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PÁSSARO INCAUTO NA JANELA - CAPÍTULOS XII E XIII

HOJE, QUINTA-FEIRA 18/02/2016, SEGUE O NOSSO FOLHETIM RASGADO "PÁSSARO INCAUTO NA JANELA" COM O 12º E 13º CAPÍTULOS. NOVAS REVELAÇÕES!

Capítulo 12

Susana aguarda o elevador em seu andar. Está prestes a entrar, mas é impedida pela voz urgente, quando a porta se abre. A mulher a impede de entrar, praticamente suplicando em falar-lhe. Ela tenta entender o que está acontecendo, sem dar muita importância à situação. Está preocupada com o horário, segurando a bolsa numa mão e uma série de documentos numa pasta azul. Na outra mão, digita no celular, tentando conseguir algum estagiário para o trabalho em campo. Detém, ao ouvir o seu nome. A mulher é magra e alta, cabelo vermelho, curto, aparentando quarenta anos.

_Susana? Você é Susana Medeiros?

O zelador que subia a escada, antecipa-se ao diálogo, esclarecendo que ela a havia procurado e não pudera impedir. Tentara explicar-lhe que daria o recado, mas a coisa parecia séria.

_Não se preocupe, João. Está tudo certo – e voltando-se para a mulher, a interroga sobre a gravidade do assunto, já que está em saída para o serviço. Esta, mostra-se decidida.

_Desculpe-me, mas precisei investigar onde morava. Não foi difícil, a senhora é uma jornalista bem conhecida. Se me der alguns minutos, eu agradecerei eternamente.

_A senhora quer falar sobre alguma coluna do jornal?

_Não, na verdade, trata-se de outro assunto. Eu não sei a quem recorrer, sabe. Aliás, não tenho muitos conhecidos influentes. Mas talvez a senhora possa me ajudar. Eu sei que você está fazendo uma entrevista com... – interrompe-se, enigmática – com Dona Úrsula.

_Sim, mas não entendo em quê possa ajudá-la. Dona Úrsula é a viúva de um jornalista, a fonte mais adequada para a biografia que pretendo fazer. O que a trouxe aqui, realmente?

_Eu sei, ela era mulher de um jornalista famoso. Foi até preso na época da ditadura. Ele fez uma reportagem na serra pelada, criticando aquele comércio e foi crucificado por isso. Mas esse acontecimento foi mais tarde, depois da prisão. Ele não se emendava.

_Pelo que parece, a senhora está muito bem informada.

_Ah, sim, sem dúvida. Sei muito sobre ele. Inclusive, se quiser, posso ajudá-la. Tenho o maior interesse, pode ter certeza.

_ Como a senhora o conheceu?

_Dona Úrsula deve falar muito no filho, não ?

_É verdade.

_Pois bem, eu sou a nora dela. A mulher do Luis Afonso.

_A das flores de plástico?

_Como assim?

_Desculpe. Uma referência, apenas. Coisa de jornalista. Como é seu nome?

_Roberta Célia. Pode chamar-me apenas de Roberta. Esses nomes compostos só atrapalham, sabe? É o caso do Luis Afonso, poucos o conheciam por Afonso. Já a velha, tinha a mania de chamá-lo por Luisinho.

_Sei. Mas então você é a viúva de Luisinho?

_Do Luis Afonso.

_Claro, me desculpe. Acostumei a chamá-lo assim, tal como Dona Úrsula.

_E também como se refere a mim?

_Como assim?

_A das flores de plástico?

_Foi um ato falho.

_Não se incomode. É assim mesmo. A velha sempre criticou as flores que levo para o túmulo do Luis Afonso. Mas olhe, se não se importa, poderíamos conversar na sua casa?

_Não me importo, de modo algum. Só que neste momento, é impossível. Estou indo direto para a redação do jornal. Tenho uma ideia, poderia ir comigo, no meu carro. Poderíamos conversar no caminho e marcamos um encontro para outra oportunidade.

