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UM CRIME NA CIDADE QUE SABIA DEMAIS - 9º CAPÍTULO

No capítulo anterior, soubemos que o advogado e detetive Júlio Ramirez fora chamado por Sara, a mãe de Raul, embora ele pretendesse vir à cidade onde passara a sua infância, porque tinha a intenção de escrever um livro. Nesse ínterim, ao conversar com um velho amigo, chamado Jairo, soubera do crime recente referente ao presumível assassinato de uma moça da cidade, que segundo as conversas da comunidade, o suspeito seria médico que se instalara há pouco na região. Era uma história estranha, além dos crimes já ocorridos com turistas e outras pessoas, que segundo o que soubemos através de Raul, numa conversa com o próprio médico, foram praticados após terem ingerido insulina, sem estarem na realidade doentes. Esta trama policial prossegue agora, no 9º capítulo de nosso folhetim.

Capítulo 9

O garçom parece nervoso ao dizer a Júlio quem queria falar-lhe naquele momento.

— Não, não é seu amigo Jairo, senhor, que quer falar-lhe. Trata-se de Golias. Desculpe, é como todo mundo chama o farmacêutico da cidade.

Farmacêutico? Então o pai da moça assassinada quer falar com ele. Mas não tem nada o que conversar. O que poderia querer… -– nisso, o homem a quem o garçom se refiria, irrompe na sala e dirige-se a Júlio revelando intensa ansiedade – por favor, preciso falar-lhe. Preciso da sua ajuda.

Júlio pensa em seguida que não poderá ajudá-lo em nada, mas fica quieto. O outro insiste. – Sei que o senhor já morou nesta cidade, meu pai que era enfermeiro, conhecia muito bem a sua família. Se não se importa, eu gostaria de falar-lhe.

Como não tem como recusar, Júlio pede que o acompanhe.

Júlio abre a porta com dificuldade. Sua mão treme, mas não está temeroso com a presença do homem. Já enfrentou centenas de casos difícieis, homens traídos, políticos presos em falcatruas, mulheres que investigavam a vida de maridos no auge do ódio doentio, mas estava especialmente confuso com aquela presença. Talvez não estivesse preparado para a visita, queria descansar, aproveitar a aposentadoria, escrever o seu livro, rever os poucos amigos da cidade, encontrar o ritmo há tanto esquecido daquele povo. Afinal, o que queria aquele homem contar-lhe?

Abriu a porta e ofereceu-lhe a poltrona próxima à cama. Sentou-se numa pequena cadeira de praia, em seguida.

—Então, o senhor queria falar comigo?

—Peço desculpas pelo adiantado da hora, aqui na cidade, a gente costuma dormir antes das 10.

–Quanto a isso, não se preocupe. Eu durmo muito tarde.

—Bem, o meu nome é Lucas, como o rapaz do hotel disse, sou o farmacêutico da cidade.

— Sim?

—Pois é. Por ironia, me chamam de Golias, veja você, com a minha baixa estatura, isso é até uma piada, além de ser bastante franzino.

Júlio fez uma pausa, como se medisse as palavras. Por fim, disparou: – Mas o senhor não veio me procurar para me falar sobre a sua estatura, não?

O homem se levantou, enquanto falava – não, claro que não – e se dirigiu a janela que dava para a frente do hotel. Olhava para baixo, um ar desolado. Os olhos miúdos, algumas rugas permanentes e as olheiras davam um ar de desamparo, como se houvesse passado muitas horas sem dormir, nem se alimentar.

Júlio ficou observando-o, na espera que falasse alguma coisa. Penalizou-se com a figura que devia ser um risquício do homem que era, tão desconsolado e triste parecia. Não lhe saía da cabeça a tragédia da filha.

Neste momento, ele se voltou da janela e correu ao seu encontro, quase gritando – preciso da sua ajuda, Sr. Júlio, preciso da sua ajuda!

