O peso da liberdade

Sentia as madrugadas se espraiarem e a sensação de que a vida se alongava, ali, naqueles momentos fugazes. Nada havia para impor: a natureza se completava.

A vida estava além das paredes de seu quarto.

Estirava-se nas sombras encardidas dos muros mal pintados, nas sacadas fragmentadas, nas quais figuras se expunham assim, descomedidas e sem pudor.

Transformavam-se em manchas de água, nas calçadas limpas, sereno incrustado da umidade gélida produzida.

Era assim. A natureza se esbaldava em fervor, em criação e criatura, em inventar a vida.

Para ele, as madrugadas não passavam de um espiar solitário pelas persianas.

Um olhar entrecortado em tiras. Um olhar apenas.

Nada que impusesse uma vontade forte, que se derramasse em seu corpo e atingisse a alma.

Que nada. Bastavam os sons difusos da noite insípida em que se resumiam suas horas. Uma coisa insossa. Uma coisa sua, mas que não compartilhava com ninguém. Melhor assim.

Melhor deixar-se vesgo e perturbado ante o desconhecido que só vislumbrava às apalpadelas na vidraça. Na persiana. No frio da janela. Um olhar qualquer. Nada definitivo. Nada planejado. Nada.

Pudesse seguir os instintos e atravessar as paredes, afundar-se na lama que jaz ao lado da janela. Chafurdar e encher-se de gozo.

Para ele, porém, a vida era comedida.

Não podia ultrapassar os limites.

Não devia se arriscar. Pensar apenas. Imaginar. Quase sonhar.

Um homem às vezes sonha de vesgueio, com cuidado para não destruir o mínimo de sonho. Um sonho frágil, pouco acalentado, logo acordado para a realidade. Mas um sonho.

Na verdade, quisera ousar o sonho dos outros, daqueles além de seus limites, do outro lado de sua janela.

Quisera sentir o o orvalho mais perto, tao perto que encheria o nariz e os pulmões.

A lua lambendo-lhe a pele, deixando-a quase translúcida.

E um bem estar de quem atinge a plenitude.

Talvez um dia, transpusesse a sua janela e espiasse de perto o que acontecia, ali, ao lado e participasse também.

Nem que fosse num salto, num segundo, mesmo que se arrependesse, que retrocedesse, que fugisse.

Mas talvez cultivasse uma fresta na mente, que vez por outra se enchesse de luz, produzindo um caminho para viver em paz.

Quando saiu de casa, sentiu o bafejo da brisa noturna.

Mais do que brisa. Era um frio miúdo, que por vezes, arrepiava-lhe a testa e os cabelos.

Olhou assustado para o nada. Escuridão total. Nem sabe exatamente o motivo do medo.

Teria motivo?

Talvez o de ainda estar vivo.

As coisas se acomodavam, os dias se sucediam, as noites se alternavam em luzes acesas e latidos ao longe. Estava sempre só. Desanimado.

Não era pra tanto, pensava.

Devia sentir-se feliz, por alguns minutos. Devia sentir a alma elevada, o coração acalmado.

Sua vida era como a de todos. Por que se sentia atribulado por pecuinhas do espírito?

Por que não desviar o desconforto e partir para a própria misericórdia? Isso, ter dó de si, é o que precisava.

Mas não aquela piedade medíocre, aquele ar de pobre coitado. Ao contrário, uma piedade doída, verdadeira, do fundo da alma, que o alimentasse, que alicerçasse os pensamentos e a coragem.

Quem sabe tendo dó de si, virava-se de frente para o mundo.

E percebesse que ao descer as escadas do prédio, o porteiro tinha um modo aflitivo de o olhar, como se o alertasse para o perigo.

Talvez porque pouco o visse sair, principalmente à noite.

Que interessava ele, agora? Não passava de um velho amordaçado nas ondas do rádio. Sempre à espreita de uma tragédia.

De certa forma, agora, sentia-se livre, pois pelo menos, ultrapassara a soleira da porta.

Estava atravessando ruas, pisando nos paralelepípedos, enfrentando esquinas.

