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O DOCE BORDADO AZUL - 23º e 24º capítulos

Nosso folhetim desbragado continua, hoje com dois capítulos, como combinado.

Capítulo XXIII

A proposta e a purificação do quarto

Laura acabara de escrever um rol de produtos para Lúcia levar ao supermercado, quando bateram na porta. Irritou-se com a demora da filha em atender. Afastou-se alarmada na direção da porta, resmungando. Lúcia continuava no quarto, arrumando-se para sair. Antes de abrir a porta, ainda perguntou: – vai de táxi? - Lúcia, do quarto, respondeu mal humorada que não havia alternativa, ou ela teria comprado um carro para as duas? Laura limitou-se a balbuciar uma frase qualquer, retrucando para si própria. Abriu a porta e surpreendeu-se a ver Gustavo àquela hora da manhã.

–Desculpe vir a esta hora Laura, mas se não se importa, gostaria de conversar uns minutos com você, uns minutos apenas.

–Me importo sim, ah, se me importo. Gustavo, pela manhã, eu sou outra pessoa, me conheço, sou uma verdadeira fera. Não gosto de ver ninguém!

Ele a olha carinhoso, com voz melosa. – Será por pouco tempo, olhe, não quero perder a caminhada.

Laura é inflexível: –já perdeu, meu caro. Estou preparando uma lista de compras. Estou muito atarefada. Depois você me diz o que quer comigo.

Ele baixou a cabeça, abalado: – é sobre minha sobrinha.

– O que tem ela?

– Se você me ouvisse, só por um instante, acho que me ajudaria. Ela precisa muito de mim.

Laura bufa de raiva, mas logo acomoda a mente, tentando tirar proveito da conversa. Afinal, Gustavo viria ao jantar que ela ofereceria à noite, coisa rápida, mas necessária.

–Tá bom, ta bom, homem. Entra duma vez!

Gustavo sorriu, os dentes salientes, o costumeiro mastigar do canto da boca, o pescoço vermelho esticado, e as mãos ajeitando o topete que insistia em cobrir-lhe a testa. Entrou na casa e fechou a porta atrás de si, antes que Laura se arrependesse. Avisou que não se sentaria, seria breve, mas foi a primeira coisa que fez. Sentou-se à vontade na poltrona. Laura também sentou-se em frente a ele. Nisso, Lúcia surgiu na sala, sorrindo, aparentando uma leve satisfação: – Gustavo, você aqui.

–Pois é, é a vida. Como sabe, sou um vizinho presente. Um dia, porque esta mulher maravilhosa – e olhando para Laura – me acudiu, me salvou como uma boa samaritana, outro dia – e desta vez se dirigiu à Lúcia, apontando a mão em sua direção – esta jovem bonita e elegante me pede ajuda para consertar o encanamento de sua cozinha. Que destino maravilhoso parece nos unir, hem?

Lúcia ri, alegre. Laura a observa, com estremecimento na alma. Aquele homem não a engana, tem algum objetivo escuso. Não confia em Gustavo e agora, tinha certeza disso. Resolve, então, intervir: – Lúcia, você não tinha que ir ao supermercado? Então, vamos, vamos, o táxi deve estar esperando-a. Não se esqueça da lista!

Lúcia obedeceu, cumprimentou Gustavo e afastou-se rápida, enfiando a lista na carteira. Em poucos minutos, estavam às sós. Gustavo suspirou e exclamou: –uma bela moça, essa sua filha!

Laura levantou-se e dirigiu-se a ele, com o dedo em riste e um olhar severo de ódio: escute aqui, Gustavo. Eu não quero gracinhas com minha filha!

Gustavo afirmava que não tinha o menor interesse por Lúcia, apenas a considerava uma moça equilibrada, generosa. Uma pessoa do bem.

– Que expressão ridícula! Coisa de advogado, mesmo.

–Voce está sendo preconceituosa.

– Estou sendo sincera. E peço-lhe um favor, esqueça a minha filha. Trate-a com a maior distância possível, sem qualquer afetação. Nós somos mulheres sozinhas, mas honestas.

–Por favor, Laura. Eu jamais pensaria o contrário. Eu sei disso.

