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PÁSSARO INCAUTO NA JANELA - CAPÍTULO XIV

HOJE, TERÇA-FEIRA 22/02/2016, SEGUE O NOSSO FOLHETIM RASGADO "PÁSSARO INCAUTO NA JANELA" COM O 14º CAPÍTULO. NOVAS REVELAÇÕES!

Capítulo 14

Tenho vontade de dizer para o velho que não estou sozinha, tal como ele, que desapareceu há dias de sua janela, do seu quarto. Será que morreu? Espero que não. É mais um pra minha coleção. Cada dia, um se vai. Quando será a minha vez? Espero que demore bastante, sinto que ainda posso fazer alguma coisa, sinto que posso ajudar Susana. Essa expectativa me dá uma euforia, uma vontade de realizar coisas, um bafejo de vida. Tenho até desejo de tocar piano, como antigamente. Mas já faz tanto tempo, que nem sei se não desaprendi.

_Que terá acontecido com Susana? Por que me chamou daquela maneira? Parecia tão desorientada, a coitadinha.

_De quem tá falando, vovó?

_Ah, não importa. Estou falando sozinha. Que mania vocês tem de chamar de vovó. Eu tenho nome.

_Desculpe, não quis ofender. É que conheço a senhora há tanto tempo, quero dizer, só de pegar os seus remédios na farmácia: é remédio pra pressão, pro colesterol, pro glúten, pra diabete.

_Precisa enumerar todos? E cuida o trânsito, ta uma loucura, não ta vendo?

_Só quis lhe dizer que lhe conheço dessas coisas que faço pra senhora, por isso a chamo assim.

_Por isso mesmo, por me conhecer é que devia me chamar pelo nome. Todo mundo sabe que sou Úrsula. Primeiramente, vocês chamam de tia, tia pra cá, tia pra lá. No meu tempo, as tias eram as putas da esquina, sabia? – o motorista ri, satisfeito. Olha de soslaio para Úrsula e volta a fixar a rua. Ela continua no protesto.

Quando a gente fica mais velha, é vovó. Ora, vá pro diabo com estas manias!

_A senhora ta amarga, hoje, hem? Só porque lhe falei dos remédios.

_E você gosta que eu fale que toma Viagra?

_Quem lhe disse isso? A senhora pirou? – freia o carro, destemperado. Os bigodes muito pretos, as entradas separando fiapos de cabelos, suando. Os olhos arregalados.

Ela sorri, vingada. Continua, irônica.

_Eu não pirei. Quem pirou foi o... o vizinho, ai.

_A senhora é muito abusada. Eu não preciso destas coisas – responde, retomando o caminho.

_É mesmo? Não é o que minha fonte me falou.

_E quem lhe falou?

_Nem sob tortura lhe digo – ainda esboça um sorriso sorrateiro. Ele exclama, irritado.

_Diabos, essa gente não tem o que fazer, se não ficar fuxicando a vida dos outros.

Úrsula volta-se para a vidraça do carro, examinando as pessoas na calçada que agora lhe parecem tão parecidas com ela, ocupadas com sua própria vida. Faz-se silêncio. Ela é a primeira a falar – toca o carro, rapaz. Deixa de bobagem.

Após descer do veículo, Úrsula olha em direção à janela do apartamento de Susana. Está entreaberta, as cortinas produzindo movimento. Esquiva-se do frio, aproximando-se rapidamente do prédio, até atingir o elevador. Ajeita-se olhando-se no espelho. Puxa a gola do casaco, arruma os cabelos e examina-se por um segundo, observando os olhos que lhe parecem um tanto fechados. Deve ser inchaço, em virtude do pouco tempo que consegue dormir. Ao abrir-se a porta, Susana está a sua espera. Evitou parecer aflita, maquiada para não demonstrar nenhum sofrimento, pelo menos perceptível à primeira vista. Aproxima-se e a abraça, com carinho. Úrsula se emociona.

_O que foi minha filha? O que aconteceu com você?

Susana pede que entre. Reconhece de imediato que não deveria tê-la pressionado a vir até lá. Não foi uma boa estratégia, afinal, não tem o direito de envolvê-la em seus problemas. Por fim, afirma que os acontecimentos não tinham esta importância que ela tinha atribuído. Havia sido um desabafo.

Úrsula entra, quieta. Observa os móveis, a estante de livros, as poltronas confortáveis. Percebe a sala despojada, sem uma decoração suntuosa, embora lhe desperte a atenção a presença de alguns moveis antigos e tapetes bem alinhados. Senta-se e a observa, vendo-a caminhar de um lado para o outro. Seus olhos a acompanham intrigada.

_O que foi, dona Úrsula?

_Eu é que pergunto. Você não me fez vir aqui para nada. Diga-me o que aconteceu.

Susana desconversa: – gostaria que conhecesse meu escritório. Lembra quando fui na sua casa, pela primeira vez? Mostrou-me o apartamento, o seu piano, falou de várias coisas e não foi direto ao assunto.

_Porque não confiava em você.

_E agora, confia em mim?

_Confio. Por isso estou aqui, para ajudá-la.

Susana fecha a janela que dá para a rua, deixando apenas a vidraça misturando os vários tons de luzes, que circundam as redondezas. Quando resolve sentar-se em frente à Úrsula, não consegue esquecer a atitude de Roberta Célia, na posição em que estava, enfrentando-a com arrogância, em tom de ameaça. Ela, por sua vez, está na mesma atitude defensiva em que se encontrava naquele momento.

_Gostaria de fazer um chá para nós.

_Nada disso. Você quer desvirtuar o assunto. Olhe, Susana, se não confia em mim, seja sincera. Daí, eu vou embora.

_Não diga isso, Dona Úrsula. Eu confio na senhora. A senhora pra mim, é uma parente muito próxima, que não tenho.

_Você não tem nenhum parente aqui?

_Minha mãe morreu muito cedo, pouco me recordo dela.

_É verdade, se não me engano você me disse isso alguma vez. Não estou bem lembrada. Mas então? É sobre seu pai?

Susana abaixa a cabeça, as mãos trêmulas, pousadas nos joelhos, como se quisesse ampará-los ou segurar-se a si própria num apoio imaginário. A voz soa irregular, mal articulada.

–Dona Úrsula, é uma história muito longa, cheia de meandros, que fazem da minha vida uma angústia constante. Quase uma rotina. Sou uma mulher com muitos erros. Aliás, tenho um crime inconfessável nas costas.

–Por favor, Susana, não me assuste.

–Não, não, é a última coisa que desejo que aconteça. Não sou uma assassina, uma mulher que cometeria um crime por algum motivo vil. Mas eu cometi um crime e o pior de tudo, uma pessoa está me ameaçando, fazendo chantagem.

–Então me conte isso do início.

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