Júlio também levantou-se e tentou conduzi-lo à poltrona.

— Por favor, se acalme. Seja o que for que precisa de mim, tem que me contar com calma. Não se desespere.

O homem começou a chorar comvulsivamente. Segurava a cabeça, em prantos. Júlio não interveio e esperou que se acalmasse. Aos poucos, o homem se recompôs, respirando fundo, olhando para o nada.

—Quer beber alguma coisa?

— Tem um copo dágua?

Júlio entregou a água e voltou a sentar-se, desta vez, na própria cama.

—Desculpe o meu desabafo. Eu não poderia ter feito isso, foi um constrangimento enorme pra mim, mas estou muito nervoso, entende?

— Não se preocupe com isso, eu entendo que esteja passando por momentos difícieis.

—É sobre isso que vim lhe falar. O senhor sabe do assassinato de minha filha.

—Foi a primeira coisa que soube quando cheguei. Estava no bar conversando com um amigo meu e ele contou-me o ocorrido.

— sim, Jairo, foi ele que me convenceu a falar com o senhor!

Júlio irritou-se com o amigo. Como ele foi capaz de dar aquela sugestão infeliz ao homem. Agora compreendera, porque ele lhe contara a história com um riqueza de detalhes, já estava com o objetivo formalizado.

—Bem, sei que é detetive, e que pode me ajudar.

— Eu sou aposentado.

—Melhor assim, tem mais experiência. Por favor, eu lhe suplico. A minha filha foi assassinada por aquele miserável, aquele médico maldito que veio só pra destruir a nossa família, a nossa vida! Um homem da cidade, cheio de malameleques, cheio de bossa, minha filha se encantou e deu no que deu! Ela se apaixonou por ele, acabou fazendo o que não devia. Ele até prometeu casar com ela, ela acreditava nisso! Mas ele tinha outra na cidade, na capital. Ele tinha noiva ou namorada, não sei, só que tava decidido a acabar com tudo. Como ela insistiu, como disse que estava grávida e contaria para a noiva dele, ele acabou matando-a! Ele matou a minha filha!

O homem falou tudo de um sopetão. Não havia como interromper, nem argumentar.

Finalmente, quando conseguiu, Júlio perguntou: – Mas me diga uma coisa, essa história de gravidez, eu não sabia. E depois, pelo que saiba eles se conheceram há pouco menos de um mês.

— Ela teve esta triste ideia de inventar esta bobagem e o pior é que ele acreditou. Deu no que deu!

—Então este médico é um idiota, convenhamos! Não seria mais fácil ele abrir o jogo, dizer que não casaria, e depois contaria para a noiva, se fosse o caso? Afinal, nos dias de hoje, uma gravidez não é garantia de nenhum casamento. E depois, se era mentira…

— O problema todo é que a tal moça da cidade, a namorada é filha de um grande empresário no ramo hospitalar. Isto significa o futuro dele, entende? Por isso a matou, eu não tenho dúvidas!

—Após contar-lhe toda a história e descrever posteriormente em detalhes o que julgava o encontro do médico com a filha, ele perguntou se Júlio aceitava o caso.
Júlio experimentou uma certa euforia que costumava sentir em frente a um caso novo, quando estava na ativa. Por um momento, sentiu-se mais vivo do que nunca e muito produtivo. A biografia, o livro que ficasse para trás. Entretanto, havia um porém.

— Espere, Lucas, eu vim para cá com um objetivo. Na verdade, uma mulher chamada Sara quer falar comigo, quer me contratar para alguma coisa. Eu preciso saber antes do que se trata, entende? E depois, pode haver outra possibilidade em relação ao caso de sua filha.

—Como assim?

— Não lhe garanto, mas dependendo da situação, talvez eu aceite o seu caso, mas isso não quer dizer que você terá uma resposta satisfatória. Eu posso encontrar outro assassino, ou talvez, provar que foi apenas um suicídio.