–Muito bem, mas você não fez eu perder o meu tempo para ficar com este palavrório à toa.

Gustavo ficou pensativo. Parecia afligir-se com alguma coisa grave.

–Fale-me de sua sobrinha. O que tem ela?

–Vou começar do início. Chama-se Andréia. É uma menina, que amo muito.

–Sem rodeios! Vá direto ao assunto, homem!

–Pois é, acontece que ela está passando por uma tremenda dificuldade.

–Engraçado, e quem não está hoje em dia.

–Não me refiro a problemas financeiros. É que ela mora lá no interior, e a pobre arranjou um namorado que está causando muito sofrimento à família. Começaram a brigar, ele é muito ciumento, sabe, desses que ficam vigiando a mulher, como verdadeiros detetives.

Laura já estava aborrecida com a história. Esforçava-se em ouvi-la sem contestar. Gustavo prosseguia empolgado: – a menina, coitadinha, não quer mais saber dele, mas ele a persegue, não a deixa em paz, diz que não pode abandoná-lo. Imagine que isso já deu até polícia.

– Imagino.

– Minha irmã é viúva. Moram as duas sozinhas e não podem fazer nada. Então, eu tive uma ideia, nada original, mas que pode ser a solução para as duas. Resolvi trazer a menina para cá, afastá-la daquele pilantra. O que você acha?

– Uma boa solução.

Ele se encoraja mais com a conclusão de Laura.

–É verdade, só que não pode ficar comigo, pois ele certamente vai descobrir e virá atrás dela.

–E então, o que pretende fazer?

–Eu pensei em você.

–Em mim? Alto lá, já tenho problemas demais, eu não quero esta moça aqui, na minha casa, de jeito nenhum.

– Calma, Laura, calma. Por favor, me ouça. Não é como está pensando.

– É assim, sim. E eu sei muito bem como estas coisas terminam: na polícia! E depois, a corda rebenta sempre no lado mais fraco, ou seja, no meu, que não tenho nada a ver com isso.

–Escute, Laura, ela pode trabalhar, fazer faxina, arrumar a casa, servir de companhia para você, tudo que precisar.

–E você acha que posso pagar uma empregada? Eu mal pago uma faxineira, quem faz toda a limpeza desta casa é Lúcia. Até a comida, nós fazemos juntas. E agora quer que eu pague uma pessoa para trabalhar comigo? Ô, acorde homem, em que planeta você vive?

–Se você me escutasse, perceberia que é um bom negócio para você. Você não pagaria nada, eu ajudaria nas despesas, pagaria a menina, como se prestasse serviços para mim!

–Voce está louco!

–Nao, meu bem, só quero ajudá-la.

–Ei, ei, não quero intimidades comigo!

–Mas é a pura verdade. Quero ajudá-la, a você e a ela. Ela que ficará livre do marginal, você que terá uma ajuda sem qualquer ônus de sua parte. Não acha uma boa solução?

–Não estou entendo o seu interesse nesta historia toda.

– Não fui bastante claro? Minha sobrinha Paula precisa de ajuda. Você também será beneficiada.

–Voce não disse Andréia?

–Andréia? Eu disse Andréia? Ah sim, claro, claro. Andréia Paula. É o seu nome de batismo. Paula por parte da mãe. É um nome lindo, não?

– O pai deve ser André.

–É verdade.

–Esquisito, não?

– Não quero que você se precipite, quero que reflita bem, converse com a sua filha e veja os prós e contras. Acho que é uma boa solução para todos.

–É uma situação estranha. Você pagar por alguém que vai trabalhar na minha casa!

–E você me prestará um imenso favor. Você estará ajudando Paula, a minha irmã e a mim. Não imagina o quanto tenho dormido mal, pensando nestas duas.

– Então, você planejou tudo.

–Não, pensei nisto nesta noite. Lembrei de você, pensei muito em você, nesta noite –termina a frase num tom coloquial e malicioso – e agora me diga, como é que vai ser a nossa noite?

–Não sei, vai depender de nós.

–E a sua filha, conseguiu dispensá-la?

