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A fotografia da vida de Santa - CAP. 16

No capítulo anterior, após o desmaio, Santa não conseguiu comentar com Linda sobre a conversa que tivera, na qual ela havia negado o próprio passado, pois voltou a sentir-se mal. No dia seguinte, porém, estava decidida a fazer alguma coisa, que deixava Linda preocupada. Pedira para falar pessoalmente com o jardineiro, o sobrinho de Linda. A seguir o décimo sexto capítulo de nosso folhetim dramático.

Capítulo 17

Ao chegar no gabinete, o jardineiro mostrava-se preocupado por ter sido convocado pela patroa. Sentou-se numa cadeira, sentindo-se desconfortável. Santa, no entanto, parecia muito segura e com uma intenção objetiva.

— Bem, Fernando, o que tenho a lhe dizer é bem simples e fácil de resolver.

— Eu fiz alguma coisa errada, dona Santa?

— Não, você não fez nada errado, não se preocupe. Ao contrário, gostamos muito de seu serviço.

— Então, não estou entendendo porque a senhora me chamou aqui.

— Por que vocês acham que sempre que são chamados é para serem advertidos?

Ele tentou responder, mas ela o interrompeu, prosseguindo o assunto que pretendia tratar:

— O que eu pretendo de você Fernando é uma coisa que deve ficar em absoluto segredo. Você não pode contar para ninguém, até chegar a hora, nem mesmo para a sua tia Linda.

— Que coisa estranha, dona Santa. Desculpe falar assim, mas é que ninguém me pediu um segredo, principalmente em se tratando da patroa.

— Então me diga, Fernando, por que está aqui?

— Como assim? Eu preciso trabalhar.

— Eu sei, todos precisam, principalmente agora com esta crise econômica, com tanto desemprego.

— Pois então, é por isso.

— Mas você não precisava estar aqui como um jardineiro. Você poderia trabalhar dentro de sua profissão.

— Não sei o que a senhora quer dizer, dona Santa. – Neste momento, ele se mostra nervoso, movendo as pernas num gesto quase involuntário. – Santa prossegue, incisiva. – Você é um engenheiro, Fernando.

Ele não diz nada, mas empalidece rapidamente. Santa aproveita para complementar com mais ênfase:

— Você poderia trabalhar numa empresa de construção, sei lá. Por que está aqui, volto a perguntar. Qual é o seu interesse em trabalhar como jardineiro, recebendo um salário modesto. Quero que seja muito sincero, Fernando.

— Bem, dona Santa, acho que depois da nossa conversa, com certeza vai me mandar embora.

— Vai depender da sua honestidade. Quero que abra o jogo.

— A senhora sabe que sou sobrinho da Linda, e que ela a convenceu a me contratar.

Santa concordou com um aceno e permaneceu em silêncio.

— Pois bem, ela na verdade me criou depois que minha mãe faleceu, eu tinha uns 14 anos.

— Como assim, Linda sempre morou nesta casa.

— Criou é maneira de dizer, ela me ajudou nos estudos, na manutenção da casa. Morávamos eu e minha irmã e ela sempre nos visitava aos domingos. Ela nos ajudou muito.

— E seu pai?

— Meu pai? Bem, eu não o conheci, dona Santa.

— Muito bem, quer dizer que Linda ajudou a família de sua mãe. Era irmã dela?

— Sim, elas eram irmãs.

— Muito bem, Fernando. Eu só não estou entendendo o que tudo isso tem a ver com a pergunta que lhe fiz.

— É que eu queria mostrar que ela sempre se importou muito comigo, com a gente. Minha irmã hoje é casada e mora no interior.

— E você se formou em engenharia civil. Há quanto tempo?

— Uns sete anos.

— E nunca trabalhou na área?

— Trabalhei sim, tabalhei numa empresa durante dois anos, mas é que eu fui demitido.

— Por quê?

— Dona Santa, eu não entendo o seu interesse. Eu sou um bom jardineiro, não me meto na vida de ninguém. Por que tudo isso, agora?

— Porque você está na minha casa, trabalhando para a minha família e eu preciso saber com quem estou lidando.

— Mas minha tia deve ter lhe falado sobre mim. Ela sabe que sou gente de bem.

— Por que você foi demitido? É por isso que não pode voltar a trabalhar como engenheiro?

— Eu fui preso, a minha ficha é suja e ninguém me aceita em lugar nenhum, é isso que a senhora queria saber? – Pergunta, indignado, levantando-se da cadeira e se aproximando da mesa, na qual Santa está do outro lado, sentada. Ela também altera a voz – Acalme-se rapaz, eu não estou julgando ninguém, por enquanto.

Ele volta a sentar-se e abaixa a cabeça, desolado. Depois, a olha com indisfarçável ansiedade. Santa volta à carga e pergunta qual fora o motivo de sua prisão.

— Eu sabia que não ia dar certo, mais dia, menos dia, a coisa ia estourar. Mas, Linda insistiu, achou que poderia segurar as pontas, olha no que deu!

— Por enquanto, não deu em nada. Eu também tenho um segredo, uma coisa que preciso que faça para mim, mas tem que ser honesto comigo. Tenho que saber tudo.

Ele fica um pouco pensativo, mas em seguida, parece estar disposto a falar:

— Bem, eu me envolvi com uma turma da pesada, eu usava drogas e precisava deles. Não era nada muito forte, sabe, cocaína, mas eu não tinha vício, não era dependente. Mas aos poucos, fui sendo convencido a ter mais dinheiro, muito dinheiro. Eles tinham um plano, arrombar o caixa eletrônico da firma em que eu trabalhava. Eu sabia tudo, conhecia toda a estrutura da firma, o dia em que o dinheiro chegava, quem ficava nas câmeras, a hora que trocava o turno. Então dei as dicas, e eles planejaram entrar na empresa numa noite, mas alguma coisa deu errado, pois apareceu um vigilante que me conhecia e ele havia trocado de turno, naquele dia. Então, eu o matei. Não tinha outro jeito. Foi aí que tudo desandou, a polícia foi acionada, eu ainda fugi, mas era tarde demais. Dois membros do bando foram presos e eu fui logo em seguida. Passei cinco anos e estou na condicional.

Santa fica petrificada. Tudo acontecendo a sua volta e ela não sabia. Agora ela teria a chance de pôr o seu plano em ação. Aproximou-se de Fernando e pediu que se acalmasse. Disse-lhe que preferia a verdade do que ser enganada o tempo todo.

Ele então, olhando-a ainda desconfiado, perguntou:

— Qual é o segredo? O que a senhora quer de mim?

Fonte da ilustração:https://pixabay.com/pt/jardineiro-trabalhador-jardinagem-1435463/

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