. Além disso, tenho outras atividades. Convivo com milhares de pessoas.

— Então tá bom, vê não se esquece. O cara que te trouxe o café. Gustavo.

Ela sorriu, consentindo:

— Está bem, não vou esquecer.

Pequeno silêncio. Entregou a xícara, agradecendo. Gustavo ia afastar-se, mas como se tivesse uma inspiração repentina, voltou-se, apresentando um gestual de quem conversa consigo próprio.

— Sabe de uma coisa? Eu não engoli esta.

Clara fingiu não ouvir. Sentou-se à frente da tela do computador e ligou o rádio na frequência do próximo navio. Gustavo encostou-se na porta, olhando para o teto. Prosseguiu, teatral:

— Não, não. Esta história de rato no navio é coisa de fábula. Por favor, Clarinha.

Clara levanta a cabeça, irritada.

— Não me chame desse jeito. Eu não falei que tinha nenhum rato, foram vocês que levantaram esta hipótese absurda.

— Então quer dizer que poderia ser outra coisa?

— Que coisa? Você está maluco? Ora, por favor, me deixe trabalhar. Acho que você também tem muito o que fazer.

— Calma, calma. Não fique irritada. Eu estou fazendo o meu serviço.

— Ah, é este o seu serviço? Com que direito vem se intrometer no meu trabalho?

— Ok. Não vou incomodar mais você. Mas fique certa, eu estou de olho.

Clara resmungou um “idiota” entre os dentes. Mas logo que ele saiu, sentiu-se ainda mais desamparada. Desprevenida de qualquer outra possibilidade de reação, como atingiria o objetivo de resgatar aquele homem? Como se livrar da inconveniência de Gustavo? E se ele resolvesse espionar o seu carro? Talvez, se a chuva voltasse ao estado torrencial anterior, decidisse ficar na guarita e a deixasse em paz.

As horas eram intermináveis. Não conseguia concentrar-se no trabalho. A mente confusa, só pensando no acontecimento. Apesar disso, cumpriu as suas tarefas até o amanhecer.

Às seis horas, dirigiu-se rapidamente ao automóvel, atravessando as poças d’água. A chuva havia parado, e por ser inverno, ainda a atmosfera era escura.

Antes de sentar-se ao volante, Clara voltou a cabeça para o banco de trás, avistando o homem como um embrulho preto, enrolado na capa. Os vidros do carro estavam completamente embaçados e um frio intenso enrijecia os ossos.

Afastou-se depressa, acenando para o guarda portuário que trocava de turno.

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