–Gustavo, você esta querendo alguma coisa com minha filha?

– Não, Laurinha, não. Como homem, não posso negar que ela é um piteusinho, mas eu não sou um canalha. Quero você, não entendeu? É que você disse que a afastaria daqui, para ficarmos às sós.

–Ela não estará aqui. Passará a noite no convento.

–No convento?

–É, vai cuidar de uma freira doente. Aquelas velhas estão caindo aos pedaços e Lúcia tem paixão por aquele ambiente. E depois, há a possibilidade de conseguir um emprego lá.

–Que ótimo! Lúcia realmente está precisando.

– Mas agora, Gustavo, por favor, eu tenho muito o que fazer. Você me dá licença?

Laura arreda o corpo, tomando conta do espaço dedicado a Gustavo, quase empurrando-o para fora.

–Está bem, está bem Laura. Você promete que vai pensar?

–Claro, é uma oferta tentadora.

–Assim é que se fala, minha dama!

–Você está inspirado, hoje, hem? Mas logo a gente conversa, agora vá para a sua casa descansar. Hoje, eu tenho uma encomenda maravilhosa para receber e quero estar preparada.

–É verdade? Do que se trata?

–Logo você vai saber. Garanto que vai adorar a surpresa!

Gustavo apertou a mão efusivamente e afastou-se depressa. Estava satisfeito, sabia que tinha jogado a linha com maestria e Laura havia caído na armadilha. Agora, só tinha que colocar os seus planos em dia. Estudaria tudo com muita paciência, para não se deparar com qualquer inconveniente no caminho. Laura o observava, através da cortina, balançando a cabeça. Pensava consigo: este cara está aprontando alguma, mas ele não sabe com quem está lidando! Em seguida, afastou-se da janela, assim com estes pensamentos perturbadores. Lembrou de Lúcia, falando sobre o quarto amarelo, com a desenvoltura de quem o conhece bem, conhece os seus segredos e os repele com extrema aversão, como se lá não estivessem guardadas as suas lembranças mais caras. A filha não compartilhava com ela os seus sonhos, tinha lá a sua maneira de ser, de estar no mundo, de agir como as pessoas comuns e equilibradas. Ela não, era uma pessoa esperta, que sabia enfrentar o seu destino de peito aberto, com as armas que adquirira em sua vida sofrida. Lúcia não sabia de nada.

Deste modo soturno, dirigiu-se ao seu quarto, abriu uma gaveta da cômoda e retirou uma pequena caixa de madeira, onde havia diversas chaves. Espalhou-as no fundo da caixa, com o ponta do dedo, atenta. Encontrou uma, a menor delas, pegou-a e fechou a caixa com cuidado. Depois, afastou-se do quarto, hesitante. Encaminhou-se pelo corredor à fora, mais rápida do que de costume, com urgência para executar uma tarefa. Atravessou a cozinha, sem olhar para os lados, com a mente ocupada, atravessando uma pequena área iluminada por janelas de vidro e dirigiu-se à porta de um quarto fechado. O famoso quarto dos segredos.

Deixou-se ficar na porta, ajustou o polegar e o indicador na pequena chave, como se polisse o metal por alguns segundos. Quem a visse, diria que ela estava em dúvida, se realmente deveria entrar ali, um lugar que lhe trazia recordações tristes, que não conseguia evitar. Mas não demorou muito e enfiou a chave, abrindo a porta. Um cheiro desagradável de mofo exalou. Olhou em todas as direções, mas pouco enxergava, pela penumbra do ambiente. Entretanto, sabia muito bem o caminho, indo até a janela que dava para o quintal dos fundos e esforçando-se para abrir o trinco enferrujado.O interruptor de luz ficava na parede próxima à janela, sempre se penitenciara desta deformação na estrutura elétrica, mas nada fizera desde que o marido morrera. Podia avistá-lo, bem como as fotografias antigas na parede, de um amarelado tétrico, quase apagado, as bocas e narizes deformados, comidos pela umidade, tendo a impressão que a morbidez ali se instalava para ficar. Os móveis empoeirados, armários antigos, ainda com alguns enfeites atrás das portinholas de vidro, como vasos de porcelana, castiçais e pequenas esculturas de madeira ou bronze. Na parede oposta à velha cama de ferro, ficava uma estante de livros. Uns tombados, vencidos pelo desuso, outros empilhados acobertando a poeira e a traça que faziam de suas páginas amareladas, o paraíso de pequenos circuitos, que as atravessavam, impiedosos. Um roupeiro com uma porta pendente, combalido por cupins. O piso de parquê em estado de penúria. Laura conhecia de cor as mazelas do quarto, por isso, de certa forma, estes percalços da construção não a abalavam. O que a mortificava eram as lembranças de infortúnios e pequenas saídas emergenciais às quais não se fizera de rogada. Mas hoje havia uma nova expectativa. Ela precisava dar um jeito naquilo. Arrumar o quarto, na medida do possível, limpando-o cuidadosamente, encerando o que restara do piso e arrumando os livros na estante. Precisava contar com a concordância de Lúcia. Somente ela poderia ajudá-la.

