Um quarto na tarde

Este é um conto elaborado a partir do desafio de uma oficina literária. O desafio seria utilizar um personagem semelhante à Séverine do filme “Belle de jour”, A bela da tarde.

Talvez estivesse assim abandonada, assim alijada de seus momentos de liberdade absoluta, onde não houvesse ninguém para atrapalhar seus planos. Quem sabe numa ilha deserta, mar aberto, longe de qualquer civilização. Que nada, estava estirada na cama, envolta em cobertas amassadas, mascando o travor da vida que se esvaía, no colchão inchado. A revolta tomava conta de seu ser. O ódio talvez endereçado a si própria deixava distantes os que a atormentavam. Estava assim, desorientada, embrulhada em seus pensamentos, como aquelas cobertas nas quais se descobriam os pés. O frio vinha menos das frestas das venezianas, sem vidraças do que o que a consumia por dentro.

Ela levantou com esforço, espiou para fora: um olhar conturbado, aranhas tecendo redes turvas nas frestas.

Ah, se pudesse desfrutar o ar poluído das ruas, o caminhar reticente dos indecisos, o assombramento noturno dos poetas. Não, devia mastigar a dor, assim, devagarinho, entre um sobressalto aqui e um aconchego ali. Aconchego que se despede em cada esquina, em cada olhar disperso, em cada aceno sem adeus. Um aconchego provisório, desigual, desmanchado na superficialidade do encontro. Ou desencontro, não sabia.

Voltou-se, passeando o olhar pelo quarto, assinando com sangue na parede branca. Seus dedos outrora ágeis, hoje pareciam enrijecidos e entorpecidos pelo golpe que dera a si mesma. Não tinha coragem de se olhar no espelho. Talvez, se o fizesse, se espantasse com o desgrenhado dos cabelos, com a maquiagem borrada e traços arrastados sobre os olhos, mendigando lágrimas de palhaço.

Não pudera. Não tinha este destemor próprio dos heróis, que se elevam ante as tragédias e ascendem a patamares mais altos, mesmo que vencidos.

Não, ela não tinha mais recursos naquele campo de guerra.

Então, sentou-se na cama e juntou as pernas, abaixando a cabeça sobre os joelhos, enquanto os cabelos lambiam as pernas brancas, sem meias.

Talvez chorasse agora. Talvez seu corpo reagisse de alguma maneira: mesmo torta e indigna.

Na posição onde se encontrava, se abrisse os olhos, veria o corpo do homem morto, estendido no chão daquele quarto vulgar de motel.

Talvez retirasse a camisa ensanguentada pelo disparo e juntasse as forças que sobraram para retirá-lo , levá-lo até o carro e desaparecer com as provas definitivas. Talvez caminhasse, finalmente, pela calçada com passos reticentes e balanço frugal. Quem sabe encerraria a tarde, antes que a noite a devorasse.

Mas não fez nada, ou melhor, puxou do criado-mudo um copo e encheu-o de uísque barato até a borda. Tomou o que lhe bastava para aceitar o que o pesadelo lhe oferecia. Ou a vida, ou a morte.

Puxou a blusa, sungando o sutiã que lhe apertava o seio. Tudo parecia incomodá-la, até o pírcingue do umbigo que já não coçava desde a semana passada, quando a cicatrização aderira ao corpo estranho. De repente, seu passado não a incomodava tanto quanto os penduricalhos de sua vida perdida. Nem os brincos banhados à prata, nem as pulseiras que se engalfinhavam enquanto movimentava os braços pra lá e pra cá, nos momentos de euforia, nem os colares que lhe emolduravam o colo.

Um colo lindo, lhe diziam os amantes que a procuravam, uma promessa de afeto quase maternal, cuja fantasia não era deles, mas sua.

Parou de chorar e de beber. Devia se desfazer das bijuterias, dos adereços com os quais vestia o personagem e voltar à realidade.

Algumas luzes banhavam as paredes de vez em quando e os ruídos da rua abrandavam a sonolência da tarde. As horas corriam e ela estava presa à cama, como se algemas potentes a prendessem como objeto de adorno, sem outra função, senão compor a cena.

Doíam-lhe os pés, afundados nos sapatos vermelhos de salto agulha. Deixava-se ficar, patética, observando o nada. Sua boca estremecia e seu coração combatia no peito, enfrentando a dor forte e destrutiva.

O celular tocou. E tocou várias vezes, até ela alongar o braço em sua direção, naquele movimento compassado de sonho, uma ansiedade no gesto que não se completava.

Na última vez, ouviu a voz masculina do outro lado. Esperava ser oriunda de um lugar bem distante, pensou.

Foi aí que respondeu. Foi aí que quase reagiu.

A voz insistia:

– Laura, quero saber o que houve com você. Fale o que está havendo, mulher. Por que não aparece? Quer me deixar louco?

Olhou para o rosto do homem aos pés da cama. Teve a impressão que um olho vagamente se mexeu e teve um calafrio. Encolheu mais as pernas, puxando-as para a cama, riscando com o salto o parquê vagabundo.

Por fim, respondeu com voz fraca:

– Estou aqui, não se preocupe.

A voz masculina gritou, vigorosa:

– Aqui, onde? Que mistério é esse, mulher?

— Acho que não tem mais jeito, Otávio. Agora não dá mais.

— Não dá, como assim? Não quer mais ficar comigo?

— Na verdade, tenho uma vida que você não conhece. Um mundo só meu, onde posso dispor como quiser da minha liberdade. Mas agora, até mesmo esta vida chegou ao fim. Acabou.

— De que você está falando, Laura? Quer se explicar, pelo amor de Deus!

— Não tenho saída. Estou desesperada.

