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PÁSSARO INCAUTO NA JANELA - CAPÍTULO XVIII

NESTA QUARTA, PUBLICAMOS O 18º CAPÍTULO DE NOSSO FOLHETIM RASGADO, UM CAPÍTULO ESPECIAL ONDE AS DORES E ALEGRIAS DAS MULHERES SE REVELAM. UMA TRAMA EM QUE A PROTAGONISTA É A MULHER, QUALQUER QUE SEJA A SUA ONDIÇÃO SOCIAL. NA QUINTA VOLTAMOS COM OS CAPÍTULOS NORMAIS.

Capítulo 18

Sinto a alma confrangida. As pernas bambas, pesadas, e nestes poucos passos que dou, me afastando do quarto, tenho a impressão que carrego um fardo insuportável. Sentar nesta poltrona da sala de estar, me iludindo que nada mudou, que o mundo gira na mesma posição, que tudo está como antes... talvez seja isso que procuro. Apenas esticar minhas pernas no pufe e esquecer... esquecer... Esquecer que existe um vazio tão grande lá fora. Que além da minha janela, não há nada. Apenas um quarto vazio, um luto fechado que temo enfrentar.

Sabe Rita, quando papai se foi, Carlos não apareceu. Não sei se foi por covardia, ou porque estava feliz demais nos países árabes para mergulhar na triste realidade de nosso mundo. Carmem chorava muito, exageradamente, ao lado do caixão, aberto, sobre a mesa da sala de estar. Todos rodeavam o esquife. Às vezes, ela encostava a cabeça no corpo de papai e ficava ali, alguns minutos, desfrutando a dor que parecia ser só dela. Eu andava às voltas com mamãe. Ela não se permitia depender de nós, temia mostrar-se fraca, declarar seu sentimento, extravasar a sua dor. Ao contrário, isolava-se nos cantos, fingindo que as coisas ainda estavam no seu controle. Quando a deixei por alguns segundos, para trazer-lhe um chá, ela me seguiu até a cozinha. Segurou-me o braço e encarou-me com seus olhos castanhos, afundando nas olheiras de sofrimento. Voltei-me, ansiosa, ainda com a chaleira de água quente na mão. Ela exigiu que a largasse sobre o fogão. Aquilo não tinha a menor importância. Perguntou incisiva: – por que o Carlos não veio?

Tentei explicar-lhe o que não tinha sentido, falar-lhe o que não sabia, revelar o que meu coração doído escondia.

Não foi possível. Ela soltou-me o braço, voltou-se para a janela da cozinha, como se devesse afrontar o sol fraco de inverno que invadia o ambiente. Que fazia aquele sol injusto num dia de pura escuridão? Que forças da natureza eram mais persistentes e vorazes do que a dor que sentia? Que poder ocultavam em suas entranhas, contra o qual não podia lutar?

Abaixou os olhos, voltou-se bruscamente, aproximou-se de mim, como se me culpasse. Gritou exasperada: – por que ele não quis enterrar o seu pai? Por que ele o abandonou assim? Maldito! Que não volte nunca mais a esta casa!

–Não fale assim, mamãe. Deve ter seus motivos. Está muito longe.

Ela franziu a boca enrugada. Apertou os olhos com ódio e quando os abriu, havia uma luminosidade fria, um luar engessado. Pediu que esquecesse o chá e completou: –venha, vamos enterrar seu pai.

–Mamãe, ainda faltam duas horas.

–Chega de cinema. Já foi tempo suficiente para exposição!

Eu a segui sem coragem de refutar. Aquele corredor que nos levava até a sala era interminável. Léguas de distância, em que apenas conseguia observar seus sapatos pisando firmes no piso encerado. Não conseguia abrir a boca, a respiração curta, difícil. Não chorava, porque havia um sofrimento mais intenso do que simplesmente a morte, que nos unia naquele momento. No final do corredor, percebi que seus pés falsearam e aproximei-me, tocando-lhe no ombro. Era o único apoio que parecia tolerar.

Na sala, Carmem correu ao nosso encontro. Ela se desvencilhou de nós e foi sentar-se numa das poltronas que lhe foram imediatamente cedidas pelas pessoas que as ocupavam.

–Que está acontecendo, Úrsula?

