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A fotografia da vida de Santa - CAP. 14

No capítulo anterior, tudo parecia desandar na vida de Sandoval. O seu plano era questionado por Linda, que sabia muito mais do que podia imaginar. Se ela estava disposta a levar o seu próprio plano adiante, ele teria de algum modo tomar uma atitude que a impedisse, mas que ao mesmo tempo, também pudesse livrar-se de Santa. De todo modo, sentia-se perdido, e naquele momento, não sabia o que fazer. A seguir o décimo quarto capítulo de nosso folhetim dramático, nesta terça-feira, 25/10/16.

Capítulo 14


Fonte da ilustração: https://pixabay.com/pt/menina-relógio-pessoa-tempo-1563986/

Linda foi quem atendeu a porta. Ao ver Santa, Sandoval teve um estremecimento, temendo trair-se num gesto inesperado ou até mesmo ficando em silêncio.

Linda, ao contrário, parecia muito tranquila e segura. Aproximou-se de Santa, sorrindo e perguntando se havia assistido a missa.

— Não, Linda, você sabe que só fui rezar um pouco. Depois andei um pouco pelo bairro, precisava relaxar um pouco.

— Mas o motorista a acompanhou? Não é muito seguro andar sozinha por aí, dona Santa.

Santa a olhou intrigada. Não respondeu, apenas acrescentou que depois conversaria com ela.

Linda concordou, submissa. Em seguida, pediu licença e afastou-se.

Santa entrou e sentou-se numa das poltronas em torno da mesa, fitando Sandoval e esperando que ele dissesse alguma coisa. Sandoval sorriu e serviu-se de uma bebida.

— Você vai beber, Sandoval? Não acabou de ficar doente?

— É verdade, Santa, mas é que estou um pouco tenso, acho que um licorzinho fraco desses não vai me fazer mal.

— Você é quem sabe. Mas me diga, como foi a reunião? O que decidiram? Você contou a eles a minha condição? Ou melhor, o motivo de minha condição?

Sandoval senta-se no outro lado da mesa, toma um gole do licor fazendo uma careta. Disfarça, tentando ganhar tempo para imaginar o que deve dizer-lhe.

— Muito doce este licor, só as mulheres para gostar disso!

— E então, Sandoval? Vai me contar ou não?

— Calma, Santa, calma. Não faça tantas perguntas ao mesmo tempo.

Santa aproxima-se dele e senta ao seu lado. Sandoval por um momento, pensou que fosse agredi-lo, mas sabia que a mulher não seria capaz de cometer qualquer violência. E depois, havia vindo da igreja! Se bem, que as coisas também por lá não estavam tão tranquilas, só em pensar no tal do bispo Martim, lhe dava arrepios.

Santa, no entanto, parece que tinha alguma novidade para contar-lhe. Olhou-a de vesgueio e comentou:

— Você está diferente, Santa. Parece que está tramando alguma coisa.

— Eu? Tramando? Você é muito dissimulado, Sandoval. Quem fez esta reunião com a família, sozinho, não fui eu.

— Mas eu lhe expliquei as razões, você sabe. Eu não queria a sua presença, porque me sentiria muito mal, você sabe.

— Então, fale o que aconteceu na reunião. Vieram todos?

— Sim, vieram. O Alfredo estava muito nervoso, como sempre. Ele não conseguia entender porque você estava ausente. Mas quando eu revelei tudo, ele e os demais entenderam.

— Você revelou tudo?

— Sim, mas… bem, eu tinha de fazê-lo, não? Não era o que você queria?

— Era o melhor para a família.

— Sim, você tem toda razão, Santa.

— E qual foi a reação de nossos filhos?

Sandoval silencia por alguns minutos, mas em seguida, revela uma fisionomia de réu, suspirando. Santa parece não ter muita paciência com o marido e o instiga a detalhar a reunião.

— Você me parece muito nervosa, Santa. Não quer descansar primeiro? Olha, você mesma disse que veio caminhando da igreja, deve estar cansada.

— Não se preocupe comigo, Sandoval. O meu cansaço físico não é nada comparado com a curiosidade que tenho. Quero saber como Letícia, Tavinho e Alfredo reagiram. Eles não podem ter aceito tudo como uma coisa natural, você não acha?