E foi assim que aconteceu. Laura convenceu Lúcia a purificar o quarto, como dizia. Invocara as suas próprias elucubrações sobre o quarto e seus segredos, pois bem, estava mais do que na hora de o arrumarem. Lúcia obedecia à mãe numa espécie de purgação por seus erros. Ajeitava-se na vassoura, na lavagem pesada, no verdadeiro trabalho braçal, entre alvejantes, sabão em pó, panos, pisos encharcados e ceras. Limpava tudo com o afinco de quem deve entregar o serviço para ser inspecionado com diligência. Esmerava-se em receber uma boa nota. Fazia de tudo para ter o merecimento da mãe. Laura mais a assessorava no trazer de baldes, mangueiras, instrumentos de limpeza, do que propriamente envolver-se no trabalho. Apenas a apoiava, cercando-a com palavras de incentivo, com carinho e até trazendo pequenos mimos para agradá-la. Tudo o que precisasse para sentir-se melhor. Lúcia a ouvia comovida e trabalhava tão arduamente, embora Laura pedisse, embora de forma tímida, que não se excedesse, pois à noite passaria no convento. Lúcia relutava.

–Prefiro fazer faxina do que passar a noite lá, com aquelas freiras elitistas.

–Bobagem, minha filha. Lá está o seu futuro, não se esqueça.

–Já nem sei se tenho futuro – acrescentava desorientada – acho que o meu futuro é aqui, passar a minha vida fazendo faxina!

Laura calava-se. A melhor tática no momento era permitir que ela desabafasse, desde que decidisse passar a noite no convento. Aos poucos, tudo ficou limpo e arranjado. Lúcia era detalhista, não esquecia um arabesco de um móvel sem lustrar ou organizar os livros, juntando os autores deliberadamente. Laura ia e vinha trazendo lençóis novos para a cama, fronhas e travesseiros impecavelmente dispostos sob a colcha quadriculada em preto e branco. Na janela, cortinas novas, que há muito tempo tinha costurado para aquele momento. Galerias forradas em tecidos bordados de flores, suavizando e produzindo um ar jovial ao ambiente. Ao terminarem, suspiraram simultaneamente, considerando impecável a obra que executaram.

Laura abraçou a filha e informou, orgulhosa: – para você que fez esta verdadeira maravilha, eu tenho uma surpresa. Encomendei um assado de porco com batatas que você vai adorar!

Lúcia sorriu satisfeita.