_É que o jornal fica muito distante do meu caminho.

_Neste caso, marcamos outro dia?

_Se pudesse ser ainda hoje...

_Dê-me o seu n°, que eu lhe ligo, está bem assim?

Roberta Célia obedeceu, percebendo que esta seria a estratégia mais adequada. Ao cair da tarde, atendeu, animada.

Capítulo 13

Ao entrar no apartamento de Susana, porém, não demonstrava a mesma disposição. Parecia mergulhada numa espécie de contrição, de sofrimento interno, que a impedia de sentir-se à vontade. Vestia-se com simplicidade, mas bom gosto. Uma blusa cinza, com detalhes em faixas trespassadas salientando a cintura, acompanhando uma calça preta, que a deixava mais esguia. No pescoço, uma corrente de ouro, guarnecida com pingente em forma de pentágono. Observou o cenário em que se inseria, registrando rapidamente com o olhar arrebatado a estante de livros. Não que fosse muito adepta à leitura, mas interessava-lhe saber as coletâneas de crônicas organizadas pelo Jaime, inclusive as centenas escritas nos jornais, que estavam catalogadas em livros. Passeou em seguida os olhos pelo móvel no qual situavam-se algumas fotografias. Espichou o pescoço, tentando talvez encontrar a figura de algum conhecido. Todas as suas atitudes demonstravam grande curiosidade.

Susana convidou-a sentar e percebendo o interesse, comentou sobre algumas fotos. Apontou para um porta-retratos, indicando tratar-se de seu pai.

_Ah, seu pai. Um homem muito bonito, apesar da barba. Sabe, tenho uma aflição com homem de barba. Me incomoda. Mas e sua mãe, não consta nas suas fotos?

_Não. Tenho poucas fotos de minha mãe. Ela morreu muito jovem.

_Você é casada, Susana?

_Sou divorciada.

– Os casamentos hoje em dia não duram nada. A mulher se preocupa muito consigo mesma, com sua beleza, seu trabalho, suas amigas e deixa o marido de lado. Homem não gosta destas coisas.

_Você pensa assim mesmo?

_Sem dúvida, Susana, se me permite, a mulher está se excedendo em todas as áreas. Está além dos limites. Uma mulher decente deve se preocupar com o lar, com os filhos. Acho um absurdo deixar uma criança com a babá ou numa creche.

_Você tem certeza de que é deste século?

Roberta Célia detém-se, surpresa. Susana desculpa-se – desculpe, Roberta, mas pensei que estava apenas ironizando. Acha mesmo que a mulher deve só ficar em casa, cuidando dos filhos, do marido?

–Não, eu não disse isso. Seria uma idiota. Pelo contrário, acho que a mulher tem que sair, tem que badalar, ir às lojas, ao cabeleireiro, cuidar da aparência. Afinal tem que estar bonitinha quando o marido chegar do trabalho. Mas não deve se afastar das atividades sociais, das amigas sempre prontas para uma fofoquinha, você sabe, deve ter um monte assim, no seu jornal.

–Não, não. Ou melhor, deve ter sim. Sempre tem, em qualquer lugar.

–Mas você não é ligada, né? Já percebi. Você é voltada para os estudos, à pesquisa, à investigação – termina a última palavra enfatizando sílaba final, com certa censura. Reduz o tom e prossegue, entusiasmada – me diga uma coisa, Susana, mas não me leve a mal: será que não foi por isso que se separou?

Susana cala-se por um instante, aturdida.

– Deve ser, sim. Deve ser.

– Eu não disse? Aí tá o erro da mulher trabalhar fora. Veja que o seu exemplo reforça a minha tese. Mulher na rua é desperdício!

– Meus Deus, ela fala como um homem!

_Que disse?

_Roberta, você queria falar comigo sobre um assunto urgente, mas até agora, não disse a que veio. Seria melhor, começarmos, não acha?

Roberta Célia respondeu, eufórica.

