O que Saint-Exupéry, um amigo e as redes sociais tem em comum?

Há muitas coisas que nos chamam a atenção, quando participamos de redes sociais. Por exemplo, há pessoas que conhecemos ou não e que compartilham assuntos de mesmo interesse, como no meu caso, a literatura, a política, filmes, músicas, ciências da informação, com ênfase em biblioteca, os livros enfim.

Não sou muito dado a bate-papo online, nem participar de redes de orações, discussões  religiosas, jogos, muito menos expor situações íntimas, como por exemplo, um beijo apaixonado em minha mulher (porque se já foi fotografado, de certo modo, feito alguma pose e postado na rede) então, este beijo não é tão espontâneo assim, é meio dramatizado, não é mesmo? Claro, que ocorrem os flagrantes e isso é legal.

Mas falo daqueles encontros arrumadinhos, tudo muito certinho e o beijo tascado de forma cinematográfica. Ah, isso é engraçado.

Há coisas intimas também, como um jantar em família, uma curiosidade como eu fazer churrasco, no que não sou muito bom, na alegria em estar com a filha e a mulher num passeio ou numa viagem.

Acho  saudável, claro respeitando os limites da soberba e da ostentação. Mas não estou aqui para julgar ninguém, muito menos para criticar os inúmeros integrantes das redes sociais, inclusive os meus amigos.
 

Por outro lado, sei que no dia a dia, quando topo com uma pessoa com dificuldades físicas, e às vezes, um certo atraso em demonstrar o que desejam expressar, fico um pouco impaciente. É um defeito meu, já que devia ser mais tolerante, principalmente porque todos, sem excessão, inclusive eu, temos dificuldades, ou psíquicas, ou em virtude da idade avançada, ou da pouca idade, ou dos comportamentos rígidos introjetados, das inseguranças, das inibições ou mesmo das arrogâncias, da auto-estima exacerbada. Em geral, temos algum tipo de inquietude em relação aos valores dos outros, o que gera também dificuldades.

Ninguém é perfeito. De todo modo, está claro que não sou paciente, mas também não sou intolerante. Sou uma pessoa que espera que a outra mostre a que chegou, e sem nenhuma superioridade interior, tento me aproximar e ser o mais natural possível. Não quero exercer o papel de juiz, nem professor ou qualquer personagem investido de poder e segurança para mostrar quem é o melhor.

Por isso, evito  demonstrar minha impaciência e respeitar o tempo e o limite do outro.

Falo isso, porque fico me perguntando sobre uma pessoa que me visita, pelo menos uma vez no ano, nos verões, quando vem ao Cassino. Na verdade, eu o conheci através de outras pessoas, e nem tinha motivo para ser seu amigo, apenas procurava ser gentil e educado nos poucos encontros que tivemos em comum com outros conhecidos.

Via de regra, ele costuma vir no meu aniversário, mesmo que não seja convidado. Não reclamo, já acostumei com sua presença e sei o quanto é sincero.

Uma vez ao ano, quando vem também me convida (eu e minha família, para um churrasco especial, que faz somente para nós), o que me faz pensar no porquê de tanto desvelo, uma vez que não é meu parente e a amizade, sem nenhum cinismo, se dá quase em via única, do lado dele, porque para ele, parece que há um lastro que consolida uma amizade eterna. Não que eu o dispense, ao contrário, sempre o trato com a maior sinceridade e gentileza, mas somos pessoas tão diferentes e com ideias e objetivos opostos, que a conversa não flui. A coisa acontece como numa difícil jogada de tênis l, na qual os dois jogadores possuem regras incomuns.

Se eu fosse extrovertido, talvez ele tivesse motivos para me procurar. Ao contrário, sou meio quieto, até mesmo em virtude das dificuldades em que ele apresenta. Jamais poderia falar nos assuntos que me interessam com ele, pois somente concordaria com um rãrã absorto, provavelmente olhando ao longe, para o outro lado da rua, observando os carros que passam.

Os seus assuntos prediletos referem-se ao celular de última geração que acabou de comprar, do carro ano 95 que está tinindo de novo, do último dvd da banda de pagode, das fotos dos sobrinhos, dos passeios que faz na praia e da avaliação destes assuntos meia hora depois, repetindo tudo de novo.

O interessante é que ele sabe de cor qualquer dia do ano em que tenha feito uma compra, como por exemplo um aparelho toca-discos 2 em 1, com prato para lp, toca fitas e rádio am fm, adquirido nas Lojas Colombo, no dia 19 de abril de 1988, dia do índio. Ou a tv preto e branco de 21 polegadas, da marca Philco nas lojas Manlec, em 1982, no dia dos namorados. Por isso, não esquece jamais as datas de aniversário, inclusive, a minha (e olha que não havia facebook).

Acabo, por fim, ficando naquela estratégia de perguntar em círculos sempre a mesma coisa, que lhe diga respeito e intervir com uma e outra sobre mim, que também possa lhe sugerir algo referente a ele.

Por isso, indago a mim mesmo e aos que me conhecem, por que ele sempre me procura com esta absoluta sinceridade, que embora apresente um certo egocentrismo, sempre procura me agradar de uma forma ou de outra, ora convidando para um churrasco, ora trazendo as fotos que tirou num dos aniversários  para mostrar, ora trazendo um dvd para assistir, mesmo que não seja o meu gênero preferido, mas que imagina, com convicção infantil, que me alegrará sobremaneira.

Por estas e por outras, sem querer propalar meus bons sentimentos, talvez seja a maneira honesta de tratá-lo, sem vislumbrar meus interesses pessoais, sem me importar com as horas que vão naquele mate de vai e vem, sem ouvir muito mais do que o silêncio.

