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MAESTRIA DE MATAR

Percorro este corredor repleto de livros e fico me perguntando se valeu à pena. É só por um momento, mas vez que outra me vem esta dúvida.

Não sei, agora nos meus 81 anos de idade, pensando no passado, faria tudo de novo, do mesmo modo impensado, ou talvez excessivamente planejado.

De qualquer maneira, sinto um vazio imenso, olhando para estas estantes cheias e sentindo o coração apertado, por não saber ao certo, se o que fiz dará frutos verdadeiros.

Guardar livros, raspar o tacho das pesquisas, me parece uma coisa divina e ao mesmo tempo perigosa.

Às vezes, podemos nos deparar com algum livro, que traga oculto em suas paginas um segredo terrível. Foi o que aconteceu comigo e que me levou a tantos devaneios.

Agora, cansado, percorro estes corredores escuros e sinto uma ponta de orgulho, não fossem os fatos acontecidos, o peso da culpa e o medo de ser descoberto no final da vida.

E se descobrirem que este amante dos livros, também amante da vida e das mulheres, foi um amante da morte.

Planejar com cuidado dias a fio, cada gesto, cada movimento mais leve, cada passo em falso das pessoas que elegi e aproximar-me devagarinho do seu final.

Não foi uma coisa fácil e ainda não é para mim. Mas sinto que tudo pode acontecer novamente, a qualquer momento.

Mesmo sozinho, viúvo, após tantos anos de convivência, vivendo quase à prestação, ainda temo estas coisas.

Só me restam poucos sons na casa. Poucas vozes que vem ao anoitecer, temerosos que eu morra a qualquer momento. Não sabem então que tenho uma saúde de ferro?

Hoje me foi apresentada uma senhora diferente: nada demais na figura. Era idosa, cabelos pintados de loiro, roupas discretas e felizmente de pouco falar.

Meu filho, que não via há anos, me veio com a novidade.

— Papai, esta é Dona Berenice. Vai ficar com o senhor à noite. Vai ajudá-lo a tomar os remédios ou mesmo preparar o seu banho ou caso precise de alguma coisa, um café na cozinha. É melhor que ela lhe ajude e assim o senhor não ficará sozinho.

Era só isso? Ela pensa que sou idiota. Ficará ali, sentada na sala, na melhor poltrona, lendo revistas fúteis, de fofoca, aguardando a minha morte. Quem sabe esta noite? Ou no próximo domingo? Sei que só se preocupam com isso.

Não fica bem, o filho, um empresário de renome, morando na capital, deixando o velho pai, viúvo e solitário nesta casa enorme, sozinho, aos 81 anos de idade. Não sabe ele que sou muito forte e sadio e quando a minha hora chegar, não é preciso de tutores, de alcoviteiras esperando o desfecho.

Mas tudo bem, ela que fique e ele vá embora, tratar de seus negócios.

Felizmente agora estou sozinho, durante o dia, me dão mais liberdade. Posso passear pelos meus livros, arrumar as estantes devagar, examinar cada capa nova ou antiga, reler os clássicos, a bíblia, os livros proibidos. Será que ainda existem livros proibidos para a minha idade?

Gosto de ficar por aqui, sentar-me nestas mesas de verniz escuro onde tantas pessoas exerceram a intimidade com os livros, pesquisaram em suas páginas, apropriaram-se de seus conhecimentos, seus encontros com a verdade.

Lembro de Laura e não faz tanto tempo assim. Ela chegou um dia, com olhar tímido, gestos hesitantes, fala macia e diminuta. Precisava fazer uma pesquisa para uma monografia, não lembro bem do que se tratava.

Deve fazer 10 anos, é verdade, foi na copa de 96 e os horários estavam meio truncados, por causa dos jogos.

Ela veio num horário destes, em que a biblioteca estava fechada. Bateu na porta, vigorosa, eu atendi, do jeito que estava vestido, pijama e chinelos de lã.

Aproximei-me da vidraça da janela e espiei por detrás da cortina. Pensei irritado, porque não ia para uma biblioteca pública ou da Universidade. A minha não passava de um arranjo de livros particular, que não se limitava a determinadas áreas do conhecimento, mas a qualquer coisa que aparecesse por lá.

Voltei as costas para a janela e regressei ao meu quarto, mas aquela batida intermitente me incomodava.