Capítulo XXIV

A encomenda

Após o almoço, Lúcia procurou descansar, desligando-se das lembranças do passado que o quarto amarelo produzia. Estava assim confortável, por ter feito um favor à mãe e ao mesmo tempo em liberar os resquícios do passado que permaneciam grudados na sujeira, no mofo das paredes úmidas, no enferrujado dos metais, no combalido dos móveis. Finalmente, o ambiente ficara mais aprazível e o quarto não era mais um estorvo a ser evitado. Ao contrário, se tornara, apesar das paredes velhas e desgastadas, um lugar agradável para ser visitado, para se tornar um refúgio, afastado que era dos demais compartimentos da casa. Quem sabe ela não faria ali o seu escritório, levando o seu computador e transformando o que era só lembranças tristes, num local agradável para a sua vida. Pensaria nisso com carinho. Mas o sono a vencera e nada mais Lúcia pensou, a não ser sonhar que estava num lugar distante, a caminho do nada, subindo uma escada que acabava na falta de degraus, de onde avistava apenas o vazio. Um pesadelo que sempre a acompanhava e a deixava assustada. Mas, hoje, como o corpo estava abalado pelo cansaço, o pesadelo se completava em ambientes distintos, tanto que ao alcançar o último degrau que não existia, conseguia dar um passo vantajoso e apoderar-se de uma árvore e ali, se deixar balançar, olhando para baixo e sorrindo para as pessoas que a observavam. E depois, não mais sonhou, pelo menos, algo que conseguisse lembrar mais tarde.

Laura , ao contrário, queria ficar bem alerta para esperar a encomenda. Esticava o corpo de vez em quando, olhando pela janela, esperando ansiosa, que o carro da loja chegasse, cumprindo o prazo estipulado. De repente, avistou-o dobrando a esquina, passando pelo condomínio de Gustavo e aproximando-se de sua casa. Vigiou assustada, temendo estremecer com a campainha esperada. E mesmo sabendo, estremeceu com o som estridente. Não ousou espiar mais pela janela. Arrastou-se como pôde, diretamente para a porta, espalhando os chinelos no chão, voluntariosos, conhecedores do caminho. Arregalou bem os olhos, encarando o homem de bigode, que tirava o boné da cabeça, para cumprimentá-la e estender uma nota fiscal. Antes que ele dissesse alguma coisa, ela disparou, rápida: – é aqui, aqui mesmo. Estou esperando o caixão.

Outro rapaz apareceu, este bem mais novo muito magro, com um olhar espantado. Ficou atrás do colega, esperando o desfecho da situação. O homem de bigode insistiu: – tem certeza de que é aqui, mesmo, dona? Não é normal a gente trazer um caixão para uma casa de família.

Laura se indignou com a observação.

– O senhor olhou bem o endereço? Verificou o nome da compradora? Confere? Então é aqui mesmo, qual é o problema?

– Não tem problema nenhum não – o magrela concordava acenando com a cabeça. Apontou para a bolsa da mulher, sugerindo que ela mostrasse o documento. O primeiro entendeu a dica e pediu que ela exibisse a identidade.

Laura trouxe a bolsa que estava sobre a mesa, irritada e mostrou o documento. O bigodudo examinava os dados e olhava para o rosto de Laura, identificando as características da fotografia. O segundo homem fazia o mesmo, espiando sob os ombros do primeiro, pois era mais baixo.

–Está tudo certo? Querem que assine alguma coisa?

–Claro, claro. Pode assinar aqui.

–Mas vocês não podem trazer o caixão pra dentro de casa? Já tem algumas pessoas espiando pelos vidros do carro. Não quero publicidade na vizinhança.

O bigodudo concordou e chamou o colega para ajudá-lo. Tiraram o caixão do carro e o conduziram conforme as orientações de Laura, que indicava o corredor e em seguida, o quarto amarelo, onde ficaria o tão esperado móvel. Pediu que o deixassem perto da cama. Depois ela o acomodaria no lugar mais adequado. Os homens obedeceram, pegaram a nota fiscal assinada e saíram discutindo entre si. Algumas pessoas detinham-se próximas à porta, espantadas com o que viram.

Laura deixou que os homens se afastassem e bateu a porta, irritada. Uma vizinha se aproximou hesitante. Olhou para os lados, outras a seguiam, mal balbuciando entre si. Ficaram um pouco mais longe, temerosas de não serem bem recebidas. A mulher tentava chegar à soleira da porta, mas alguns meninos que brincavam nas redondezas, surgiram antes dela, entre gritos, apertando-se contra as paredes do hall de entrada, eufóricos, esperando que tocasse a campainha. Acotovelavam-se, comprimindo-se um junto ao outro, deixando a mulher avançar, que acumulava coragem para falar com Laura.

