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A fotografia de Santa - CAP. 7

No sexto capítulo, com a revelação da proposta de Santa à família e suas condições, todos começaram a questionar-se descobrindo as falhas uns dos outros, ou mesmo deixando vir à tona tudo o que pensam. A preocupação principal é conhecer as mensagens que todos receberam. Letícia, indignada pela traição do marido e brigando muito com os irmãos, exige que todos revelem as mensagens que receberam. Chegamos agora ao nosso 7º capítulo de nosso folhetim dramático. Divirtam-se como dizia o poeta, porque hoje é sábado.

Capítulo 7

Fonte da ilustração: https://morguefile.com/search/morguefile/18/library/pop. autor: TheBrassGlass

Alfredo que se afastara do grupo após estar na berlinda, dirige-se à mãe, com frieza.

— Faltam apenas o bispo e Linda. Sabe, mamãe, eu não entendo o que a Linda tem a ver com esta história.

Santa aproveita a oportunidade para deixar claro o seu objetivo. Parece mais forte do que toda a repercussão dos acontecimentos. Dirige-se a Alfredo, com estudada segurança.

— Se Linda quiser contar, vocês saberão. Sabe, meu filho, sua irmã não soube interpretar o que eu pedi a você. Ela está desequilibrada e está vendo tudo aos extremos.

— Tem certeza de que a desequilibrada sou eu? – pergunta, encarando-a com ódio.

Mas é Alfredo que responde num tom de extrema emoção, tão sofrido e amargurado, que talvez fosse a única observação que fizesse Santa rever o seu pedido. Nada, no entanto, pode impedi-lo de expressar toda a sua revolta.

— Não se preocupe, comigo mamãe. Sei muito bem o que a senhora quis dizer. Eu sempre senti nos seus olhos uma acusação permanente. Eu sempre soube da sua desconfiança, inclusive, porque não conseguia esconder no próprio tratamento que me dispensava. Às vezes, mamãe, a senhora era rude, fria, quase cruel. Não queria que eu chorasse como uma meminha, lembra? Não admitia que eu brincasse com as meninas, que tivesse outros interesses do que jogar bola. Eu sempre senti sobre mim o peso do seu olhar. Ele sempre queria me dizer alguma coisa, uma acusação, e eu estava sempre em pecado. Cada pensamento era um pecado, cada gesto em direção ao meu sentimento, era um pecado, uma punição.

— Por favor, Alfredo, pare, não continue meu filho. – termina a frase num resmungo choroso.

Ele, entretanto, soma forças para prosseguir com mais ímpeto:

— Por que mamãe? Agora não lhe interessa mais a minha exposição? Foi a senhora que botou na roda que eu... eu tenho dificuldades.

— Todo mundo sabia que ele era veado – avalia, Ricardo, tentando falar baixo no ouvido de Letícia.

Tavinho, no entanto, ao ouvir o cunhado, o recrimina, com raiva:

— Cala boca, Ricardo, eu te quebro a cara!

— Deixa, Tavinho. Parece que ele tem razão. Uma pena que eu nunca fui um veado verdadeiro, nunca assumi a minha homossexualidade. Eu sempre me esquivei destas tentações, eu nunca, se você quer saber, mamãe, nunca eu tive um relacionamento mais íntimo com um homem. Só me puni durante toda a minha vida, vivendo à margem, taciturno, alienado da sociedade, dos grupos. Um homem solitário.

— Santa suplica, aos prantos:

— Pare pelo amor de Deus, você não precisa agir dessa forma, Alfredo. Você não tem que se expor dessa maneira sórdida! Você não precisa se humilhar, meu filho!

— Mas a senhora precisa saber. Tudo que eu tive foram aquelas brincadeiras de criança, nas quais até mesmo os héteros se envolvem. Não, eu apenas sonhei, fui um gay platônico, que nunca se assumiu, que nunca admitiu se assumir.

— Mas então, você é homem – reflete, Sandoval, desajeitado, tentando inferir alguma observação, sem sucesso.