_É claro, é claro. Preciso da sua ajuda. Inclusive, em casa, estive pensando, que em troca, posso ajudá-la na sua biografia. Sei de muita coisa do meu sogro.

_Sim, acho que você será muito útil.

Susana observava que Roberta Célia tinha o hábito de puxar a franja vermelha para trás num movimento continuo, parecendo ansiosa.

–Pois é, nem sei como começar. O problema todo está na cabeça dura de Dona Úrsula. Você sabe que ela tem uma casa, quer dizer, uma casa que não é só dela, é de dona Carmen, do irmão, o Carlos e minha.

_Sua?

_Sim, porque pertencia ao Luis Afonso também.

_Mas não haviam doado a ela?

_Diz ela, ninguém viu documento algum. Dona Carmem disse que foi só de boca e na ocasião em que o velho era vivo, todos concordaram. Porém, nunca corrigiram a situação, nunca registraram no cartório o consentimento de todos, entende? Eu já estive falando com um advogado a respeito. Ele foi taxativo. O Luis Afonso tem direito.

_Mas pelo pouco que sei, o irmão nem se interessa pela casa.

_É, esse nem se liga em nada. Além disso, o coitadinho ta numa fria, que dói. A barra pretiou pro lado dele.

Susana levantou-se dirigindo-se à janela, olhando de soslaio para a rua. Fingia desinteresse.

_Do que se trata?

_O namorado morreu.

_Namorado?

_É, ficou vexada? Você, uma mulher moderna, imagina a irmã e a própria Dona Úrsula! elas tentam abafar, fingem que desconhecem a viadagem do irmão, mas eu sei de tudo. O Tal Carlos tem um namorado há muito tempo. Agora o dito cujo morreu e o Carlos quer fazer o enterro aqui, na terra dele. Parece que os funerais serão ainda nesta semana. Vai trazer o corpo da Holanda.

_Mas dona Ursula não sabe de nada.

_Aquela vive alienada num mundo paralelo. Pouco liga para o irmão.

_Mas e Carmem?

_Ah, esta vem com o irmão, está dando todo o conforto a ele. Deve ter se atualizado ou pelo menos, fingindo que é apenas um amigo querido. Pelo que me contaram, ele quer a família inteira no velório do namorado, ou marido, sei lá. Mais conveniente, parceiro, não é mesmo?

_Tanto faz.

Roberta Célia faz um silêncio proposital. Com um leve suspiro, resmunga.

_Ele gosta muito de mim. Ele me quer junto – em seguida, altera a voz, agitada - será um funeral maravilhoso, estilo americano. Já alugou todos os serviços. Já pensou que luxo? Ficaremos hospedados numa mansão, com várias dependências, salas especiais com hometheater, bons quartos. Um hotel 5 estrelas. Era a vontade do amigo.

_Pobre Dona Úrsula.

_Mas o Carlos é muito rico, se deu bem no estrangeiro. Você sabe que ele trabalhou no ramo de construções na Arábia Saudita? Dizem que até mexia com petróleo. Essa gente é esperta, diversifica os empreendimentos. Diversifica até os relacionamentos, não é mesmo? – faz um gesto malicioso, escondendo a boca com a mão em concha. Logo prossegue no tom anterior - faz o que quer do dinheiro, tanto que aquela casa mixuruca nem lhe apetece.

_Então você quer que eu convença Dona Úrsula a ceder a tal casa para você.

_Pra mim, não. Para todos.

_Mas os outros não querem. Pelo que eu saiba, a irmã desistiu há muito tempo. Para ela, são águas passadas. Dona Úrsula mesma me contou.

_Pode ser, mas a minha parte tem que ser dividida. É justo, você não acha? Pra que aquela velha vai querer uma casa que nem usa? Pra pagar os remédios dela?

_Não sei, mas até para isso. Só quero lhe dizer uma coisa, Roberta Célia...

_ Por favor, só Roberta.

