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PÁSSARO INCAUTO NA JANELA - CAPÍTULO XV

HOJE, QUINTA-FEIRA 25/02/2016, SEGUE O NOSSO FOLHETIM RASGADO "PÁSSARO INCAUTO NA JANELA" COM O 15º CAPÍTULO. NOVAS REVELAÇÕES!

Capítulo 15

Desde a última vez que Susana visitara o pai, não conseguia esquecer a sua manifestação, quando de seus poucos momentos de lucidez. Ressoavam em sua cabeça como sinos que dobravam intensos, absurdos, deixando-a aturdida, dividida, atormentada, a ponto de não conseguir trabalhar. Via de regra, inventava desculpas ao amigos ou colegas, na tentativa de dissimular o sofrimento que a atingia. Sabia que o quadro de seu pai não reverteria e a tendência era vê-lo a cada dia, definhando, se transformando num vegetal, um objeto inanimado, quase sem vida.

Nas visitas subsequentes, a decadência que se pronunciava, riscando de suas limitações qualquer gesto que justificasse um simples entendimento, uma sensação sequer. Pelo contrário, anteriormente, ele até a observava, mesmo que não a enxergasse como a filha, ou mesmo uma mulher, um ser humano. Seu olhar não se detinha em nada, cada dia mais distante e o mundo era um grande vazio. Susana o via como uma folha seca, que podia quebrar-se aos poucos, partindo-se até esfarelar-se definitivamente. Dessas que se guardava nos livros, quando criança, esperando que secassem, na tentativa de se pesquisar sua estrutura. A folha ia secando, secando, até amarelar e se esfarelar de tão desidratada. Seu pai estava assim, uma folha seca presa nas páginas fatais do livro. Nas mãos, antes mapas desenhados, modelados em veias azuladas, onde se produziam lampejos de vida, hoje, objetos inertes estirados, opacos, sem emitir movimento, mesmo que fosse involuntário, capaz de armazenar sentimentos de esperança ou amarga espera. Não. Nada que identifique a imagem de um ser humano.

Na última vez que o viu, percebeu-o de boca aberta, praticamente desdentado, respirando com dificuldade, como um peixe que morria aos poucos no anzol; um rascunho do homem forte e ágil que lhe mostrara a vida, que ensinara os primeiros passos. O equilibrar-se na bicicleta, os primeiros tombos, os afagos restauradores, os carinhos desmedidos. Na verdade, a cabeça pendia, para trás, encolhido na cama como um cobertor rasgado, embrulhado num canto, para ser colocado no incinerador. A única vida que lhe restava era a que os aparelhos produziam, ajustando últimos sinais vitais ao som repetitivo e enfadonho. Susana aproximou-se da cama, pousando a mão afetuosa no crânio que parecia menor: cabeça nua, uns fios raros remanescentes davam idéia da profunda falência. Não era mais um homem, não era mais seu pai, mas um erro da natureza, um ser cibernético, resumido a fios, sustentado por condutores que o mantinham vivo, como um espectro. Preso num labirinto. Ela assumia de vez o choro convulso, que lhe estrangulava a garganta, sacudindo os ombros, derramando a dor líquida em sua face inerte.

Vinham à mente como tufão arrasador, as suas últimas palavras, lúcidas, terrivelmente verdadeiras e comprometedoras. “Por favor, minha filha. Não me deixe perder a lucidez. Quando acontecer novamente, faça alguma coisa para o meu coração parar. Eu lhe peço. É um ato de amor.” Agora, ele somente não perdera a lucidez, como toda a energia de seu corpo, toda a capacidade de transformação, de melhoria, de reação. A natureza, enfim, lhe negligenciara o valor da dignidade humana, descaracterizando-o como ser humano, para produzir um corpo-objeto. Sua vida real já estava ceifada há muito tempo, desde que lhe fôra negada a chance de reagir. Entretanto, aquele vendaval destruidor, vento que sopra zunindo, vergando bambus, destruindo árvores, derrubando telhados, ceifando vidas. Aquele vendaval que lhe tomava a alma, que acalentava devagar a sanha do medo e do terror, mas que ao mesmo temo lhe acautelava o coração doído. Que fazer? Como justificar-se a si mesma? Como olhar-se no espelho e julgar o que os olhos não vêem, a experiência que somente sua alma desconsolada poderia se atribuir. Precisava ousar, precisava ser forte, precisava amar. O pedido de seu pai martelava em sua mente, soterrando-lhe as resistências mais profundas, maculando-lhe de forma indelével a consciência. Seu olhar mendigava compaixão. Seu olhar exigia um cuidado que teria que ter: um cuidado em entender o seu último pedido.

Ela sabia disso, quando forçou os pés, pisando imprecisa nos ladrilhos xadrez, sentindo as pernas gemerem, estremecidas, a mente perturbada na febre intensa, o olhar congestionado de quem está perdido, mas com objetivo determinado. Esvaziou a cabeça ou encheu-a a tal ponto, que não mais raciocinou de outra forma, a não ser o que já estava escrito naquele livro decisivo, que comprimia a folha secando-a em suas páginas indestrutíveis. Dirigiu-se à porta envidraçada, quase flutuando, oposta ao imenso corredor que dava a outros quartos e laboratórios e a fechou lentamente, engatando o pequeno trinco. Voltou rapidamente para o leito e não mais encarou seu pai. Se o fizesse, não teria coragem de executar o ato. Esticou o corpo, cujos seios quase tocaram-lhe no rosto e desligou rapidamente, os aparelhos que o mantinham vivo. Agarrou-se ao seu corpo franzino e esperou que perdesse todos os sinais. Como o vendaval, o tufão, a procela aniquiladora, soterrou-o de forma definitiva, libertando-o completamente. Beijou-o delicada, sem chorar. Voltou a ligá-los e ficou ali, por um tempo, sentada ao seu lado. Quando se lembrou de abrir a porta, algumas pessoas, entre enfermeiros e médicos, faziam sinais preocupados, querendo entender a situação. Ela não conseguia mover-se. Ao vê-los, a realidade tombou aos seus pés e seu coração apertado desandou, acelerando a marcha sem que pudesse evitar e o choro convulso novamente abriu passagem para a dor. Alguém bateu com força, chamando-lhe a atenção. Alguns curiosos também examinavam a cena, intrigados. Entre eles, uma mulher, provável visitante de algum doente de um quarto próximo. Levantou-se e obedeceu o chamado, abrindo o trinco, falando confusa, despertando o interesse por quem passava por perto.

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