Fitei minha irmã, como se não a reconhecesse. Vinha de um mundo distante, talvez aquele do sol fraco que batia na mesa e aquecia os copos. Deixei-a ali, parada, tentando dizer alguma coisa. Dirigi-me aos agentes funerários e repassei as ordens de minha mãe.

–E ele voltou um dia?

Úrsula deu um salto, atordoada. De repente, sucumbia num emaranhado de sons e pensamentos do passado que se relacionavam de maneira inusitada. Os ecos de tempos idos se tornavam reais, extraordinários, próximos, tão íntimos que receava se distanciar da realidade, partindo para o desconhecido. Seu coração oscilou intrigado, dentro do peito. Sentiu uma leve fisgada na cabeça e o suor escorreu rapidamente pelas têmporas. Deixou-se ficar aterrada na poltrona, como se desandasse numa montanha de entulhos, mergulhando no nada, uma mistura de lama e pedra, como se a casa ruísse literalmente. Não mais existiam as janelas, os parapeitos onde descansava seus braços, a sacada onde levantava a ponta dos pés para espiar mais longe e uma imensa cratera se formava, destruindo o cenário de suas observações. A luneta se quebrara e todo o seu passado se destruía, não deixando registros. Tentou falar, mas a voz não saía e por certo, seu coração pararia de funcionar a qualquer momento. Um pesadelo terrível que a mantinha apavorada, num canto qualquer da casa para ser soterrada para sempre e ninguém jamais procuraria por ela. Mas a voz do passado insistiu, invadindo a penumbra da sala. Temeu por fim, que Rita finalmente, ali, presente, lhe fizesse perguntas e lhe trouxesse respostas. Tentou levantar-se, as pernas trêmulas, joelhos batendo involuntários. Não ficou mais do que um minuto em pé. Afundou novamente na poltrona, deixando cair os braços inertes, pensando haver morrido. Mas seus olhos estavam muito abertos e assustados. Quando pôde e nem sabe quando, perguntou com a voz trêmula, os lábios secos, esbranquiçados.
¬

–Quem está aí?

–Sou eu, dona Úrsula. Se esquece que eu trabalho nesta casa?

Modo contínuo, um lampejo de raiva a invadiu. A voz metálica e ao mesmo tempo grave de Dulcina, o falar sem bom senso a deixa perturbada e confusa. A dor de cabeça ficou mais intensa e as mãos agora suaram em profusão. Forçou os olhos claros na penumbra, franzindo o cenho. Respirou fundo, aprumou-se na cadeira e sua atitude seria a de esbofetear a empregada. Mas não tinha energia para mover mais do que o cotovelo que se acomodava no ajeitar do corpo. Sua voz soou esganiçada, sem tonalidade, sem freio.

–Que está fazendo aqui, sua desaforada? Por que não foi para a sua casa?

Dulcina, ao contrário de temer qualquer represália, aproxima-se. Não parece irritada com a patroa. Na verdade, não lhe dá muito crédito. Acha que tudo que expressa em relação a ela, não passa de pura rabugice. Percebe, no entanto, que ela está fragilizada e tomada por uma grande tristeza. Sem importar-se com os resmungos, senta-se na poltrona ao lado.

Úrsula apenas observa a sala iluminada pelas luzes da rua. Talvez finja para si mesma que está sozinha no aposento. Mas logo, parece recuperar-se do susto e pergunta no tom habitual, de censura.

–Por que ficou no escuro, pra me espionar?

Dulcina não responde. Seus lábios mal pronunciam alguma coisa inaudível, porque tem muito a dizer. Os cabelos alisados, caem-lhe na testa, mas uma pequena protuberância dos fios os deixam levantados na raiz, em virtude do fatal crescimento. Na boca, um batom rosa claro, que não combina com a cútis morena. Os braços caem pesados sobre o as pernas que se apoiam na calça legging prata. Suas ideias estão muito claras, tão límpidas quanto o rio que passava perto da pequena estância no qual o pai era caseiro. Costumava tomar banho no rio junto aos irmãos, um poderio maciço de meninos que se acumulavam ano a ano. Durou pouco tempo, aquele cenário de paz, pois o pai um dia embirrou que iria para a cidade, que caseiro não era vida pra homem de cidade e acabaram todos morando na favela.