_Está bem, Roberta. Eu não posso me envolver nisso, por preço nenhum. Não posso trair a confiança de Dona Úrsula. Pra mim, ela é uma mulher autêntica, às vezes até severa demais, porque diz o que pensa sem meias palavras. Mas eu gosto muito dela.

Roberta Célia a analisa, examinando-a detidamente, como se quisesse mostrar que sabia alguma coisa de seu passado, de sua vida, quase uma ameaça.

_Parece que você se agarrou nela como uma tábua de salvação.

_Por que está dizendo isso? – Susana afasta-se da janela e volta a sentar-se. Segura entre os dedos, um folheto que estava sobre a mesa, na tentativa de tomar alguma atitude, como apoio.

_Você sabe.

_Não, eu não sei do que está falando.

Roberta Célia reflete um pouco, em silêncio. Abre a bolsa e tira uma carteira de cigarros, descolando o rótulo dourado, delicadamente. Retira um, levanta a cabeça observando a insegurança de Susana e faz o pedido: – sei que não é conveniente, mas posso ficar próxima à janela. Sou viciada, sabe?

_Sei o que é isso. Também fumei um dia.

Roberta Célia, que já se havia levantado, volta-se sorrindo, uma alegria infantil – é verdade? E como deixou?

_Ah, foi muito difícil. Com apoio, remédios. Mas antes de tudo, foi preciso decidir-me.

_Você tem razão. Decisão! Esta é a palavra chave – debruça-se na janela, enquanto acende o cigarro. Olha para baixo, sem nenhum interesse. Após a primeira tragada, jogando a fumaça para a rua, prossegue, contrita – eu sei que não vou conseguir. Não sou forte como você. Não tenho coragem, ousadia, força de vontade. Sou uma fracassada, sabe?

Susana sente-se importunada com o assunto, mas não tem como impedi-la. Sabe que Roberta Célia invade a sua privacidade, fazendo um jogo, do qual ela não conhece ainda o motivo. Tenta, pelo menos, mostrar-se interessada, evitando parecer ansiosa.

– Você está exagerando. Todos somos capazes de deixar o vício.

_Não. Há pessoas especiais, como você, outras são comuns, como eu.

_Se você pensar deste modo derrotista, nunca vai conseguir mesmo.

Roberta Célia dá uma última tragada e atira displicentemente o cigarro pela janela. Ensaia alguns passos em direção à Susana e teatralmente, segura-lhe as mãos.

_Que bom, Susana, que bom que quer ajudar-me. Eu sinto que você quer me passar esta força, esta vontade e lhe agradeço muito por isso!

_Ora por favor, Roberta – intervém, embaraçada - não cheguemos a tanto. Sente-se e vamos conversar. Espere, quem sabe você toma alguma coisa? Um licor, um vermute, talvez? – afasta-se, livrando-se da situação. Dirige-se a um armário antigo, com algumas bebidas.

Roberta Célia, por seu lado, revela-se muito à vontade com o diálogo.

_Se você tiver um licor de abricó, eu serei eternamente grata! Adoro, acho que é em virtude de um sabor da infância, uma coisa natural do subconsciente.

_Mas como assim? Como pode associar um sabor de licor à infância?

Roberta Célia dá uma risada exagerada, mostrando a gengiva vermelha e novamente, ajeitando o cabelo com as mãos.

_Ah, menina, não pense bobagens. Sou viciada no cigarro, mas em bebida, não.

_Eu não afirmei isso. Apenas estranhei esta sua lembrança.

Roberta Célia junta os joelhos e pousa as mãos delicadas, baixando a cabeça, mostrando-se triste. As unhas são vermelhas e longas. Raspa suave a meia de náilon.

