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PÁSSARO INCAUTO NA JANELA - CAPÍTULO XI

HOJE, TERÇA-FEIRA 16/02/2016, SEGUE O NOSSO FOLHETIM RASGADO "PÁSSARO INCAUTO NA JANELA" COM O 11º CAPÍTULO.

Capítulo 11


Às vezes, penso em escrever um livro. Um livro que contasse a história de minha família, mas ao mesmo tempo em que me acomete esta idéia, sei que não ousarei seguir adiante. Relembrar os meses em que Luisinho ficou em coma naquele hospital é reviver a dor em toda a sua intensidade. É proclamar o dia da execução final. Não, não devo mais sofrer, já bastam as lembranças diárias que tenho dele, desses seus últimos momentos. Pudesse voltar os ponteiros do relógio e fazer a minha vida retroceder a um tempo anterior àquele acontecimento. Se pudesse impedir tudo aquele nefasto acidente. Se pudesse argumentar pra mim mesma, que tudo tem um motivo, um fim, uma conseqüência. Mas não consigo acreditar que fosse preciso ele morrer, ele que era tão cheio de vida, de amor ao próximo, de idealismo.

Isso não devia acontecer assim, com os velhos. Não devíamos prosseguir esta última etapa. Devia ser adiada. Cortada com a lâmina. Um fim digno a quem não mais tem interesse em viver. Se ao menos, eu tivesse a coragem de acabar com tudo, esquecer este céu negro que acoberta minhas noites e fechar de vez meus olhos cansados.

Veja o velho aqui da frente. Me parece que está no mesmo barco. Acho até que em situação pior, pelo menos no que se refere à saúde física. Naturalmente, nada que se compare à saúde emocional, porque não há dor maior do que perder um filho. É uma saudade doída, que esmaga o coração, que enrijece os membros, que afeta o raciocínio. Não acredito nestas mulheres que lutam pela memória dos filhos perdidos, que se vestem de estrelas para fazer campanhas, angariar fundos, transformar a dor. Devo ser uma velha ranzinza mesmo, nem sou politicamente correta, como a maioria que as elogia. Não. Elas só querem reviver o passado, mentir a si próprias que são felizes, que estão vivendo, quando estão mortas por dentro.

A noite está mais escura e as poucas luzes da esquina parecem amarelas, fracas, pintando portas envoltas em penumbras, repletas de vultos que produzem coreografias estranhas, mesclando seus corpos com sombras, deixando-os no vazio. Talvez um vazio tão grande como o de suas vidas. E a minha, não é tão vazia e inútil quanto a deles? Pelo menos, são jovens e fazem do seu corpo o que querem.

O vigilante do estacionamento dá seus primeiros sinais. Por certo, conversará com alguém que avance pelas redondezas, misturará a erva tranquilamente, mexendo com a bomba, ajustando o pó e sentará no degrau da calçada, cevando as horas, pedindo que o tempo passe. Será que ele gosta do que faz?

O velho não tem aparecido no quarto. A mesma penumbra tapando a poeira da cadeira desarrumada, com roupas atiradas, perdida num canto. Nem se aproxima da cama e puxa a cortina de filó como faz de costume. Por certo, piorou em suas dificuldades. Se ele morrer, quem ficará na janela, olhando para baixo, contando a sua vida, como se conversasse com um amigo? Talvez crianças correndo pela casa, batendo janelas, esticando-se no parapeito, pais assustados, colocando grades, enfurnando-as na sala do computador, desligando-as do mundo. Não é pra menos. O perigo ronda cada passo. No meu tempo era diferente. Mas daqui a 30, 40 anos, estas mesmas crianças talvez digam a mesma coisa. Que será do mundo, daqui pra frente?

O relógio do quarto bate 3 horas. Madrugada se adianta e sinto um estremecer no corpo, um pequeno calafrio que me percorre os braços. Sempre esfria neste período, mas especialmente hoje, há uma atmosfera sombria, que me assusta. Parece-me um frio interno, uma coisa orgânica, uma febre. Uma febre que me queima os miolos e me estremece a pele. Bobagem. Se eu morrer, não vai ser de febre. Sem dúvida, será de solidão. A velhas como eu, não é permitido desejar outra coisa, porque as perdas já esgotaram todo a adega de esperança. Falar em adega, e se eu tomasse um vinho? Sim, um vinho, ai,ai, ai, que idéia extravagante, Úrsula. Nem que fosse um vinho vagabundo, desses que a gente compra em queima de estoque. Desses aviltados pelo tempo, que não possuem rótulo de validade. E pensar que vinho bom é vinho antigo. Isso para os das safras nobres. Também pudera, a minha validade já tá vencida, já to usurpando o tempo. Nada mais justo do que tomar um vinho vagabundo.

Será que Susana gosta de vinho? Amanhã mesmo, vou comprar um bom vinho e guardar pro momento adequado. Ela merece. Também tem lá seus segredos e me parece que sua vida na é nada fácil. Mas quem não tem problemas, hoje em dia?