— Não, claro que não. Mas por que você não pergunta a Letícia? Você sabe que ela é a mais explosiva dos três.

— Eu farei isso, mas custa você me contar agora? Ou você não tem nada a dizer, Sandoval?

Neste momento, batem à porta. Santa levanta-se irritada. Pergunta a Sandoval se ele chamou alguém. Ele acena a cabeça, indeciso. Na verdade, não sabe se deve concordar que esperava alguém. Talvez fosse Linda colocando o seu plano em prática.

Santa abre a porta e Linda aparece com uma xícara de chá.

— Desculpe, dona Santa, sei que não devia, mas vi que a senhora voltara muito preocupada da igreja.

— Linda, eu estou conversando com o meu marido. Desde quando você se intrometeu assim?

— Sei que a senhora tem toda razão, dona Santa, mas é que … desculpe, fui uma tonta, mas eu percebi que estava muito pálida, e fiquei remoendo na cozinha, preocupada.

— Está bem, Linda, deixe o chá aí. – Aponta para a mesa, mas Linda aproxima-se dela e lhe diz ao ouvido. – Preciso falar-lhe.

Santa então, muda a atitude, e mais amena, se dirige à Linda, como se já esperasse aquela reação.

— Você sempre tão atenciosa, Linda. – E voltando-se para Sandoval – Acho melhor tomar o chá lá na saleta. Vou deixá-lo Sandoval com seus pensamentos. Amanhã, você me conta o que aconteceu.

Sandoval sorri, satisfeito. Linda retira a bandeja da mesa e afasta-se em direção à porta, seguida por Santa.

Ao sairem, Sandoval dirige-se à janela que dá para o pátio e sente um arrepio. Aquelas sombras das árvores que se assemelham à silhuetas produzem em sua mente uma angústia, como se representassem a estrutura articulada do plano de Linda.

Aquela mulher era assustadora, tinha pensado em tudo com perfeição e estava manipulando Santa e a todos naquela casa. O que ele poderia fazer? Se conseguir o seu objetivo que é o de enlouquecer Santa, acabará destruindo o seu patrimônio e fazendo chantagem.

Quem poderia afirmar que ela não o incriminaria no golpe que está planejando?

Sandoval afasta-se da janela e pensa numa maneira de impedir Linda de cometer aquele crime contra a sua família, contra ele, principalmente.

E se contasse tudo à Santa? Ela acreditaria nele?

Decide por fim, sair da biblioteca e conversar com Santa, pelo menos, tentar convencê-la a esquecer aquela história. Despediriam Linda e tudo acabaria bem. Mas e a gravação do celular? Ele precisava de um tempo, pois teria de saber a quem ela enviara uma cópia. Provavelmente, o filho, mas não tinha certeza. Por isso, devia tornar-se amigo de Linda até convencê-la a dizer com quem estava a cópia. Depois, destruiria a prova e acertaria a situação com Santa. Não havia outra solução.

Ao aproximar-se da saleta, observa que as duas conversam, mas sabe que não deve interrompê-las. Até é melhor que Santa perceba o quanto está sendo manipulada, pois ele a alertará aos poucos.

Afasta-se, enquanto as duas agora parecem velhas amigas.

Linda o vê afastar-se e levanta-se para observar até onde vai. Depois volta até ao encontro de Santa. Sorri, dissimulada.

— Veja, como o seu marido está preocupado. Mas agora, podemos conversar tranquilas, ele já foi na direção do quarto.

— Então, você me diz que não aconteceu nada demais. Não estou entendendo, Linda. – Conclui, Santa intrigada. Linda a observa com um olhar afetuoso, e quase sorrindo, acrescenta:

— Eu também não podia acreditar no que estava ouvindo, mas fiquei muito feliz em saber que a sua família a ama. Que a reunião não passou de uma oportunidade de lhe fazerem uma surpesa, uma boa surpresa.

Santa porém, não concorda com aquela animação toda. Ao contrário, desconfiada, exige que ela esclareça com detalhes aquela história que não merece crédito algum. Linda, no entanto pretende convencê-la de que a família tem outros planos para ela.

— Não fique desconfiada, dona Santa. Tenha certeza de que todos estão apenas interessados em fazer-lhe um agrado. Eles não querem, pelo que entendi, que a senhora fique estressada com esta missão. Querem lhe dar de presente uma viagem maravilhosa.