_Na verdade, trata-se de uma mistura de emoções. Lembro de minha avó, que era de São Luís do Maranhão. Quando a visitava, tinha contato com a fruta, que ela adorava. Até costumava fazer doce de abricó, também o licor, sem dúvida. Sabe Susana, ela me pegava no colo, com suas pernas imensas, suas ancas gordas, fortes, me aninhava daquele jeito gostoso, gentil. Eu, pequenininnnnha – estica a sílaba, num sibilo de voz – ali, me ajustando naquele corpanzil, um conforto só. Ela tinha o cheiro doce, sabe daquele sabor do abricó, da fruta macia e agradável. Ah, lembranças da infância – enxuga uma lágrima com a ponta do mindinho – desculpa, não dá para evitar.

Susana procura uma bebida qualquer, tentando satisfazer a mulher e acabar de vez com o assunto. Não possui o licor de abricó e serve-lhe o primeiro que encontra.

_Se não se importa, vou lhe servir um Cointreau.

_Você só bebe coisa de primeira, heim? Dizem que este licor é um dos melhores! É feito de laranja. O Luis Afonso me explicava que a fruta não podia tocar no álcool, por um bom tempo, até desprender o seu bouquet, é assim que se diz, o aroma, não é?

_Me parece que você entende mais do que eu. Este licor ganhei de um amigo da redação.

_Você tem muitos amigos, né? É bom a gente ter amigos, sempre tem uma mão pronta a nos ajudar. Não é o meu caso. Depois que morreu o Luis Afonso, fiquei meio perdida no mundo.

Susana entregou-lhe o licor e dirigiu-se à poltrona. Ficou em silêncio, observando-a deliciar-se com a bebida. Tudo em Roberta Célia parecia desproporcional, desde os expressões dos sentimentos até os gestos triviais. Que pretendia aquela mulher na sua casa? Que troca era essa que supunha poder aceitar? Havia, no entanto, alguma coisa oculta, que não estava bem esclarecida. Resolveu então, clarear a situação.

_Bem, Susana, conversamos sobre vários assuntos, mas não está explícito o que deseja de mim. Eu sei que você quer a minha ajuda para convencer Dona Úrsula a fazer o inventário, ou desistir da casa. Mas, há algo mais. Você aludiu à dependência minha em relação à Dona Úrsula, estabeleceu-a, inclusive como uma tábua de salvação. Por quê?

_Susana! O seu licor está divino! Sabe que o Luis Afonso tinha razão? O Cointreau é melhor que o de abricó. Naturalmente, que o sabor da minha infância é que predomina no meu sentimento, mas...

_Mas chega deste assunto, Roberta Célia.

Toma o último gole, olhando nos olhos de Susana. Replica: apenas, Roberta, por favor.

_Então seja clara. O que quer de mim?

Roberta Célia larga o cálice sobre a mesa e coloca a carteira de cigarros dentro da bolsa. Volta-se para Susana e conclui: se estivesse nervosa, era o momento de pegar outro cigarro. Mas não se preocupe – antecipa-se, rápida, ante o olhar intrigado da outra – não é o caso.

_Então?

Susana funga, assoando uma inesperada alergia nasal. Silencia. Suspira fundo e encara Susana com serenidade.

_Bem, Susana, já que precisamos abrir o jogo, vou ser sincera com você.

–Estou esperando isto desde o primeiro momento – responde impaciente. A outra concorda, tranquila: eu sei. Mas há um tempo para tudo. A bíblia não diz que há um tempo para plantar e outro para colher?

–Roberta, me poupe dessas alusões à bíblia, por favor.

_Então está bem, Susana. Vou ser objetiva. Me parece que tem problemas demais. Problemas que podem evoluir para uma situação muito perigosa.

_Seja mais clara.

_Na verdade, eu só tenho você pra convencer a velha, mas você deve ter mais confiança em mim, porque sei coisas muito graves do seu passado.

Susana dá um salto da poltrona.

–Eu não tenho nada a esconder, você está louca?

–Não se desespere.

–Não estou desesperada. Estou achando tudo isso um grande absurdo, você vir na minha casa para fazer-me ameaças. O que você sabe sobre mim, afinal?

–A história triste de seu pai.

