Pular para o conteúdo principal

O cofre e as moedas

Fonte da ilustração: Gerd Altmann, de Freiburg/Deutschland, do site https://pixabay.com/

Seguir certas crenças ou talvez quaisquer delas, cristãs ou não, têm-se a impressão de que muitas vezes, Deus situa-se longe demais, num espaço tão distante que se equipara a estrelas inatingíveis. Pelo menos, o Deus do amor que Cristo nos revelou.

Nestas religiões ou crenças, o contato com Deus exige muitos caminhos e a maioria deles tem meandros que desembocam em labirintos, aos quais não temos acesso ou nos perdemos na viagem.

Para este contato, ficamos a sós, despidos de qualquer humanidade ou desejo, onde os conceitos se constróem nos percalços de uma sociedade idiotizada, na qual o ser humano parece o último da hierarquia animal.

Para elas, as crenças e seus idealizadores, atingir este contato exige sobrepujar a dor, exaltar a imagem em detrimento do conteúdo, reproduzindo um ambiente de felicidade.

Para ter o contato com Deus é preciso ser aceito na clã e equilibrar-se em cabos sob precipcíos, sem rede de apoio, perdidos na fé cega de quem alcança apenas a palavra blindada. Na verdade nada é tão inseguro quanto a trajetória ditada.

Caminhar limpo pela estrada, decidido e verdadeiro, uma verdade padronizada dos que se encharcam nas medidas dos cofres, cujas moedas tilintam à beira do altar.

Talvez este contato não dê em nada, nem o homem seja feliz, nem se sinta solidário. Ao contrário, cruel e determinado no julgamento, na intolerância e no ódio.

Talvez o único contato com Deus, seja o avesso de tudo isso, das crenças, das religiões que pregam a ruptura do ser humano em sua plenitude, quando o querem dividido e parcial, um indivíduo no grupo e outro na sociedade.

Ou quando o preconceito ameaça a falência da humanidade, embora enalteçam o pecado como elemento de temor e incerteza.

Será que o néctar e o perfume se unem na natureza e não podemos aprisionar em nossas narinas, se eles são de Deus?

Talvez o contato se dê no viés do amar, arriscar-se e até errar, porque a substância é de Deus.

Às vezes, tudo é muito pouco, quando este tudo é apenas um rascunho de princípios contra a humanidade. O homem é muito mais do que seguir o que outros homens pregam.

Talvez o contato se dê mais simples, quando nos despirmos de nossas vestes surradas e pesadas de conceitos que nos apropriem de uma única faceta, a qual jamais seremos capazes de revelar e apresentemos a alma leve, tão leve que a inspiração de Deus a toque e transforme.

Postar um comentário

PULICAÇÕES MAIS VISITADAS

TRABALHO VOLUNTÁRIO NO HOSPITAL PSIQUIÁTRICO : UMA PROVOCAÇÃO PARA A VIDA

 TRABALHO VOLUNTÁRIO NO HOSPITAL PSIQUIÁTRICO : UMA PROVOCAÇÃO PARA A VIDA
Participávamos de um grupo de jovens religiosos, no final da década de 70. Era um grupo incomum, porque embora ligado à igreja católica, recebia participantes que não possuíam religião definida, sendo um deles, inclusive espírita.  Formava um caldo interessante, porque as discussões, ainda que às vezes, estéreis, produzia muitos encaminhamentos para discussão. Era  realmente um agrupo eclético, e por assim dizer, quase ecumênico. A linha que nos norteava era a solidariedade com o próximo. Queríamos inconscientemente modificar o mundo, pelo menos minorar o sofrimento dos que estavam a nossa volta. Diversos temas vinham à pauta, tais como moradores de vilas paupérrimas, desempregados, idosos do asilo, crianças sem acesso a brinquedos ou lazer. Era uma pauta bem extensa, mas houve um tema que foi sugerido por mim. Tratava-se de se fazer algum tipo de trabalho com os pacientes do hospital psiquiátrico. Houve de imed…

METÁFORAS CRUÉIS : desqualificação das mulheres e negros

Certa vez, em uma disciplina de um curso de pós-graduação em linguística, avaliamos uma série de adjetivos ou substantivos adjetivados que soam lisonjeiros para os homens e ao contrário, para as mulheres produziam conotação pejorativa, pois a própria palavra utilizada possui juízo de valor, tanto para um lado quanto para o outro. Estas distorções linguísticas são foco de vários estudos de cursos de pós-graduação e muito bem explanadas em vários artigos. Sabe-se entretanto, que a língua é apenas um instrumento que é fruto da cultura dos cidadãos de um país.
Estes adjetivos constituem metáforas que desquafilicam o sujeito feminino e qualificam o masculino. Se não, vejamos alguns exemplos, que foram exaustivamente avaliados em vários trabalhos, mas que cabe aqui, identificá-lo en passant. O adjetivo vadia, para a mulher tem a ver com promiscuidade, assim como vagabunda. No caso do homem, o termo vagabundo ou vadio, tem a abordagem do trabalho, mas pode incluir também um significado pos…

PIOLHOS DE RICO

Há quem adore rico. Certamente não àquele rico de fachada, que aparece toda semana nas páginas de socialite dos jornais ou fazendo campanhas de benemerência, sob alcunhas de bons moços e gente de bem. Gente chic que veste nos grandes magazines (sic) e se atualiza em grifes de marketing.
Há os que adoram gente rica, e não são pessoas ruins ou cidadãos menores. São apenas simplórios.
E também não há nada contra os verdadeiramente abonados, que construiram suas fortunas e obtiveram seus bens com seu trabalho, aumentaram seu patrimônio ou investiram nos que lhes foi legado de direito.
Mas há os que grudam nos ricos, diria que são verdeiros piolhos de rico, cono costumava dizer um colega de trabalho, talvez um pouco incomodado pela sabujice de um ou outro companheiro.
Mas analisando a situação, percebi que piolho de rico é aquele que está sempre grudado numa pessoa abonada, em qualquer esquina que vá, em qualquer cruzeiro pra lhe dar as boas idas (e vindas), em qualquer festa de bodas em …