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UM CRIME NA CIDADE QUE SABIA DEMAIS - 15º CAPÍTULO

No capítulo 14, percebemos que Ricardo abriu-se com Raul, na tentativa de saber alguma coisa sobre o crime que o acusavam. Raul comentara sobre o grupo de jovens que costumava fazer luais à beira do rio, nos quais havia envolvimento de drogas e sexo. Entre eles, estava Taís, a jovem que sentia-se atraída por Ricardo a ponto de assediá-lo e para seu azar, sendo assassinada. Quem seria o culpado ou os culpados por tal crime? O grupo de jovens, dos quais fazia parte Carlos, o filho do prefeito que organizava as festas? Ou os quatro jovens juntos, numa noite de loucura regada à bebida e drogas? Ou seria mesmo o médico, que lutava para ficar ileso? Também havia o antigo namorado da moça, o mecânico Paulo que tinha muito ciúme por ela. E Rosa, que papel teria nesta trama toda? A seguir o 15º capítulo de nosso folhetim policial, cheio de crichês mas com muito suspense. Divirtam-se.

Na manhã seguinte, Júlio estava decidido a falar com o delegado sobre o caso de Taís, na tentativa de conseguir mais subsídios e quem sabe pedir uma acareação com os suspeitos, entretanto, sabia que precisava de provas. A polícia não o ajudaria caso se precipitasse. Era consciente que as suas conversas precisavam de um trabalho oficial e isso era competência da polícia. Estava dirigindo-se à delegacia, quando passou pela loja de conveniências, que segundo Rosa, o proprietário por muitos anos havia sido o Sr. Domingues, o homem que perdera a esposa há pouco e culpava o médico por negligência. Decidiu entrar e Marília foi quem o atendeu. Solícita, correu ao seu encontro, abrindo a porta envidraçada que parecia emperrada.


— Sempre temos este problema quando esfria muito. Parece que as engrenagens não funcionam!

Capítulo 15<br />

Júlio achou a explicação para o problema meio estranha, mas não disse nada. Sorriu e pediu um café. Enquanto tomava a bebida, observava o posto de gasolina, com alguns atendentes em volta de um caminhão de combustível que acabara de chegar.

Marília comentou: — É novo por aqui?

— Bem, na verdade eu nasci aqui. Fui para a Capital e estou aqui há algumas semanas.

— Pretende ficar?

— A princípio, pretendia passar um tempo, mas estou seriamente pensando em voltar para cá. É uma cidade agradável.

Marília fez um muxoxo e calou-se. Voltou-se para o freezer onde organizou algumas embalagens de produtos. Júlio, então comentou: — Engraçado, quando morei aqui, não havia este posto de gasolina.

Ela perguntou, sem voltar-se. — Faz muito tempo que o senhor se mudou?

— Uma eternidade. Eu era uma criança.

Marília sorriu e completou: — Então é por isso. Talvez logo depois que o senhor tenha saído.

Em seguida, terminou a tarefa no freezer, levantou-se e prosseguiu o assunto: — O Seu Domingues foi o empreendedor de tudo isso aqui, do posto, da loja de conveniências, do pequeno restaurante ao lado.

Júlio observava a desenvoltura de Marília, que retomava outra tarefa, agora na tentativa de remover uma mancha do balcão de granito. Então, perguntou, satisfeito: — São todos do mesmo dono?

— Sim. Seu Domingues era muito bom nos negócios. Agora anda por aí, sentado na praça, falando consigo mesmo, numa penúria que dá dó.

— Por que você diz isso? -– indagou, mostrando-se interessado.

— Hoje ele não é mais dono de nada, acabou vendendo tudo depois que a mulher faleceu. Parece que os compradores são uns turcos que chegaram na cidade. E vieram com dinheiro – concluiu, sorrindo. Júlio entretanto, estava mais interessado no antigo dono. Continuou o interrogatório informal.

— Ah sim? E o que ele faz agora?

— Como lhe disse, depois da venda, ficou muito deprimido. Mora sozinho num pequeno apartamento. Às vezes, eu o visito, mas pra falar a verdade, ele não gosta muito de visitas. É um homem amargurado.

— Não conseguiu superar o luto, provavelmente. Talvez precise de uma terapia, poderia ajudar.

— Mas ninguém vai convencê-lo. Ele tem muito rancor dentro de si, acredita que a mulher morreu por um erro médico, sabe?

— E por que ele pensa isso?

Marília se cala por um momento, depois desabafa: — Ih, isso não é assunto pra se ficar falando por aí, acho que falei demais.

Júlio mostra-se prudente, para deixá-la à vontade. — Mas isso acontece todo dia. As pessoas vivem reclamando de erros médicos na tv e muitas vezes, é apenas um sentimento de dor que não conseguem controlar e colocam a culpa em alguém, você não acha?

— O Seu Domingues não … – depois de uma pausa, Marília parece convencida – na verdade, eu nunca pensei nisso. Sabe-se lá o que passa na cabeça das pessoas, de repente é isso mesmo. É uma raiva que não tem fim e alguém tem que ser o culpado.

— E no caso, o médico. Olhe que não estou defendendo ninguém, até mesmo porque não conheço o caso da mulher do Seu Domingues, Lorena não?

Marília o encarou, intrigada. — Como o senhor sabe do nome da esposa dele?