— Claro que sou. Não se preocupe, quanto a isso. Só a minha orientação sexual é diferente. Mas já que eu me mostrei aqui, do modo mais sincero e corajoso, acho que todos devem fazer o mesmo e assumir o que são. Não interessa se é errado ou certo. Somos uma família, não somos? Não sei, se alguma vez esta família existiu, mas em todo caso, continuamos todos juntos, convivendo quase que diariamente. Até mesmo o bispo Martin. O senhor pode nos dizer qual é a sua mensagem?

O bispo olha para todos, perguntando a si mesmo, se chegou a sua hora. Tenta divagar, devolvendo ao próprio Alfredo as suas observações. Começa com voz baixa, alternando aos poucos, até se tornar uma espécie de discurso.

— Bem, Alfredo, eu admiro muito o seu comportamento, afinal você mostrou que está inserido neste grupo familiar, por mais revolta que tenha, você ama esta família, por isso foi tão sincero. Mas lembre-se, você é um menino bom, não é nada disso que pensa. Eu conheço você e sei o que estou dizendo... – faz uma breve pausa – No meu caso, eu não posso, de modo algum me considerar da família, portanto, não tenho muito a dizer.

— Ah, tem sim, o senhor foi convidado como todos nós – extrapola Letícia, empurrando o braço de Ricardo que tenta segurá-la, ainda fingindo um olhar carinhoso.

Sandoval, ratifica a objeção da filha, interessado.

— Letícia, tem razão, Bispo. Se minha mulher fez questão de convidá-lo, acho que nada mais justo do que pôr as cartas na mesa. – e completa, malicioso – Chegou a sua hora.

— Meu amigo Sandoval, não vamos considerar este nosso encontro, um jogo, sem qualquer alusão … o senhor sabe. Aqui não se trata de um confronto, muito pelo contrário, é uma reunião para que encontremos o melhor caminho.

O bispo encerra a frase, fechando as mãos em posição de oração, pousando delicadamente o queixo, como se não esperasse mais nada do encontro.

Tavinho, porém, faz questão de mantê-lo na conversa:

— E qual é o caminho que a Virgem lhe sugeriu?

— Não vamos colocar o nome da Virgem nesta conversa, Tavinho. Você sabe, que eu sempre fui amigo da família, afinal, eu os batizei a todos. Sua mãe...

— Deixe de enrolar, bispo. Abra o jogo – Tavinho o interrompe, impaciente, enquanto Ricardo complementa – Eles sabem fugir pela tangente.

O bispo suspira longamente. Sabe que a melhor estratégia é dizer a verdade, ou seja, igualar-se a todos e dizer o motivo de sua mensagem. Suas mãos suam e a voz estremece, de vez em quando.

— Bem, se vocês insistem, eu não posso fugir da minha participação, digamos, nisso tudo. Se estou aqui, como vocês disseram é por que a nossa querida amiga Santa me convidou. Acho mesmo que é devido a me considerarem quase da família... – Santa desta vez, o interrompe, ansiosa – Por favor, Bispo Martin, esclareça a todos o que lhe foi destinado.

— Está bem, Santa, é justo, é justo. Na verdade, é uma coisa simples e ao mesmo tempo, complexa. Trata-se da bússola, que doei à Santa no dia de seu aniversário.

— Diga a procedência da bússola, sr. Bispo – insiste Sandoval, que parece mais interessado do que os demais na história.

— Claro, amigo Sandoval. Eu explicarei tudo e espero sinceramente que não tirem conclusões precipitadas. Na verdade, a bússola originalmente, era da mãe de Sandoval, Dona Maria Marta de Medeiros e Quental.

— E como foi parar nas suas mãos? – Sandoval grita, impaciente – Como explica aquela história de ser doada à igreja no dia do batismo de Santa?

— Deixe-o concluir, Sandoval – reitera Santa, aborrecida.

O bispo reinicia, num tom um pouco mais baixo e temeroso:

— Bem, eu era muito jovem, quando a mãe de Sandoval também era uma jovem senhora. Perdoe-me Sandoval, eu sei que é um fato muito desagradável para você, eu entendo perfeitamente e para mim, uma mancha terrível. Mas, como vocês bem me alertaram, eu preciso falar. Já que chegamos a esse ponto, não há como recuar. Bem, como eu dizia, ela, a mãe de Sandoval participava muito da comunidade... oh, meu Deus, é tão penoso para mim.