Úrsula vira a cabeça para o lado, evitando olhá-la. Desconfia que Dulcina pretende alguma coisa, como um cão que se aquerencia procurando agrado. Sabe o quanto é atrevida e despudorada, além de não respeitar a sua individualidade.

Dulcina intúi os pensamentos da patroa.

–Sei que a senhora não ta pra conversa, hoje.

Ursula responde sem mudar a posição. Vez que outra, arrisca um olhar oblíquo. Pode haver ainda surpresas maiores nas reações de Dulcina? Mesmo assim, a conclusão é seca.

–Ainda bem que você percebe isso. Então chispa daqui.

–Ei, pega leve, patroa. Não me trata assim, que não sou mulher de brigada. Além disso, o tempo dos escravos já passou.

–E você já passou dos limites. O que quer aqui, Dulcina? – pergunta mastigando as palavras com ansiedade, desta vez, encarando-a.

Dulcina sorri, complacente.

–Tá melhorando, já até falou o meu nome.

–E como queria que a chamasse? De amiga?

Dulcina finge não entender a ironia. Espicha um pouco o pescoço, arregala ainda mais os olhos e despacha, com voz chorosa: – é que a senhora tava falando tão bonito, que até pensei que era comigo.

–Com você? Você está louca? Não se dê a estes desfrutes!

–Eu sei, era com a tal de Rita. Sei que a senhora gosta mais de um quadro do que de mim. Mas é que eu pensei... Tem muita coisa é parecida nesta vida de Deus e por incrível que pareça, aconteceu uma coisa muito igual comigo.

Úrsula levanta-se com esforço, apoiando as mãos nos braços da poltrona. Afasta-se devagar, pensativa. Dirige-se à janela e descansa, como de hábito, os cotovelos no parapeito. Olha para a rua deserta, apenas luzes fracas de uma noite que avança sem pedir licença. Fica intrigada com as palavras de Dulcina. Não admite ousadias, muito menos intimidades, mas é impossível não surpreender-se. Pela primeira vez na vida, ela se mostrava melancólica, sofrendo tal como ela.

Observou que as janelas do apartamento da frente estavam fechadas. Nem um rasgo de luz, um fiapo de esperança. Levantou a cabeça para o alto, tentou ver o céu, as estrelas, mas apenas colunas de concreto pontilhadas de infinitas luzes artificiais se desenhavam, lá no alto. Então, falou quase para si mesma.

–Você sabia que eu nunca durmo, Dulcina? Você que parece saber de tudo, nunca se deu conta que fico na minha janela, dias e noites, noites eternas, observando a vida dos outros.

–Eu não sabia dona Úrsula.

–Você sabia que eu perdi um filho, quando ele tinha apenas trinta anos? Você sabia em que circunstancias ele morreu?

Dulcina abre a boca, como se estivesse na sala de aula e fosse pega desprevenida. Aquela lição não estava na sua grade de estudos. Tentou falar um “mais ou menos”, mas aquietou-se, temerosa. Balbuciou qualquer bobagem, logo abafada pela voz de Úrsula.

–Você sabia que fui muito amada por um grande homem, um jornalista, que também morreu, que me deixou aqui, sozinha? A vida tem sido dura comigo, Dulcina.

Ah isso ela sabia, mas não teve tempo de responder. A outra prosseguiu, enfática.

–Você sabe de onde vim agora? Do enterro do amante do meu irmão, não é hilário? E você sabe quem era ele? Não isso, você não sabe Dulcina. Você não sabe nada da minha vida e vem me falar que converso com um quadro. Quem é você para me chamar de louca?

Uma pequena pausa e Dulcina desabafou, rapidamente.

–Eu sei, dona Úrsula, não se preocupe. Coisa de gente rica. Sei que a tal Rita é sua amiga há muito tempo, que nem a mulher do tal escritor que tinha o seu nome. Do tal Gabriel Marques. E eu, já fui uma atriz.

–Não, você não foi, Dulcina. Existiu uma grande atriz com o seu nome.

–Mas poderia ter sido.

Úrsula se cala. Se tivesse um cigarro, talvez fumasse tal como a Rita Hayworth no seu Gilda. Não se afasta da janela, sente-se presa, como se as pernas pesassem ao solo. Talvez necessite daquele anteparo, para não olhar diretamente para Dulcina ou para esquecer que existia alguém no apartamento da frente. Uma lágrima insiste em correr, lembrando-lhe Enrico Caruso. Se pudesse, também ouvira a furtiva lacrima e choraria de vez. Extravasaria todo o sentimento contido. Toda a dor encolhida no peito.

