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PÁSSARO INCAUTO NA JANELA - CAPÍTULO XXI - PENÚLTIMO

A SEGUIR (17/03/2016) O 21º CAPÍTULO DO NOSSO FOLHETIM RASGADO "PÁSSARO INCAUTO NA JANELA". ESTE É O PENÚLTIMO CAPÍTULO. NA PRÓXIMA TERÇA-FEIRA, DIA 22/03/2016, APRESENTAREMOS O ÚLTIMO CAPÍTULO DE NOSSA HISTÓRIA.

Capítulo 21


Fonte da ilustração: Blog "Vientos del Brasil"http://blogs.elpais.com/vientos-de-brasil/2013/10/ de Juan Arias

Não se pode afirmar que tudo transcorre na rotina, que um dia sobrepõe ao outro naturalmente, sem que nada de novo aconteça.

Sempre que olho na janela, ainda vejo resquícios do dia anterior, ou das noites que passaram insólitas sem me trazer nada de bom, as não ser as dores habituais nas costas, na alma, no coração. Talvez Susana seja condenada, não por ter realizado a eutanásia, mas por homicídio, tudo porque uma testemunha a viu abreviar a vida do pai. Estes casos não chegam à justiça, porque o médico age a pedido do doente ou dos seus parentes, se incapacitado para tomar alguma decisão sobre a sua vida. Talvez este seja o primeiro registro de alguém condenado por eutanásia no Brasil e eu não pude fazer nada para ajudá-la.

Não adiantaria ceder às chantagens de Roberta Célia, porque ela teria sempre este trunfo nas mãos, para viver eternamente acusando-a.

Não, o melhor seria enfrentar a situação. Ela precisava recuperar o passado, exorcizar de sua vida o peso da culpa e do remorso, mais em função da sociedade do que de seu espírito. Enquanto a justiça elabora o processo, seu advogado encontrou um atenuante, visto que o destino inexorável, também lhe reservou pequenas brechas para a salvação.

Após voltar de uma entrevista, cumprindo a pauta de jornalista, deixara o gravador ligado, sem jamais imaginar que registraria para sempre o último pedido de seu pai.

A justiça, às vezes, se dá, por caminhos estranhos.

Eu estou só, ainda na minha janela, não tenho o velho para espionar, nem pessoas interessantes surgiram para que tivesse um novo cenário para passar o tempo.

Entretanto, se por um lado, estou tranquila, porque não estou tão solitária, por outro, sinto-me atingida por extrema angústia, por ter ficado ausente ao clamor dos que lutavam na ditadura, quando Jaime era uma voz urgente na imprensa, quando se reunia a grupos para travar lutas que denunciavam os desmandos que ocorriam no País.

Esta angústia hoje me consome, porque desperdicei a oportunidade de me envolver, de tomar uma atitude ativista. Ao contrário, me exilei da história, me omiti entre os combatentes do regime, me acovardei.

Quando Jaime foi até Serra Pelada e fez aquela matéria que incomodou tantos os militares, eu não me rebelei, não fiquei inteira do seu lado. Ao contrário, me insurgi contra ele, achei que estava se envolvendo em seara alheia, que não devia se meter em política. Mas eu também fazia política, só que do lado contrário, apoiando de certa forma a tese do regime vigente. É o que pretendiam, alienar a população, execrar qualquer opinião contrária, subjugar as ideias. Eu me omiti. Ficou-me este soco no estômago, este vazio, esta vontade de gritar, de dizer-lhe porque me intimidei, porque não fui até os quartéis, porque não o procurei em desespero.

Talvez por isso, eu resista tanto em expor a sua história, em mostrar o seu engajamento contra a repressão, a sua ousadia, o seu heroísmo. Talvez, eu somente me importe comigo mesma, porque sei que a vida dele é muito mais valorosa, muito mais digna, muito mais interessante e exemplar, para ser contada. Tudo, porque lutou e foi um homem amoroso com o seu país, com a sua pátria. Não queria entregá-la de mão beijada nas mãos dos torturadores, dos usurpadores da vida brasileira, dos queriam transformá-la num reduto onde poucos tinham privilégios e o povo se alienava empanturrando-se de futebol, carnaval e a falsa integração nacional.

Sinto o grito na garganta, o grito que não dei, a marca que não deixei, o gosto amargo que engoli.

Sinto-me fraca e triste.

E quanto mais ele se sobressaía na sua fortaleza, menor eu me tornava.

Agora, não mais importa. Alicerçava a minha dor na perda de meu filho, no ódio de minha nora, na indiferença de meus irmãos, na irritação com Dulcina, no cuidado com o velho do apartamento da frente, na dificuldade de meu passado, na insônia interminável.

Agora eu sei que somente queria esquecer o passado que negligenciei neste longos anos de pesado arbítrio.

Eu nunca levantei bandeira, nunca o segui, nunca o apoiei o meu marido na atividade política.

Ao contrário, me acomodei na minha profissão, transformando o pranto de tantas Marias e tantos Jaimes, lá fora, em notas musicais no meu piano. E, infelizmente, eu tinha conhecimento de episódios terríveis, sangrentos, em que o cidadão comum era apontado como um pulha, um homem de segunda categoria, que não deveria sequer ser ouvido. O que na verdade valia, era a força, a exceção, o arbítrio, o poder autoritário.

Todos se acovardaram. Todos temeram por suas vidas, sua estabilidade, seu canto. Ele, entretanto, lutou como pôde, até morrer. Até ser preso, torturado, transformado num ser desfigurado, sem pensamentos, sem linguagem, sem opinião, sem atitude, sem vida. Podaram-lhe a liberdade, quando o impediram de escrever, quando o impediram de transmudar em realidade o que via pelas lentes obscuras da censura.

Ainda há esta ferida aberta, que não cicatriza, enquanto o processo político sofrido pelo País nos anos de chumbo não for devidamente aprofundado, para mostrar às futuras gerações, a nossa história real, sem o dourar conciliador e cínico da grande mídia.

Ainda me pergunto e me questiono, o que realmente aconteceu com Jaime, enquanto centenas de mulheres deste País devem se fazer as mesmas perguntas, a cerca de seus maridos, seus amantes, seus filhos. Elas talvez tenham tido a dignidade de gritar também naqueles dias cinzas e nublados. Eu apenas conservei os meus dias de luz.

Ainda bem que acordei em tempo para ajudar Susana a escrever o livro. Ninguém mais tomará o lugar de Jaime.

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