—Isso não acontecerá, porque eu tenho certeza de que aquele canalha a matou! Você então aceita o caso?

Quando o homem retirou-se, Júlio elaborou um esquema dos procedimentos que teria a partir daquele dia. Não estava certo de que pegaria o caso, mas e se os outros crimes estivessem relacionados? E se Sara o havia chamado exatamente para falar sobre isso? Um dos primeiros passos, seria o que deveria ter feito desde o primeiro momento em que pisara na cidade, falar com a mulher que o chamara. Foi isso o que fez no dia seguinte.

Quando Sara Soares surgiu na porta, parecia uma mulher abatida, que o atendia apenas porque o havia chamado,mas estava muito interessada em outra coisa. Foi a impressão que Júlio tivera de Sara. Ela apresentou-se e pediu que sentasse. Perguntou se queria um café ou alguma outra bebida.

— Não, por favor, eu vim aqui porque a senhora me mandou um e-mail. Não entendi exatamente o que queria de mim. Vou lhe antecipar que sou um detetive particular, não tenho relação nenhuma com o setor policial.

— Caro detetive, eu quero a polícia longe de mim. Foi por isso que o chamei. Inclusive, por uma felicidade do destino, eu descobri que o senhor viria para cá, pois estava interessado em escrever um livro sobre a sua vida.

Júlio a olha surpreso, imaginando como ela poderia saber de seu projeto. Ela percebendo o estranhamento do homem, decide esclarecer em seguida.

— Não leve a mal, é que meu filho costuma cantar no coral da igreja, sabe. Ele tem uma amiga que também trabalha no hotel. Parece que ela comentou alguma coisa.

— A senhora fala da senhora que trabalha na portaria?

— Essa mesma. Ela també é maestrina do coral e o seu nome é Rosa. Já conversou com ela, certamente. Se não me engano, ela trabalha três noites na portaria do hotel e mais duas manhãs nos dias que sobram.

— A senhora parece bem informada sobre ela.

Sara fica em silêncio. Ajeita-se na cadeira e retira um pequeno folder com a ilustração do coral de uma apresentação passada. Mostra para ele.

— Olhe, aqui ela escreveu à caneta os seus horários no hotel para facilitar o seu encontro, quando não está na igreja. Ela era professora, sabia?

— Não, dona Sara, eu não sei nada dessa senhora. Mas me diga uma coisa, como ela poderia saber sobre os meus planos, antes de eu vir para cá?

— Não sei de nada, a bem da verdade ela comentou isso com o meu filho. Provavelmente o senhor tenha dito alguma coisa, quando reservou o quarto.

Júlio então lembrou-se que comentara alguma coisa, como escrever um livro, que morava na cidade, que boca a sua, pensara. Mas agora isso não tinha qualquer relevância. Queria saber o motivo de seu chamado.

— Não sei se deveria tê-lo chamado, Sr. Júlio, o meu filho chegará a qualquer momento. É que ele é o motivo de eu ter me comunicado consigo. Aliás, ele é motivo de minha preocupação.

— Mas então?

— Não sei se o senhor notou, mas estou muito nervosa. Meu filho é uma pessoa especial, um rapaz maravilhoso, mas anda meio problemático, sabe, isso já faz um bom tempo.

— Está bem, dona Sara, neste caso, a senhora me explique do início. Se o seu filho chegar, seremos o mais discretos possível. Quero que me esclareça porque pretendia que eu a ajudasse. Falou-me de serviços investigativos, mas não foi precisa no que queria.

— Está bem. Veja detetive, posso chamá-lo assim?

— A senhora já me chamou assim,quando cheguei e fiquei muito lisonjeado. Na verdade, estou meio enferrujado, mas ainda sou um detetive particular. O interessante, é que já me procuraram pela mesma razão.

— Sim?

— Mas, deixemos pra lá. Vamos ao que tem a me dizer, por favor.