Talvez seja um ato de doação. Não que seja um ato somente para ele, pois nem percebe. Na verdade, é por mim também, no momento em que me dispo um pouco do que sou e fico mais próximo do ser humano. Afinal, ser amigo também é uma qualidade humana. Acho que é isso.

Não ter muita paciência e às vezes, até procurar, disfarçado, as horas no celular, ocorre sim, mas a diferença é que o aceito como é. Muitos que o conhecem, o tratam como um idiota, como uma criança a quem se dá ordens e se exige pouco para evitar aborrecimentos.

Pelo contrário, procuro sempre ressaltar as suas qualidades, inspirá-lo para que melhore em seus projetos, que são talvez medíocres para a maioria das pessoas, mas que para ele, são grandiosos, como tirar a carteira de motorista para dirigir o carro que comprou.

Não lhe dou conselhos nem faço ressalvas em suas atitudes.

Ouço o que tem a dizer e dou a minha opinião, sem muitas reservas. Procuro falar das coisas que lhe dizem respeito, e acrescentar-lhes um frescor que normalmente não teriam, por mais simples e banais que possam parecer. São coisas suas. É a sua vida.

Por isso, acho que intuí uma certa cumplicidade com a sua percepção de vida. 

Mas voltando às redes sociais, como no início da crônica, observo que algumas pessoas que conheço (ou assim acredito) demonstram qualidades completamente estranhas em seus perfis públicos, a ponto de pensarmos que se trata de uma pessoa estranha. E fico me perguntando, será que eu estou equivocado?

Que elas são o que transmitem na rede e que na vida real não passam  de um produto de minha imaginação?

Nem sei se há uma intenção de exibirem uma personagem diferente ou se acreditam que a persona que criam é a sua realidade interna. Quem sabe, uma inspiração para uma vida melhor? Um upgrade de mais qualidade?

Afinal, todos somos enigmas, até mesmo para nós mesmos, cavernas escuras em nossas mentes que não mostramos para ninguém. E o quando o fazemos, tomamos um choque e juramos de pés juntos que foi tudo um sonho. Que é obra do destino ou da manipulação do terapeuta.

Entretanto, afundado em minhas próprias cavernas e a cada dia, tirando um pé, pra chegar na claridade do dia, procuro mostrar minhas preferências, sem me preocupar muito com a aprovação alheia.

Claro que gosto que curtam e comentem o que publico, mas fico feliz que os que discordam, não aprovem o que digo, pois estes estão sendo sinceros, como o sou com aquele amigo, sem a intenção de me agradar simplesmente.

Neste caso, a discussão proporciona um pluralismo de ideias interessante.

Mostro claramente que sou de esquerda, mais especificamente socialista, que assumi de acordo com minha visão de mundo, dos valores que aprendi.

Afinal, como diz Cazuza, todos precisam de uma ideologia pra viver. E cada um tem a sua. Que bom que seja assim. 

Respeito os que pensam diferente, critico, discuto e aceito as críticas.

Por outro lado, exacerbo o meu gosto pela literatura e faço da escrita o meu ritual diário.

Também adoro viajar e de vez enquanto, publico alguma coisa que lembre as viagens que participo. Cenas que considero curiosas ou bonitas.

Às vezes, comento alguma coisa sobre música e os que acessam meu perfil, percebem que gosto muito do Chico e que procuro assistir seus shows, assim como gosto de filmes com conteúdo dramático e faço algumas resenhas nos meus blogs.

Falo pouco em religião e preciso sentir alguma verdade espiritual para para expressar alguma coisa, porque não quero repassar nada falso.

Às vezes, sinto que sou um chato, porque insisto em alguns assuntos, como o horror à ditadura (tema de um livro que estou publicando, inclusive) e por isso, sou muito cobrado e criticado.

Mas tudo bem, se não me  mostro como sou na realidade, pelo menos não douro a pílula, me mostrando um santo no altar do facebook. 

Por essa razão, refleti sobre este amigo que tem dificuldades físicas e creio, também, mentais, embora exerça suas tarefas com competência.  Nesta pessoa que confia em mim, e que tento ser paciente, aceitando-a como é.

Em virtude de tudo isso, lembrei do livro “O pequeno príncipe”, que li na minha adolescência e que naquela época me impressionou o modo como o autor descrevia as relações humanas sob imagens  metafóricas, através da raposa, da rosa, do príncipe de outro planeta, do geógrafo, do bêbado.

São pessoas em absoluta solidão, que finalmente se deparam com o sentimento, assim despertado pela raposa, que diz ao menino, a frase tocante, que expressa o real significado da vida.

"Os homens esqueceram a verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.
 

Através desta lembrança, tive um pequeno insight, que não é nada original, mas que centenas de pessoas já descobriram nas suas relações com o próximo. Todos querem ser cativados, de alguma forma. Na redes sociais, nas festas, nos encontros, no dia a dia, até mesmo nas relações quase imperceptíveis do comércio, onde estamos preocupados com o produto e o comerciante com a própria venda.

A raposa queria ser cativada. E o que fazer, perguntou o Pequeno Príncipe. "Você deve ser muito paciente. Eu não preciso de ti.Tu não precisas de mim. Mas, se tu me cativares, e se eu te cativar…ambos precisaremos, um do outro. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas."

Saint-Exupéry sabia dessas coisas.” É só preciso paciência. 

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

TRABALHO VOLUNTÁRIO NO HOSPITAL PSIQUIÁTRICO : UMA PROVOCAÇÃO PARA A VIDA

PIOLHOS DE RICO

METÁFORAS CRUÉIS : desqualificação das mulheres e negros