— Eu sei? Ah, sim, claro. Só não sabia que aquele senhor da praça era o dono antigo deste estabelecimento. Agora juntei os fatos.

— Sim, ela era excelente cantora. Fazia parte do coral da igreja.

— É um coral muito grande, não?

— Sim, é bem grande. O senhor quer um outro café?

— Não, não. Só queria lhe fazer mais uma pergunta, se não se importa.

Marília desta vez, o olhou curiosa. Guardou o esfregão sob o balcão e esperou calada. Júlio insistiu: — Gostaria de saber o que você acha desses crimes que ocorreram na cidade?

Ela suspira, aliviada, como se o assunto a interessasse. — Uma cidade calma como era a nossa, imagine! Que lástima, o senhor não acha?

Júlio acena afirmativamente. Ela se entusiasma com o tema: — Acho que o assassinato da filha do Golias foi um caso à parte.

— Golias?

— Ah, desculpe, é que o chamam assim, aqui na cidade. Ele de Golias não tem nada – e riu colocando a mão na boca – o nome dele é Lucas. – Só agora Júlio percebera que ela tinha os dentes meio salientes, mas nada que a enfeasse. Marília tinha uns olhos muito bonitos, pensou.

— Agora me lembro, ele mesmo me disse que o chamavam assim.

— O senhor já conversou com ele?

— Algumas vezes. Mas por que você acha que é um caso à parte?

— Porque mais cedo ou mais tarde alguma tragédia ia acontecer com aquela gente.

— A senhora se refere à família dela?

— Não, me refiro ao grupo de amigos que ela frequentava. Não é porque morreu, que vou defender, ah, isso não. Imagine que era uma turma da pesada! Todo mundo sabia que eles se reuniam no rio pra fumar maconha e todas as drogas que tinham direito e faziam coisas piores ainda que nem me atrevo a falar.

— Coisas piores?

— O senhor sabe, hoje em dia, ninguém respeita mais nada. Dizem até que tomavam banho nus. Mas isso é problema deles!

— Sim, é problema deles. Em todo caso, você acha que alguém do grupo a matou!

— Isso eu não posso afirmar, mas o senhor sabe, naquele meio acontece de tudo!

— Sim. E são muitos?

— Normalmente, uns quatro. O mais velho é o Miguel, um rapaz que iniciou um curso universitário em Porto Alegre e desistiu no meio do caminho. Voltou pra cá, fica zanzando, sem fazer nada e vivendo aquela vida de sacanagem, desculpe a palavra. Os pais apoiam, melhor pra ele, não? Tem o Henrique, esse é um adolescente, acho que deve ter uns 17 anos no máximo, é um garoto ruivo, filho da Dona Dolores, uma viúva, que não sabe o que fazer com ele. Dizem até que ele a agride. A Ana, que é a mais desgarrada, porque parece que não participa de tudo, gosta de usar a sua maconha e outras coisitas que se comenta por aí. Mas quem organizava as festinhas era filho do prefeito, um tal de Carlos.

Júlio a ouve pensativo. Faz uma pausa logo à conclusão e por fim, decide perguntar: — E a filha do farmacêutico, como entrava nessa história?

— Ela vivia drogada, a pobre. E o único lugar em que conseguia as drogas era lá. Foi muitas vezes parar na polícia, mas como era apenas usuária, nunca lhe aconteceu nada.

— E quem fornecia as drogas?

— Ah, meu amigo, eu só posso lhe dizer o que o povo fala, se me perguntarem na polícia, eu juro que não sei de nada.

— Naturalmente, não podemos nos envolver nestas coisas – concorda, consciencioso – Mas para a senhora, quem seria o responsável?

— Quem tinha mais poder no grupo, o filho do prefeito, embora eu acredite que ele não faça nada sozinho. Tem mais gente por trás de tudo isso.

— Acredito que sim. Por outro lado, eu fico pensando, sabe, no que você me afirmou. – Marília olha para a porta envidraçada, verificando se há outro cliente ou algum funcionário, mas percebe que apenas os funcionários continuam em suas tarefas. O caminhão de combustível já afastou-se e um carro apenas está abastecendo. Volta -se para Júlio, que continua a explanação – Fico aqui matutando o que essa moça quer dizer com isso quando afirma que o assassinato de Taís é um caso à parte.

— Ah, é isso? Só porque eu acho que este caso não tem nada a ver com os outros crimes. Pra mim, é um psicopata que andava por aí, mas foi embora, graças a Deus, porque os crimes acabaram. Foram quatro, na verdade e nenhuma das pessoas era daqui. Todos turistas.

—Muito estranho, né? As pessoas simplesmente apareciam mortas e não se sabia o motivo. Morte súbita, segundo a certidão de óbito. O problema que não fizeram a necrópsia dos corpos, mas os peritos deram o veredicto favorável, ou seja, que não houve crime algum. Mas por que as pessoas apareceram mortas em parques, praças ou à beira do rio?

Marília pergunta, desconfiada: — Me diga uma coisa, por que está fazendo tantas perguntas?

— Na verdade, Marília, gostei muito da sua conversa. Um assunto leva ao outro, não é mesmo?

— Como é o seu nome?

— Sou Júlio, Júlio Ramirez.

— Então o senhor é o detetive que chegou há pouco. Meu Deus, acho que falei demais!

— Não se preocupe, você não está num interrogatório policial. Sou apenas um cliente curioso com o que acontece na cidade, nada mais.

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