— Quando eu mandei o e-mail, como lhe disse, houve este comentário que o senhor viria para cá. Eu já sabia de seus serviços como advogado e detetive. Não foi difícil fazer uma pequena pesquisa no google.

— Por isso me procurou. Mas qual é o motivo?

— Como lhe disse, eu estava muito preocupada com meu filho. Ele tinha uma namorada chamada Susi, com quem viveu por mais de dois anos, bem esta moça o abandonou e ele ficou muito depressivo, fazendo umas bobagens, inventando coisas meio absurdas.

— Não entendi como poderia ajudá-lo. A menos que estas bobagens a que a senhora se refere sejam atos ilícitos, contra a lei.

— Não, nada disso. Meu filho é um excelente rapaz. Eu me refiro ao fato de ele contar histórias que não condizem com a realidade. Ele falou que tentaram matá-lo.

— E como aconteceu isso?

— Bem, é uma história meio fantasiosa. Mas eu lhe explico em detalhes mais tarde. O problema, que junto a tudo isso, estão ocorrendo fatos extraordinários na cidade. Houve alguns assassinatos, não sei se o senhor soube.

— Sim, em maioria arquivados, com excessão do último, da filha do farmacêutico que dizem foi assassinada. Não há uma certeza absoluta.

— Eu soube do caso da filha do Seu Jairo, sim. Foi terrível.

— Mas a senhora me mandou o e-mail antes. Tem a ver com os crimes?

— Meu filho tem algumas suspeitas, mas eu não concordo com ele.

— Acho que preciso conversar com o seu filho.

Sara calou-se, ainda mais ansiosa. A respiração sôfrega, um ar de arrependimento pelo que falara. Por fim, concluiu: — Eu mandei o e-mail porque estou assustada sim, com o que está acontecendo. Mas é que tenho uma pessoa suspeita.

— A senhora se refere ao médico?

— O doutor Ricardo? Imagine, ele é um homem decente. Um ótimo médico. Quando chegou na cidade, eu até gostaria que morasse aqui, até arranjar um lugar para ficar, mas ele foi resistente. Acabou ficando no hotel mesmo. acho que fizeram um acerto com ele, como um aluguel, entende? O coitado não achou nenhum apartamento que servisse até agora.

— Ouvi comentários de que o acusam do assassinato da moça.

— Esta gente fala o que não sabe. Todo mundo aqui fala de todo mundo. São um bando de bisbilhoteiros, uma gente que não tem o que fazer! Só porque ele namorou a moça, inventaram esta história. Aliás, nem sei se ele teve algum envolvimento com ela, na verdade.

— Parece que a senhora está bem inteirada dos assuntos.

— Aqui, a gente fica sabendo de tudo, meu amigo.

— Me diga então, de quem a senhora suspeita?

— Eu deveria falar com a polícia, mas não tenho provas, é só uma intuição. De todo modo, o que vou lhe dizer tem que ficar entre nós, não quero me envolver com esta gente! Tenho medo que alguma coisa me aconteça, entende?

— Sem dúvidas. Sigilo total.

— E depois, eu tentei falar com o senhor, principalmente, porque meu filho está neste coral há algum tempo, e sempre foi humilhado por esta mulher. Eu juntei as coisas e fiquei me perguntando se ela não teria alguma ligação com os crimes, não digo todos, mas os que se referem aos turistas… e agora, pensando bem, até mesmo em relação à jovem que morreu.

— De quem a senhora está falando?

— Da mulher que conversamos ainda há pouco: de Rosa, a maestrina. A mesma mulher que trabalha no hotel onde o senhor está hospedado. A mesma que comentou sobre a sua vinda para cá. É sobre ela que me refiro. A mulher que tem interesse no meu filho.

Fonte da ilustração: https://pixabay.com/pt/inspetor-homem-detetive-masculino-160143/

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