Dulcina a observa na luz da rua. Sabe que a patroa está angustiada e precisa dela tanto quanto ela, naquele momento. Por isso, insiste no assunto.

–Quando a senhora falava na morte da sua mãe, eu me senti ali, na sua pele, tentando segurar as pontas, juntando a raiva de saber que o irmão não vinha e a aflição para amparar a sua mãe, sem demonstrar o que estava sentindo.

–Eu não disse que estava com raiva.

–E precisa, dona Úrsula? Então não lhe conheço? E não é de hoje! Claro que naquela época, eu nem sabia que a senhora existia – e sorrindo com os dois dentes centrais mais salientes – aliás, eu nem era nascida. Mas e a sua irmã, hem, era meio fingida. Deu pra ver direitinho, como num filme.

– Dulcina, se eu quisesse contar tudo isso a você, a teria chamado até aqui. Não quero repisar este assunto.

–Eu sei, eu sei. A senhora prefere a Rita, porque ela não responde. Coitada, só ouve, mas não pense que ela é melhor do que eu. Se eu sou atrevida, como a senhora diz, ela deve ser muito pior. Dá pra ver o olhar abusado que ela encara as pessoas. Parece mulher da vida!

Úrsula continua na janela e sem voltar-se, pede a Dulcina um copo de água. Aproveita a saída e encaminha-se com dificuldade para a poltrona onde estava. Com a mão ainda trêmula, liga o abajur próximo à mesa, ao lado e pega um livro. Folheia-o devagar e quando Dulcina surge com o copo numa bandeja, finge não perceber sua presença. A empregada descansa o copo ao seu lado, ali mesmo na mesa, pedindo que tome. Permanece humildemente, em pé e observa que a patroa a obedece, sorvendo o líquido em poucos goles.

Úrsula a fita demoradamente. Talvez a luz do abajur ratifique de uma vez por todas, de que se trata realmente daquela atrevida da Dulcina que está ali, interpelando-a. Com o tom de voz mais suave, convida-a a sentar-se ao seu lado. Dulcina não se faz de rogada. Puxa, desajeitada, as calças nas cochas, que sungadas, elevam-se na cintura, sentando-se em seguida.

–Dulcina, você está com algum problema?

–Sabe, dona Úrsula, to. Mas quem não tem, né?

–Isto é verdade.

–Mas eu lembrei da minha mãe, quando morreu, os oito filhos, todos na volta do caixão. Oito, na verdade, foram os que sobraram. Depois que o pai desertou da estância e a gente parou na rua da amargura, o mais que ele soube fazer foi filho e beber cachaça. Uma carreira, uns de 9, 10, até de 3. Eu era a mais velha. Já tinha 16. O que a minha mãe ganhou foi um caixão vagabundo doado pela prefeitura. A madeira era tão fraca que parecia de caixa de maçã, sabe? Não tinha nem cor. Se algum desavisado, os primos que estavam sempre correndo, de lá pra cá, esbarrassem nele, era capaz de se espatifar.

–Meu Deus, isso é possível?

–A senhora não sabia? Quem não tem dinheiro, recebe da prefeitura e não tem como velar. Fica pouco tempo e logo vai pro cemitério. Nós fomos todos juntos, no ônibus cor de alumínio. Era um ônibus velho, caindo aos pedaços. Nós sentados na volta e o caixão no meio, entre os bancos.

–E seu pai?

– O velho bebia, naquele dia, tava enfiado no barril. Por isso, sofri essa mesma sensação que a senhora teve. Tive muita raiva dele.

–Ele não compareceu?

–Não, quando ele chegou torto que nem vara verde, já tinham enterrado a coitada. Então eu corri ele de casa.

–E depois?

–Naquela noite, não aguentei. Tinha que tomá uma atitude. Depois, tudo voltou ao normal. Eu trabalhava numa lancheria pra sustentar os irmãos.

– E ele?

–Ele também não aguentou o tranco. Um dia, desapareceu com uma dona. Nunca mais voltou.

–Eu fiz você lembrar de tudo isso, Dulcina? Me desculpe.