— Fique aí, que eu vou lhe buscar. Só me diga onde é. Onde fica este seu mundo absurdo.

— Acho que agora, só me restará a realidade da prisão. A minha vida ao seu lado e a outra, aqui fora, eram muito parecidas. Talvez uma completasse a outra. Mas agora, o baralho desandou. Não tem mais jogo duplo.

— Você não diz coisa com coisa. Que está havendo? Me dê o endereço onde você está, me dê este maldito endereço! – o marido parecia chegar ao desespero – Espere, não desligue, me diga onde você está Laura, escute, eu lhe peço, me diga...

Após, breve silêncio, ela prosseguiu mais tranquila:

— Sabe, Otávio, quando eu era adolescente, assisti a um filme cheio de lirismo, sensualidade e beleza: “Belle de jour”, “A bela da tarde”. Você já ouviu falar neste filme, Otávio?

— Do que você está falando, Laura?

— O diretor é Buñuel. Você já ouviu falar de Buñuel, Otávio? Não, claro que não. Você tem outras coisas mais importantes com que se preocupar, não? Pois bem, eu queria ser a bela da tarde, eu sonhei em ser a bela da tarde, tal como Séverine de Catherine Deneuve e talvez, como ela, eu também tenha perdido a chance de me conhecer.

Laura desliga o celular e se afasta da cama. Passa a mão pelos cabelos com delicadeza, arranjando-os sobre os ombros, prenhe de uma estranha paz.

As vozes da rua parecem cessar. Certamente a noite avançava rápida como pensara, mas não a devorara, como imaginara também. Talvez, a saída estivesse ainda por acontecer.

Aproximou-se da porta, abriu uma fresta e espiou pelo corredor. Ao longe, o vulto de um homem se desenhava, dobrando em direção a outros pavimentos. Por um momento, ele parou e olhou para trás, como se pressentisse a sua presença. Então, ela escondeu-se, empurrando rapidamente a porta, sem batê-la.

Esperou alguns minutos e a abriu novamente. Quando o fez, seu coração deu saltos atropelados, deixando-a desorientada, como se entrasse num labirinto com proporções indefinidas. O homem estava ali, na porta. Um olhar maduro de quem aguarda o momento adequado. Moreno, bigode escuro e costeletas antiquadas. Num impulso, empurrou a porta, mas ele a impediu com o joelho.

— Que está havendo, moça, pode me dizer?

— E o que você acha que pode acontecer com uma mulher nesta espelunca?

— Não sei. Podia ser coisa séria. Está esperando alguém?

— Estava, mas tô dando o fora. O cara não veio, sabe como é, a macheza não está lá estas coisas, hoje em dia.

— Mas não é o meu caso. Se quiser, a gente pode fazer o programa que você perdeu.

— Pode ser. Mas eu cobro bem.

— Então me deixa entrar.

— Não, não pode ser aqui. – Respondeu, ansiosa, mais súplica, do que convite. – Me leve para o seu quarto.

— Eu sou o porteiro desta espelunca que você falou, sabia?

— Mas deve ter um lugar. Vamos, não quero ficar aqui, o cara pode chegar e a coisa vai degringolar.

— Então está bem. Vou ver uma chave.

— Espere, me faça um favor — retira um cartão da bolsa e o entrega – ligue para este número, é do cara, diga pra ele vir me buscar mais tarde.

— Você enlouqueceu, quer queimar o meu filme? Ah, garota, deixa de história.

— É uma brincadeira, um jogo, não seja bobo — sorriu maliciosa — daqui a meia hora, ele aparece, vem me buscar. Olha, é meu amante, não é um desconhecido. Eu não posso ficar sozinha aqui, depois... do nosso encontro. Me faça este favor.

— E por que você não liga?

— Porque não tem graça. O interessante é que alguém ligue para ele, pra ficar com um pouquinho de ciúmes, entende?

— Esta história está muito esquisita. Mas espera aí, eu ligo lá debaixo.

— Mas e a chave do outro quarto?

O homem retirou um molhe de chaves do bolso e entregou a de número vinte e dois, avisando-a que era no andar inferior. Em seguida, afastou-se.

Laura entrou no quarto, pegou suas coisas e afastou-se rapidamente, descendo as escadas conforme o indicado pelo porteiro. Caminhou pelos corredores vazios, com a impressão de que a seguiam. Um gato deitava sua sombra no corredor, ultrapassando a janela basculante e saltando sobre o telhado que desembocava noutro prédio. Ela estremeceu, mas sorriu aliviada. Foi por pouco tempo. De repente, a angústia retornou, sem que pudesse refletir. Não bastava fechar a porta do quarto, para que o homicídio não mais existisse. Não bastava confessar ao marido, para que tudo voltasse a ser como era antes.

Quando avistou o número vinte e dois, ela parou na porta, com o coração mais agitado. E se tudo não passasse de uma cilada? Se o porteiro soubesse de tudo e estivesse ali, esperando-a para entregá-la à polícia ou mesmo fazer-lhe chantagem para extorquir-lhe dinheiro.

Por outro lado, vinha-lhe à mente o seu olhar agressivo, despindo-a totalmente, obrigando-a a cometer o sexo que não queria, transformando a sedução que o estimulara em cena grotesca de filme b.

E como reagiria o marido, depois de tudo isso, ao saber de sua vida dupla, de seus casos amorosos, de seu mundo de fantasia?

A morte, o medo, a prisão. A sorte ronronava a sua porta, não deixando-a atravessar a janela. O salto havia sido alto demais.

Por isso, decidiu fugir, desceu as escadas rapidamente, e parou estupefata, ao ouvir a voz do porteiro ao telefone.

— Seu Otávio, hoje aconteceu o que temíamos. Há sangue no lençol. O jogo não pode continuar.

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