Podia caminhar, sentir o sereno esfriar-lhe a testa, o cabelo molhar e avistar ao longe, figuras disformes que passeavam rápidas pelas calçadas circundantes.

Na verdade, sentia a boca ressequida.

Alguma coisa que o impede de absorver  a liberdade em sua plenitude.

Mas quem consegue?

Quem realmente é livre?

Melhor voltar até a garagem, pegar o carro, sentir-se mais protegido, encontrar um lugar para passar a noite. Talvez beber alguma coisa forte, que lhe queime a garganta e acione o cérebro.

Então retirou o carro do estacionamento e dirigiu-se às ruas próximas. Não fazia muito que saíra de casa, mas tempo suficiente, para sentir-se angustiado.

O tempo era o resultado de suas memórias. E elas permaneciam e se renovavam a cada calçada que atravessava, cada canteiro que avistava, cada praça que circundava.

Lembranças da infância, da adolescência, de tempos marcantes. Tempos em que talvez não fosse tão solitário.

Estacionou o carro sob a luz amarel do poste.

A avenida ampla vislumbrava algum movimento de pedestres. Namorados que se deslocavam em direção aos cinemas ou a bares. Grupos de rapazes que se dirigiam para casa ou talvez para a universidade. Poucos velhos apressados, segurando as bolsas, entrando e saindo de farmácias, ansiosos em voltar para casa.

Observava as pessoas, à sombra das árvores que deitavam os ramos sobre os veículos estacionados em oblíquo.

Ouviu uma daquelas músicas antigas que o transportavam ao passado, "Perfídia" executada por Glenn Miller .“For I found you, the love of my life, in somebody else's arms”.

Nada mais oportuno do que estes versos cheios de melancolia.

Deixou-se ficar assim, introspectivo, absorvido pela linguagem lírica da melodia. Nada o atrapalhava, nada o transportava a lugar nenhum, ou o afastava daquele no qual seu coração o pusera.

Mas às vezes, o imponderável acontece.

Nada é uma expressão muito forte, tanto que uma batida no vidro o despertou do sonho.

Olhou transtornado para a imagem que se derramava no vidro como uma estampa disforme e não disse nada.

Por um momento pensou que... não pensou em nada.

Tentou voltar ao enlevo, ao passado, à melodia.

Mas a voz ecoou enérgica e definitiva, como uma lâmina na carne.

Um revólver calibre 38 raspando a vidraça e a voz ameaçadora exigindo que abrisse o carro.

Ele obedeceu trêmulo.

O mundo desabava em segundos. Ele vislumbrava uma mulher passeando com um cachorro na direção da praça e perdendo-se na escuridão salpicada de luzes indefinidas.

Só neste momento percebera que três homens entraram no carro e o empurravam rapidamente para o banco detrás enquanto um deles acionava a direção.

Em segundos, o carro se afastava em disparada.

Sua boca babava no assento do banco com uma arma apontada para a cabeça.

Gritos, ordens, ameaças.

Em poucos minutos, paravam numa rua escura, uma espécie de encruzilhada onde há linhas de trens.

Retiraram-no do carro, abriram o porta-malas e o enfiaram lá dentro, revelando a intenção definitiva de cumprirem o seu objetivo.

O carro partia novamente. Ele sentia um calor constante no corpo, talvez do cano de descarga que ficava ali por baixo, não sabia, tudo se alternando entre tremor e pânico.

Uma vontade de urinar que não conseguia adiar.

O mijo humilhante alagou até seu pescoço, cujo corpo se dobrara numa postura fetal, a única que lhe cabia.

O carro voou por estradas se afastando da zona urbana.

Sua cabeça doía, sentindo o peso da lataria nas costas. As batidas cada vez mais fortes, produzidas por retornos mirabolantes, aliados à precariedade das estradas, além do alta velocidade desenvolvida.

De repente, o carro parou. Os homens cochichavam.

Portões com engrenagens enferrujadas se abriam e pacotes se amontoavam dentro do veículo.