–Não se desculpa, não, dona Úrsula. Foi bom. A senhora fala de um jeito diferente. Eu não sei usar as mesmas palavras. Às vezes, sai uma merda.

– Dá tudo no mesmo. A vida, às vezes é uma merda, Dulcina.

–A senhora tem cada uma. Com é que pode, uma mulher do seu nível, inteligente, que toca piano, falar palavrão.

Úrsula não se ocupa da faísca que vê nos olhos de Dulcina. Relaciona com cuidado o que ouve e acrescenta: – mas se você lembrou tudo isso, é que tem um motivo especial.

Dulcina se cala alguns segundos. Respira fundo, sabe que não tem saída, deve seguir em frente.

– É que to na pior. O negão pirou – gira a mão fechada em punho no olho direito, mais coçando um prurido do que escondendo uma lágrima.

– Como assim, o seu namorado?

– É, namorido, a senhora sabe – despacha rápido, ágil – ele já tava usando umas pesadas. Exagerou na dose. Andou vendendo os meus móveis, até a TV que comprei na liquidação. Eu suportei o que pude. Mas agora, delatei pra policia. Foi parar no hospício.

–Ah, e não é perigoso pra você?

–Tudo nesta vida é perigoso, dona Úrsula.

–Você tem razão, Dulcina.

Dulcina levanta-se e passeia à vontade pela sala, seguida pelo olhar da patroa. Examina demorada, a figura de Rita Rayworth, como se estivesse à frente de um quadro de um pintor célebre, no museu. Em seguida, num movimento estratégico, apressa-se em falar: – dona Ursula, se eu fosse mais inteligente, mais educada, mais parecida com essa aí, a senhora ia se abrir mais comigo, não é?

–Não sei Dulcina. Acho que a gente anda em caminhos divergentes. A gente não se encontra. Mas, alguma coisa temos em comum.

– O que? – Dulcina pergunta dando uns passos miúdos, aproximando-se um pouco da poltrona. Ursula suspira, reflexiva.

–A dor da perda. A dor da mulher sozinha, da mulher que luta, da mulher que ama, que odeia. Sabe Dulcina, é uma dor pulgente, uma dor que a mulher carrega desde o berço, desde o nascimento. A mulher precisa lutar sempre para demonstrar ao mundo que é capaz, que é inteligente, que é, enfim, um ser humano. A humanidade, muitas vezes, se esquece disso.

Dulcina enche os olhos dágua. Aumenta as passadas e senta-se novamente ao lado da patroa, agora com as duas mãos fechadas em punho, uma em cada olho, amparando as lágrimas. Úrsula se aproxima e a abraça. Um afeto no rosto, uma lágrima que compensa. Dulcina ainda responde, baixinho – então é isso.

Afasta-se da patroa, levanta-se torcendo o salto no piso. Enxuga novamente os olhos na mesma atitude infantil. O vozeirão torna-se franzino, fraco.

–Eu vou deixar a senhora descansar.

Ursula antecipa-se rapidamente, quase numa súplica.

–Não, Dulcina, espere. Você não quer passar a noite aqui?

–Eu, que nem a Rita?

–Pare com esta bobagem de Rita. Você me constrange. É você sim, sim, sua boba. Eu não estou bem, você também. Pra que voltar pra casa.

Dulcina faz menção de abraçá-la novamente e ela a reprime.

–Por hoje, chega de abraços. Se como disse, você é igual a Rita, não precisa me agradecer. Eu a convidei.

–Dona Úrsula, tive uma ideia. Quem sabe, a gente melhora o nosso astral.

–Melhorar? Impossível.

Ela retira da bolsa um pequeno embrulho branco, que coloca sobre a mesa ao lado da poltrona, com cuidado. Úrsula se espanta.

–O que é isso, criatura?

Abre-o e pede que a patroa cheire.

–Você está louca? Isto é... isto é...

–Isto mesmo! A senhora já experimentou alguma vez?

–Nunca! Imagine, na minha idade. Pensa que sou louca! E depois, é uma contravenção.

–A senhora é tão engraçada, dona Ursula. Tirei do negão, ele nem se deu conta, coitado. Tava do outro lado. Mas até foi bom, os policiais não encontraram nada com ele. Também isso nem ia contá, porque a da pesada, a que leva pro outro lado, eles já tinham pego.

–Mas maconha? Você acha que vou experimentar maconha?

–E por que não?

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