Susana sente um soco na boca do estomago, sem esboçar qualquer reação. Ensaia alguns passos, afastando-se de onde estava, juntando-se ao móvel das bebidas. Roberta Célia, ao contrário, continua na poltrona, fitando-a tranquilamente.

–Não culpo você, talvez na sua situação, eu agisse da mesma forma. Não é fácil tomar uma decisão que pode ceifar uma vida – Susana a interrompe mais uma vez, agora quase em desespero – o que você está dizendo, que história é esta? – Roberta prossegue convicta e serena – por isso, eu disse naquele momento que você era especial, que você toma as decisões com coragem, ousadia. Mas tudo tem um preço, Susana. Você deve à justiça, você sabe. Você não está limpa como todo mundo pensa. Então, eu pensei, podemos fazer uma troca. Eu não conto a ninguém o que sei e você convence a velha a dividir legalmente a casa. Quem saber doá-la em memória do Luis Afonso.

Desta vez, é Susana que mexe no cabelo, puxando-o num rabo, envolvendo-o numa única madeixa, logo desmanchando-a por completo. Volta-se para ela, os olhos congestionados, a voz rouca, insegura.

– O que você sabe?

–Tudo, minha querida, tudo.

– Não há nada contra mim. Eu não devo nada à justiça –defende-se, indecisa.

–Você tem certeza, Susana?

– O que você quer? Fazer-me chantagem, é isso? Pois saiba que não vou entrar na sua, não sou louca para entrar neste delírio.

_Se você pensa assim.

_Eu não penso assim, as coisas são assim. Sou uma mulher honesta. Quem é você para me dar lições em moral, para me ameaçar?

_Você está exagerando, amiguinha.

_Exagerando? Você quer usurpar-me, quer convencer-me a tirar os bens de outra pessoa e diz que estou exagerando?

_Você está me insultando, Susana.

_Pois estou sim. Você é uma idiota, se pensou que eu ia cair nesta sua paranoia, nesta armadilha que está tramando! E se me dá licença, saia da minha casa.

Mas Roberta Célia é fria, precisa. Joga a isca com objetivo, com certeza: se você considera uma paranoia matar o próprio pai, então...

Susana não se controla e a xinga, com ódio, correndo até ela e segurando-a pelo braço, agressiva – o que está dizendo, sua vadia?

_Me largue, não me insulte. Eu não sou vagabunda. Aliás, não sou a divorciada, cheia de amiguinhos, ganhando presentes...

Susana aplica-lhe um tapa com raiva. A outra enche os olhos de lágrimas e se afasta alguns passos, em silêncio. Tenta recuperar-se, pega a bolsa que estava estirada num canto da poltrona e retira novamente a carteira que havia guardado. Por fim, acrescenta.

– Eu fiz a minha parte. Tentei ajudá-la, certo, que queria a sua ajuda em sua contrapartida, mas você é cabeça dura, que nem a velha. Então dane-se. Você sabe onde procurar-me, se voltar atrás.

_Saia da minha casa.

_Se quiser saber detalhes, me procure. Não descobri tudo à toda. Tudo tem um motivo. É a minha chance e também a sua. Nossos destinos estão relacionados. Agora, depende de você, tocar o barco, ir à frente ou retroceder.

_Eu já pedi que saia da minha casa. Se ficar mais um minuto, vou chamar a policia.

–Isso, faça isso. Chame a policia. Quem sabe eu falo agora o que está aqui, engasgado na minha garganta, mas não quero brigar com você, pelo contrário, quero paz. Sou uma mulher de paz, da concórdia, do amor ao próximo. Não sou o que você esta pensando.

–Ah, tenho certeza de que não. É muito pior. É uma cobra cascavel.