Laura apareceu na porta, entreabrindo-a, sem tirar o pega-ladrão. Olhou para a mulher que a espreitava do outro lado, encarou nauseada os pequenos e perguntou indignada o que queria.

–Desculpe Dona Laura, é que a gente ficou preocupada. Por acaso não é um caixão que chegou aí, na sua casa?

–Não, Dona Gertrudes, é uma cômoda! – falou com sarcasmo. As crianças caíram na gargalhada, olhando uns para os outros, batendo os cotovelos, como se concordassem entre si. Antes que a vizinha pudesse refutar, ela prosseguiu ainda irritada – claro que é um caixão, a senhora viu muito bem. Qual é o problema?

–Não, não tem problema nenhum, ou melhor, nós todas ficamos, como lhe disse, preocupada – respondeu balançando a cabeça.

Laura deu uma olhada geral e viu o círculo de mulheres um pouco mais distante. Era um grupo de mais ou menos dez pessoas, contando com os homens que também se aproximavam. Algumas das mulheres quebram o silêncio, cochichando entre si. Outras observam a cena, se perguntando se o que viram era verdade. Os meninos não desistiam no local privilegiado, curiosos. Um segurava a bola com o pé, outros esticavam o corpo para assistir melhor, riam, olhos e bocas abertas.

– Esta gente não tem mesmo o que fazer senão especular a vida alheia? Pois eu vou lhe explicar Dona Gertrudes – e começou a falar bem alto, para que todas escutassem – diga a estas desocupadas, que eu vou dar uma festa aqui na minha casa, é, isso mesmo, vou dar um baile, um grande baile do dia das bruxas e a senhora será convidada, representando o bairro! – e terminou a frase rindo, despudorada.

Dona Gertrudes afastou-se um pouco, chamando-a de desaforada. Todas as demais a acompanharam. Os meninos juntaram pedras e atiraram na casa. Ficaram todos alvoroçados e as mães, a muito custo, evitaram que prosseguissem na represália, gritando, vingando-se neles, o desaforo que sofreram. Em seguida, continuaram em altos brados, comentando a atitude de Laura. Os homens também tinham lá os seus palpites, mas estavam mais preocupados em dar o fora e soltar os bichos no boteco rotineiro.

Laura espiava pela cortina, afastando-a um pouco para poder identificar as vizinhas. Repetia sozinha, indignada: – idiotas!

Depois, afastou-se em direção ao quarto. Devia esquecê-las e viver o momento que a vida lhe reservava. Abriu a porta do quarto amarelo, devagarinho, como se quisesse surpreender-se com o presente a que tinha se atribuído. Olhou para as paredes envelhecidas, para os retratos dos mortos queridos, para os livros bem organizados na estante, revivendo cada momento que passou ali, tanto alegre quanto triste. Tudo estava marcado em seu coração. Aproximou-se então da cama e sentou-se, batendo as pernas inchadas no ataúde, que estava ao lado, admirando-o, observando cada detalhe, cada saliência do alto relevo, tão bem engendrado para dar o design rebuscado e ilustre. Dobrou o corpo com leveza e alisou pausadamente a vidraça, olhando para dentro, como se pretendesse ver nele o seu próprio corpo, ali, estendido e tranquilo, esperando apenas os últimos procedimentos para afastar-se em definitivo do mundo dos vivos. Sorriu, enternecida e observava a sua própria figura, como num espelho. Nem lembrava mais o incidente com as vizinhas. O que importava agora era aquele momento único, só seu, com o qual não compartilhava com ninguém e que jamais dividiria cada milímetro, cada pequeno espaço de sua eterna e longa morada. Ali ficaria, até suas carnes apodrecerem, seus ossos se desprenderem lentamente dos músculos, abandonando a casca disforme e flácida, e finalmente também eles se dissolvendo e se transformando em pó, enquanto sua alma leve e translúcida a tudo apreciaria em júbilo. Assim ficou naquele enlevo de exímia ternura, sepultando a si própria e alavancando a passagem para a nova vida.