Os homens se espremiam nos bancos, como se outros entrassem e participassem da operação.

Um deles se aproximou e abriu levemente o porta-malas: um vento frio encheu-lhe as narinas. Respirou fundo. A falta de ar passara.

Resmungou entre dentes: – Por favor, deixa aberto... quase não respiro.

– Cala a boca, não fala comigo. Só eu falo. Que tu tem ai pra botá gasolina? Essa porra tá vazia!

Arrancou-lhe do pulso, o relógio, perguntando se a “bosta” tinha algum valor, ao mesmo tempo que avistara a corrente no pescoço, puxando-a com violência, já que o celular já era moeda de troca desde o início. Em seguida, lacrara a tampa do porta-malas, gritando palavras de ordem.

– Cala a boca, tu vai morrê se não fechá essa trela!Tu vai morrê queimado, seu puto!

Os demais resmungavam em tom cada vez mais baixo, quase um zunido.

Alguém se encarregou de trazer a gasolina. Encheram o tanque.

Dentro do porta-malas, ele tinha a impressão que o líquido escorria pelo seu corpo. Ouvia comentários sobre incêndio do veículo.

O desespero aos poucos, dava lugar a uma intensa resignação. Tentou rezar, mas não conseguia.

Não recordava as palavras, nem das pessoas.

Quem se lembraria dele? Quem sentiria a sua falta? Quem investigaria para descobrir que morrera assim, transformado num monte de cinzas?

O carro se afastava, antes porém ele ouvia estampidos ao longe.

Será que alguém fora assassinado? Talvez um vigia aparecesse e exercesse alguma reação?

Eles apagaram um comparsa?

O que queriam com ele, por que não o deixaram morrer?

O carro disparara numa velocidade alucinante.

A escuridão total denunciava a zona rural.

De repente, luzes passavam aqui e ali, pelas frestas do porta-malas, como se atravessassem uma ponte.

E se eles decidissem se livrarem do carro e o jogassem no rio?

Não interessava.

Estava morto. Sabia que seu destino estava selado. Era só questão de tempo.

Agora o carro parara novamente e o ruído abafado do motor se misturava a coaxos de sapos, o que significava que ainda estavam na zona rural.

De imediato, decidiram livrar-se dos pacotes pesados ou caixas de dentro do veículo.

Os homens comunicavam em ruídos e somente um se aproximava dele.

Percebera tratar-se de uma estratégia, para que não os reconhecesse. Mas de que adiantaria isso?

Bastava apagá-lo de vez! Não teriam mais problemas. Ele não significava nada para eles. Há muito não tinha qualquer importância para ninguém.

Aquele que costumava falar com ele, avisou, ameaçador:

– O carro vai parar mais duas vezes, tu vai descer na segunda. A tampa vai tá aberta. Conta até 50, entra no carro e segue em frente. Não olha pra trás. Nós tamos de olho. Um deslize e tu vai sê apagado!

Foram as últimas palavras, a ansiedade aumentou, um zunido nos ouvidos, um corte na testa que sangrava, a impossibilidade de articular as palavras, de mexer as pernas, de sentir-se apto para sair do carro. Como faria isso?

Nem pensava, nem engendrava qualquer imagem, porque sua mente não funcionava de modo racional.

Seu coração batia exaltado.

As costas contraídas, o corpo todo latejava, num misto de dormência e dor.

Quando o carro parou numa rua escura, tentou ingenuamente contar, mas não conseguia articular na mente, os numerais.

Não tinha o manejo adequado ao raciocínio.

Um vento fino assombrava a fresta do porta-malas.

Falou coisas desconexas, riu como se houvesse bebido ou usado uma droga forte, forçou as pernas para levantar-se e atirar-se para fora.

Os ossos pareciam chocar-se desarticulados, deslocando-se pelo corpo, envolvendo as pernas, os braços e o pescoço.

Então tropeçou na grama molhada de sereno e nem entendeu o peso da liberdade.

Entrou no carro, seguiu em frente e nem sabe para onde foi.

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