A mulher tinha que tomar tino de sua força. Tinha que se conscientizar que o seu poder está na sensibilidade, na possibilidade de abranger várias responsabilidades, diferentes do homem. De juntar e dividir ao mesmo tempo, sem prejuízo à causa. Mas preferem ser a mulherzinha, a mulher que se indigna pela submissão, mas pouco luta pelos seus direitos. Sabe, Rita, na verdade, não deveriam ser direitos, não deveria haver leis para proteger as mulheres, porque elas são seres iguais. São mesmo? Puta que pariu! Esta história de homem intelectual, que compreende a mulher, que julga que ela deva levantar bandeiras e lutar contra as vilezas do mundo, é tudo baboseira. Homem é tudo igual, na hora da cama, eles não pensam em igualdade. Querem submeter a mulher aos seus caprichos. E essa aí, a Susana, vem fazer a biografia do Jaime, como se fosse o defensor das mulheres. Ele era um homem bom, sem dúvida, um homem que me amava. Mas pra ele eu tava em Roma ainda, ou na Grécia antiga, sei lá. Era uma dama, fora da vida política, à margem da ordem social. O que eu era, afinal? A mulher que devia ficar em casa, cuidando dos filhos e dele, o filho maior! Pro homem, a mulher é mãe, a outra, ou mulher de malandro. Se a gente, você sabe Rita, demonstra que também sente prazer, é puta. Bom, isso era no meu tempo, com toda a intelectualidade, a inteligência e o discernimento do Jaime. Agora, as coisas mudaram. Mas mudaram demais, você não acha? Foram pro lado extremo. As mulheres estão com postura de homem e até assustam os pobrezinhos. E essa coisa de levantar bandeira, de lutar pelos direitos da mulher, esse feminismo retrógrado, é tudo sandice! Sei... sei, Rita. Sempre é preciso o exagero no início, na vanguarda de qualquer movimento, mas queimar sutiã na praça, convenhamos!

Lembro agora como se estivesse acontecendo neste momento. Ele andava envolvido com a política investigativa, na tentativa de encontrar furos no governo. Imagina, naquela época dura, da repressão. Tava pedindo. Mas as conversas, os encontros não se resumiam nisso, não. Como todo homem que se preza, estava entre os amigos, no bar mais bem frequentado da cidade, onde os boêmios e as mocinhas pintavam que nem mosca na.... você sabe. Eu estava grávida do Luisinho. Era um dia especial, porque eu havia recebido um convite. Você não vai acreditar, Rita, um convite para gravar o meu primeiro disco instrumental. Você sabe que eu tocava piano. Ele simplesmente não lembrou do fato. Quando ele chegou, eu estava furiosa, um rubor me tingia o rosto, um torpor me calava a boca. Ouvi o barulho do carro, um som de pneus riscando o piso e batidas desmanteladas pra todo o lado. Via o perfil se encaminhando na penumbra e chegando na sala, trocando as pernas. Não parecia o homem que eu amava, era um ser maltratado, amarfanhado, olhos fundos, em mangas de camisa, braços tão suados que prendia os pelos produzindo manchas escuras na pele.

¬– Meu amor, você preparou tudo isso aí, por que me esperou?

Ele sorria. O danado tinha um sorriso pra lá de bonito: franco, aberto, dentes emparelhados, à mostra. Sorria a ponto de me fazer recuar, de hesitar na minha ira, de abaixar as turbinas e aterrissar de mansinho. Meu coração romântico, meu amor contido me diziam coisas opostas à ira que avançava extrema, afirmavam que tudo que fazia era para ele, pra não me abandonar, pra ficar comigo, pra agradar minha alma.

–Desculpa, amor, não sabia. Que dia é hoje? – se equilibrava nas palavras, se desculpava na insanidade da vida alheia que vivia, longe de mim. Tentou me abraçar, cheirando a alho e bolinho de bacalhau. Me afastei do abraço desengonçado. Respondi absorta, apenas sentindo o cheiro forte que exalava, uma mistura de suor e comida.

–Não importa. Vou preparar um prato. Você comeu alguma coisa ou só bebeu?

–Só bolinho de peixe.
Me deu nojo o hálito de peixe, de bolinho chafurdando na banha. A cerveja comungando do cenário. Me afastei devagar. No móvel, ao lado do piano, a sua fotografia me fitando, naqueles olhos claros, intensos. Senti um desejo absurdo de beijá-lo, de vivenciar apenas o sonho, o ideal que aquele homem representava naquela imagem. E me envergonhei por isso. Parecia a outra, a vagabunda que não lavava suas cuecas, mas que ardia de desejo e paixão. Retirei-me devagar, afastando-me em direção à cozinha. Algumas lágrimas inevitáveis se insurgiam inoportunas em meus olhos. Sequei-as, rápido, com o dorso da mão esquerda. Voltei-me por um minuto e percebi que ele lia o convite para o contrato de meu primeiro disco. Acho até que chorou, pois fungou de um jeito estranho. Me seguiu até a cozinha, como uma sombra. Parou no umbral da porta, ainda se equilibrando nas pernas e nos pensamentos. Ouvi um resmungo, alguma coisa familiar que entendi como te amo. Nem sei se disse isso, mas me virei e abri meus braços pra ele.

Veja Rita, que feminista de meia-tigela eu era. E que canalha ele se mostrava! A Susana vai se decepcionar, não tenha dúvida. Também não sei. A mulher, por mais que se emancipe, quer um ninho, um aconchego, um abraço. Mesmo que de um canalha, feito o Jaime. Você não acha?

Fonte da ilustração: artigo Meu corpo, minhas regras do site http://maishistoria.com.br/meu-corpo-minhas-regras/

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