Santa reage, indignada:

— Eu não preciso de viagens! Se quisesse, estaria longe daqui!

— Sem dúvida! A senhora e eu sabemos disso, mas deixe que eles a presenteem, eles querem lhe fazer este agrado.

Santa levanta-se da poltrona e caminha pela sala de leitura, achando que tudo não passa de uma grande encenação. Mas sente-se ainda mais perturbada pela conduta de Linda que demonstra uma tranquilidade que em vez de deixá-la confiante, a inquieta ainda mais.

— É só isso? E a gravação no celular? Por que você não me mostra?

— Eu sinto muito, dona Santa. A senhora sabe que não sou muito boa nestas modernidades, e , bem, me desculpe. Acabei não gravando nada.

Desta vez, Santa explode de raiva:

— Não gravou nada? Não é possível! Eu já tinha ajustado o aplicativo da gravação para que você não se perdesse! Como aconteceu isso?

Linda esforça-se para parecer arrependida, mostrando-se nervosa com a revelação:

Desculpe, dona Santa, eu não sei como aconteceu. Estava muito nervosa, e de repente, eu devo ter digitado alguma coisa, não sei.

— Você é uma idiota, Linda. Não fez nada do que combinamos! Eu lhe disse que você me devia essa!

— A senhora disse? Ah, sim, disse. Olhe, dona Santa, tome mais um pouco do chá, não quero que fique mais nervosa por minha causa.

— Eu não estou nervosa, Linda! Estou muito bem. Bem, nem sei se estou, acho que este chá está até me deixando zonza! – Ao dizer isso, volta a sentar-se, angustiada – Mas escute, quem sabe gravou alguma coisa e você não sabe reproduzir.

— Não, tenho certeza de que não gravei. Até abandonei o celular no bolso, desligado. Mas como lhe disse, não aconteceu nada.

— Está bem, não aconteceu nada, mas a revelação de Sandoval sobre o filho que tem com você. O que os meus filhos disseram?

Linda a fita com surpresa, como se a não reconhecesse. Agora, encaminha-se até uma estante e fica apoiada, demonstrando insegurança e medo:

— Não sei do que está falando, dona Santa.

— Não sabe? Você está louca, criatura?

Linda volta em seguida, aproximando-se da patroa, mudando a fisionomia e o cenário. Mostra-se afetuosa e preocupada.

— Acho que a senhora está muito nervosa. Está confundindo as coisas.

— Linda, não é hora para brincandeiras. Por que você está dizendo isso?

Faz-se um silêncio providencial. Afinal, Linda sabe que deve representar o seu papel de modo a deixar dicas aos poucos, como se precisasse do apoio técnico do outro personagem. Na verdade, um personagem que ela mesma criara. Suspira e fala quase em segredo, num tom mais baixo:

— Porque nunca houve nada entre nós, Deus me livre. O senhor Sandoval é um homem íntegro, honesto.

Santa grita, exasperada:

— Por favor, Linda, saia daqui.

— Dona Santa, pense bem. A senhora está confusa, talvez esteja confundindo uma outra história, talvez dessas que ouvimos todos os dias na TV.

— Você está dizendo que estou louca? Sim, só pode ser isso, para contrariar tudo que sabemos sobre o seu passado!

Não diga isso, dona Santa. Eu jamais pensaria uma coisa dessas, mas quero que reflita bem, nunca houve nada entre eu e o Sr. Sandoval, pelo amor de Deus!

— E seu filho? O que me diz sobre isso? Ele também é uma imaginação minha?

Linda a encara com frieza. Sabe que deve ser perspicaz e direta, quando necessário.

— Não sei do que está falando. Eu sou uma mulher solteira, tenho apenas um sobrinho. É a ele a quem a senhora se refere?

— Vá embora daqui, vá embora!

— Dona Santa, acalme-se, meu Deus, que está havendo?

Santa levanta-se da poltrona, dá alguns passos e tenta segurar-se na parede, perdendo as forças e caindo ao chão. Linda corre ao seu encontro. Percebe que a patroa está desmaiada, então dirige-se à mesinha e retira a bandeja com o chá. Afasta-se fechando a porta, com um sorriso.

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