–Que pena, Susana, como baixou o nível. Só para encerrar: eu ainda não desisti de ajudá-la. Me procure. Eu vou explicar tudo a você. Vou livrá-la deste carma, desta culpa, deste sofrimento. Sei que o que você fez foi por amor, foi o melhor para ele, coitadinho. Eu, ao contrário, não teria coragem de tirar a vida de um animal, quando mais de um ser humano, mesmo porque nunca se sabe se ele não teria alguma chance, a ciência está aí para comprovar a todo instante que as pessoas se recuperam. Mas sua alma, sua palma. – Susana digita rapidamente no celular. Roberta Célia a interrompe, aproximando-se e colocando-lhe a mão no ombro – não, por favor, não chame a policia, não se exponha. Eu vou embora. Mas tenha certeza de que vou procurá-la. Ainda seremos grandes amigas.

E afasta-se empurrando a porta com delicadeza. Susana a fita com um sentimento de impotência que atiça ainda mais o seu ódio. Quando a outra desaparece, desaba num choro convulso, em absoluto desespero. Corre ao banheiro, abre desajeitada, a porta do armário, as mãos tremulas, indecisas. Suas pernas parecem não obedecer o corpo, bamboleando no assoalho frio. Retira uma pílula de um vidro de remédios e engole em seco. Põe as mãos na cabeça por alguns segundos, olhando-se desorientada, no espelho. Depois, lava o rosto várias vezes, tentando apagar da mente a imagem absurda de Roberta Célia acusando-a. Dirige-se ao seu quarto com o celular na mão e digita o número de dona Úrsula. Não consegue evitar o choro, enquanto fala.

–Dona Úrsula, me ajude, preciso da senhora, preciso muito da senhora, por favor!

– Minha filha, que está acontecendo?

–Não posso explicar-lhe agora, por telefone. Precisamos conversar. Não tenho ninguém nesta minha vida, só a senhora.

– Então, que farei?

–Sei que não pode vir, mas não tenho condições de sair....estou muito abalada – interrompe-se, arrependida por ter envolvido a pobre velha em seu drama íntimo. Então, tenta desfazer a preocupação – espere, estou sendo egoísta, o que me aconteceu vai passar daqui a pouco, vou melhorar e logo que nos encontrarmos, eu lhe explicarei tudo. Não se preocupe comigo.

– Aconteceu alguma coisa grave? Você perdeu um ente querido?

–Não, não é nada disso.
¬

–Então eu vou aí.

– Não, a senhora não pode sair a esta hora da noite. Por favor, não. Lembra-se como é perigoso? Se for preciso, eu vou aí.

–Não seja boba, eu tomo um táxi. Não sou uma velha inútil. Só me dê o endereço, que esqueci. Se guardei na agenda, já perdi. Por favor, Susana, se quer ajudar-me também, deixe-me ir. Deixe-me ajudá-la, não pense que é só por você. É um gesto egoísta meu. Quero provar que sou útil a alguém. Por favor, deixe-me ajudá-la. Quero provar a mim mesma, que sou um ser vivo.

Susana cala-se, pensativa. Sente um ardor, uma força inexplicável na voz de dona Úrsula, que teme humilhá-la. Ela ainda insiste.

–Por favor, você acredita em mim, não? Acredita que eu sou capaz de alguma coisa?

–Está bem Dona Úrsula. Eu concordo, mas tome todo o cuidado, chame o taxista da esquina da farmácia, aquele que já a conhece.

Do outro lado da linha, ouve a voz inspirada, quase feliz de dona Úrsula.

–Pode deixar. Estamos combinadas. Eu vou até ai. Sabe que independente do seu sofrimento, você proporcionou uma certa alegria, me desculpe dizer, mas, me lembrei de Luisinho. É como se eu estivesse fazendo alguma coisa por ele, entende?

–Entendo.

–Então, vou desligar. Achei o seu endereço. Está bem aqui, na primeira página. Me espere ai, quietinha, está bem?

–Dona Úrsula...não desligue.

–O que foi?

–Quero dizer que a amo. Que a amo muito.

Úrsula sorri, emocionada. Reclama, com voz fraca – sua boba – desliga o telefone e prepara-se para sair.

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