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UM CRIME NA CIDADE QUE SABIA DEMAIS - 1º CAPÍTULO

A PARTIR DE HOJE, TODAS AS TERÇAS E QUINTAS-FEIRAS PUBLICAREMOS UM CAPÍTULO DA HISTÓRIA POLICIAL "UM CRIME NA CIDADE QUE SABIA DEMAIS". ESTE SERÁ O NOSSO FOLHETIM. AQUI O PRIMEIRO CAPÍTULO. ESPERO QUE GOSTEM.

Talvez não fosse o momento adequado para Rosa participar da reunião pela formação do novo coral da igreja. Estava decepcionada com o andamento das coisas. Nem mesmo Pe. João parecia muito entusiasmado com a ideia.

Estavam tão acostumados com os velhos munícipes que a chegada do pessoal da nova hidrelétrica parecia um tanto incomum.

Eram pessoas diferentes, tinham hábitos estranhos que não condiziam com os aceitos pela comunidade.

Na verdade, a maestrina Rosa sabia que se tratava de puro preconceito.

Aquela cidade pequena e conservadora não aceitava nada que destoasse de seus princípios. Só uma coisa a deixava feliz, a presença de Raul, um membro não participante dos cultos religiosos, mas que se tornava a cada dia mais integrado ao grupo. Era simpático, sempre pronto a apreender os acordes novos, as diferentes nuances das músicas e aceitar presumíveis críticas. Era, além de tudo, muito entusiasmado com a nova tarefa que abraçara.

Rosa tinha certa atração por ele. Não propriamente uma atração física, mas um afeto que a despertava de algum modo mais vibrante do que com os demais.

Nem sabia muito bem o motivo, talvez pela maneira carente com que se comportava, sentindo-se sempre sozinho desde que a mulher o abandonara há dois anos.

Provavelmente suas manifestações fossem muito sinceras, o que chamava a atenção de Rosa e de alguns outros representantes do coral.

Havia outros três novos integrantes, de outras paragens, que não eram muito bem aceitos.

Rosa pensava o quanto os seus colegas de coral eram cabeça dura.

Afinal, preocupavam-se com a falta de novos participantes no grupo e agora que surgiram interessados, alguns faziam cara feia.

De todo modo, tomaria uma atitude. Marcaria uma reunião para esta noite e exigiria a presença de todos.

Deixou a escola onde dava aula por longos 15 anos, comprou ração para o seu velho labrador que a acompanhava há tanto tempo, passou pela biblioteca pública para tirar cópias de uns jornais históricos da cidade, pois fazia uma pesquisa da música através do tempo, na sua cidade natal e voltava para casa.

Já passavam das sete da noite, estava esfriando e a escuridão tomava conta da rua.

As árvores pareciam esfinges estranhas enfeitando as calçadas. De repente, aquele caminho que costumava a fazer durante tantos anos, parecia mais longo e meio assustador. Sentia um certo temor como se alguém estivesse à espreita, esperando-a para atacá-la.

Sabia que era só uma impressão absurda, mas mesmo com esta certeza, sentia-se insegura.

Por sorte, não estava tão longe de casa e quando se deu conta, já podia atravessar a rua e entrar rapidamente no velho portão de ferro.

Percorreu a calçada estreita de lajotas irregulares, abriu a porta e olhou em torno. Nada havia de estranho, a não ser a mesma decoração despojada, que não passa de uns quadros de pintores locais e a sala com móveis tão gastos que pareciam do século passado.

Uma cortina pesada pendia do teto com um pé direito exagerado, denotando a arquitetura antiga da casa. A janela de postigos de madeira, pintados de verde e as vidraças coloridas compunham o ambiente um pouco descompassado. No canto da sala, uma mesa de mosaico. Nada mais a não ser um piano antigo e uma estante com livros, estranhamente fora do lugar. Não parecia uma sala de visitas, talvez uma biblioteca ou um gabinete de música ou de estudos.

Talvez fosse tudo isso. Ligou o interruptor, deu alguns passos atravessando outra pequena sala, com uma tv e algumas poltronas, quase vazia, a não ser um porta-revistas e um velho abajur perto da poltrona. Na poltrona, um notebook preso a uma tomada na parede recarregando a bateria. Numa mesinha de aproximação, os óculos esquecidos, talvez à espera de alguma leitura ou da próxima pesquisa no controle remoto da tv.

Olhou em torno, como se quisesse se certificar que tudo estava em ordem.

Rosa era meticulosa, burocrática. Deixou uma pasta com partituras sobre a mesinha. Afastou-se de vez em direção à cozinha.

Espiou pela janela que dava na pequena área e teve um sobressalto, com a sensação de que seu cão estivesse morto.

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