Estava assim, embevecida com a nova aquisição que nem percebeu que a porta se abria. Lúcia a empurra devagar, temendo que a mãe não esteja, pois a tinha procurado por toda a casa e não havia sinal de sua presença. Conseguiu avistá-la, de costas para a porta, sentada na cama, virada para a parede. Lúcia estranhou, principalmente pelo ambiente estar na penumbra.

–Mamãe? Aconteceu alguma coisa?

Laura voltou-se num suspiro longo e profundo. Olhou para a filha, sorrindo e pediu que fechasse a porta. Que se aproximasse, tinham muito que conversar.

Lúcia deu alguns passos e perguntou por que não ligara a luz.

–Ah, esqueci. Não senti o tempo passar. Mas venha até aqui, quero lhe mostrar uma coisa.

Lúcia não se atreveu a se aproximar. Disse que tinha um pressentimento ruim. Estava ainda escuro, voltaria para a sala.

–Não seja boba, filha. Venha até aqui, olhe, basta que acenda a luz. Você sabe onde fica, é no meio da parede. Não lembra?

Laura a tranquiliza com um tom adocicado na voz. Lúcia, porém se infantiliza cada vez mais, hesitando prosseguir, ameaçando abandonar o quarto.

–Eu não gosto de ficar neste quarto. Sinto arrepios.

–Mas você até o limpou. Está tão lindo!

–É verdade, mas agora, assim, na penumbra, me dá medo. Você sabe como sou covarde.

Encosta-se na porta, garantindo a si própria que conseguirá fugir a qualquer momento. Laura acena a cabeça, perdendo a paciência. Mesmo assim, insiste.

–Então se tem tanto medo, vença-o para me ajudar. Preciso de sua ajuda, estou aqui, acabrunhada nesta cama. Você não sabe o que aconteceu comigo, eu fui insultada esta tarde. Você dormiu, descansou, relaxou o corpo e esqueceu-se de mim.

–Mas do que você está falando?

–Daquela tal de Gertrudes, a vizinha aí do lado. Aquela velha caquética teve a coragem de bater na minha porta para tomar satisfações da minha vida!

Lúcia aos poucos se acalma, procurando entender a mãe.

– Por que ela ia se meter na sua vida?

Laura não responde. Conta apenas o que interessa para reforçar o seu descontentamento. Fala do grupo de pessoas que se formaram, das crianças que se acotovelavam na sua porta, do deboche que orquestraram contra ela.

–Mas meu Deus, em que mundo estamos! Esta gente enlouqueceu!

–Que nada, são todos uns desocupados! Uns vagabundos que não tem o que fazer, então ficam a achincalhar as pessoas decentes. Por favor, filha, venha até a sua mãe. Depois sairemos juntas deste quarto, eu mesma no caminho, acenderei a luz, pois sei muito bem onde está o interruptor. Conheço este quarto como a palma de minha mão.

Lúcia esforça-se para vencer o medo. Lembra-se que pretendia fazer daquele quarto o seu escritório, e como o faria se não tinha coragem de permanecer nele. Então deu alguns passos em direção à cama. Falseou o pé, porém correu como pôde ao encalço da mãe. Chegou até a cama e sentou-se do outro lado, estendendo-lhe a mão. Laura puxou-a ao seu encontro. Lúcia, com a voz sumida, e a cabeça mergulhada no seios da mãe, ainda perguntou o que estava acontecendo. Laura exclamou, sorrindo, os olhos brilhantes de satisfação: – surpresa!

Lúcia afastou-se um pouco, mas não viu nada que a surpreendesse, apenas um estranho brilho onde a mãe pousava delicadamente a mão, junto a sua.

–Não me diga que não descobriu?!

– O que é isso, está tão escuro. Parece uma mesa...

Laura a soltou, levantando-se rápida.

–Fique aí sua boba, eu vou acender a luz.

Aproximou-se do interruptor e encostou-se na parede, olhando-a demoradamente, querendo apreciar a sua reação. Ao ver o caixão, Lúcia arregalou-os com assombro. Sentiu-se estremecer, faltar o ar, o coração disparar, atropelando o raciocínio. Empalideceu, caindo sobre a cama, sem dizer uma palavra. Laura não obstante, ria, quando percebeu o acontecido.

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