— É difícil para todos, Bispo – acrescenta, Alfredo.

— Sim, Alfredo – e dirigindo-se à Linda, que não se afastava da cadeira onde sentara desde que começara a reunião – Por favor, traga um copo d'água para este velho discípulo do Senhor. Eu já estou muito velho, não tenho saúde suficiente para me ocupar de coisas tão complicadas. Mas se a Virgem me concedeu esta oportunidade, preciso levar à frente. – fez um pequeno silêncio e prosseguiu – Como eu disse, eu era muito jovem e dona Maria Marta era uma mulher muito bonita.

— Cara de pau. Pegou a velha! – exclama Ricardo, sorrindo irônico, calando-se logo em seguida, com a xingação de Letícia – Cale a boca, imbecil. Eu não esqueci o que você fez!

O bispo segura o copo de água, que Linda trouxera, com as mãos trêmulas. Toma um gole, aproxima-se da mesa de tampo de vidro, larga-o e pede licença para sentar-se.

Todos se aproximam, fazendo um círculo, em silêncio.

Ele então, senta-se, tentando refazer-se de um possível mal-estar. Por fim, recomeça:

— Bem, amigos, continuando. Nós tivemos um breve caso, uma coisa passageira, da qual me arrependi por todos os meus dias. Mas, daquele pequeno relacionamento, ficou uma joia, uma joia que ela me doou de despedida. A bússola, que vocês agora conhecem. Esta bússola pertencia à mãe de Sandoval. Eu precisa me livrar dela, era uma punição para mim, o símbolo de meu pecado. Meu amigo, me perdoe, mais uma vez eu lhe peço.

Sandoval bate com os punhos na mesa, enquanto os demais o observam estarrecidos.

Eu tinha certeza que era a bussola da minha avó. Ela morreu repetindo isso, milhões de vezes, dizendo que minha mãe tinha desaparecido com a joia.

O bispo prossegue, pesaroso:

— Pois é, Sandoval, isso me trouxe muitos problemas. Tanto, que tive a ideia de inventar a história que ela tinha sido doada à igreja no dia do batismo de dona Santa. Reconheço que foi uma canalhice sem perdão, mas eu não peço que me perdoem. Pedirei a Deus, como já tenho feito todos os dias de minha vida.

— E você, Santa, compactuou com esta sujeira. Como foi capaz?

— Eu não sabia de nada, Sandoval. O bispo me confidenciou um pouco antes do aniversário. Você não pode me acusar disso, pelo amor de Deus!

— É verdade, amigo Sandoval, ela não sabia de nada – confirma o bispo, mostrando remorso.

— Ora, vai se fuder! Não me chame de amigo, você transou com a minha mãe,ficou com uma joia de família, inventou que era um presente à igreja e fala isso agora, com essa cara de pau!, um padre, um bispo, você na verdade, é um velho sacana, isso sim! Você é um canalha, eu devia acabar com a sua carcaça podre!

Ricardo não esconde o sorriso e uma certa vingança pela revelação de Santa, ouvindo atento a explicação do bispo Martim.

— Eu segui o que dona Santa me pediu, por favor – o bispo suplica, assustado – Eu me expus na frente de todos, revelei situações e sentimentos que já estavam mortos no passado, os quais eu temia até em pensar. Vivos, apenas na minha lembrança e no meu remorso. Agora, estou livre. Se vocês me perdoam ou não, não posso fazer nada. Mas se pequei, devo a Deus o beneplácito do perdão. Mas, parece que não apenas eu devo à sociedade, Sandoval. Acho que Linda também tem muito a dizer.

— Quer acusar a Linda também? Não quer ficar sozinho na sacanagem? – indaga Sandoval, com exagerado desvelo.

Alfredo encara o pai com desconfiança.

— O que Linda tem a ver com isso, mamãe?

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