Retornei irritado, disposto a despachá-la de uma vez por todas. Mas não o fiz, ela parecia bem desesperada. Parece que queria mais do que livros. Queria falar comigo.

— Se o senhor puder abrir, atender-me nem que seja por um minuto, para orientar-me para outra visita, por favor, lhe suplico.

Dizia tudo de súbito, quase sem respirar. Percebi que era uma jovem bonita, de estatura média, cabelos negros e meio despenteados, talvez em virtude do vento que fazia um zunido sinistro no corredor que conduzia ao quintal da casa.

Explicou-me em seguida sobre o trabalho pesado que teria pela frente, na área de história, agora me recordo, mas que precisava, antes de mais nada falar comigo, pessoalmente.

Eu lhe expliquei do horário alterado, a cidade estava deserta, só as folhas farfalhando, fazendo barulho pelas calçadas.

Ninguém se atrevia a sair em dia de jogo do Brasil. Ela não se importava com o jogo. Eu também.

Entrou agradecida, pedi-lhe que sentasse na poltrona que ficava bem defronte onde eu acabara de sentar.

Fiquei quieto, observando-a. Vestia-se com discrição e na mão, um bolsa pequena, mas repleta de sabe Deus o que, que fazia barulho a qualquer movimento. Vez que outra, ela enfiava a mão, como se para certificar-se que tudo estava em ordem. Puxou os cabelos para trás, respirou fundo e começou.

Primeiramente desculpou-se por ter insistido e logo em seguida, deu o recado:

— Trata-se de sua mulher.

Estremeci. Minhas pernas e joelhos batiam descontrolados. Por que falava de minha mulher, que ela tinha a dizer sobre ela, que havia se suicidado há três anos? Quase a despachei dali mesmo, sem querer saber nada, mas me contive, calado.

Minhas mãos tremiam e minha cabeça parecia imitar o movimento, pois estremecia sem que eu pudesse controlá-la.

— Ela não se suicidou. Na verdade, foi arrebatada, compelida por uma leitura.

Quando ela afirmou isso, levantei-me com esforço da poltrona, mas o fiz irritado, pedindo uma explicação. Depois calei-me. Estava exausto, não tanto pela idade, mas pela intromissão em minha vida, assim, de forma tão repentina.

Ela começou a falar em solidão, em buscas desconhecidas, em fenômenos aleatórios, em destino.

Pedi, supliquei que parasse.

Era tarde demais. Tarde no adiantado da hora, tarde para saber.

Que me interessava agora, naquele momento, qualquer revelação; nada tinha sentido.

Nada adquiria sentido há muito tempo. Melhor era deixar para trás.

Olhei para a porta, esperando que ela saísse.

Fazia um silêncio danado na rua.

Os ponteiros do relógio se arrastavam, um passando pelo outro, esperando uma resposta. Uma resposta que não mais significava nada.

Ela saiu desiludida, atrapalhada numa chuva de pingos grossos que começava a cair.

Avistei-a correndo, saltando entre as poças, pisando nas calçadas de lajotas quebradas, que emparelhavam com a rua alagada.

Hoje sei que se a tivesse ouvido, não teria esta sensação de vazio, de abandono.

Tudo que ela relataria, descobrira mais tarde no diário de minha mulher. Mergulhada nas teorias suicidas de um velho livro de bruxarias, coisas espúria e sem qualquer nexo científico, mas extremamente arrebatador, a levara ao desfecho final.

A partir daí, fui me tornando cético, tendo de aprender as técnicas que levassem à morte, não por feitiçarias ou qualquer outra forma de magia, mas as diversas maneiras de matar que aprendera nos livros. Livros de todas as áreas, todos os temas, mas que exclusivamente tratavam do assunto que me encantava.

Por isso, hoje, sou mestre nesta arte.

E esta mulher, esta Dona Berenice que virá aqui, esperar a minha morte, contar os minutos para livrar-se do estorvo, arriscar-se nas suas leituras medíocres imaginando-me alienado e frágil, não perde por esperar.

Seguirei meus rituais, exercerei em sua estrutura vulgar, a maestria do conhecimento inexorável: o ato de matar.

Percorro este corredor repleto de livros e fico me perguntando se valeu à pena. É só por um momento, pois vez que outra me vem esta dúvida. De todo modo, fico numa euforia há muito não experimentada, embora não saiba ao certo , se o que farei dará frutos verdadeiros.

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