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O DOCE BORDADO AZUL - CAPÍTULO 11º

Todas as terças-feiras e quintas publicarei capítulos em sequência do romance "O doce bordado azul". A seguir o

11º capítulo.

Capítulo XI

Um fato novo, um fato antigo

Laura chegava em casa, esperando que a filha já tivesse voltado. Estava agitada aquela tarde, quase noite. Não imaginava o que estava acontecendo naquele encontro. Lúcia sempre fora tão descomedida com as coisas, que certamente não conseguiria se antepor aos desígnios das outras. Perderia todas as oportunidades, como sempre fizera no decorrer de sua vida e ela ficaria sempre por perto, até morrer, para ampará-la e a concertar as coisas insensatas que praticava.

Na cristaleira, pegou a garrafa de licor, que refletia no fundo o restante do líquido. Abria com cuidado, esvaziava o conteúdo, fazendo pingar a sobra no copo até as últimas gotas se tornarem um nada. Olhava alucinada para dentro do copo. Via nele coisas estranhas. De repente, o licor ora vermelho ora em tons amarelos, girava no fundo do copo, tendo a impressão de que havia vida ali dentro. Talvez uma abelha, uma mosca, um inseto qualquer. Esqueceu este detalhe. Levou-o à boca e sentiu o líquido resvalar devagarinho, absorvendo toda a doçura requintada que lhe causava um prazer indescritível. Pensava muito na filha e principalmente nestes momentos de pequenos prazeres, dos quais ela jamais compartilhava. Sentia-a sempre distante, preocupada com o seus problemas e envolvida num invólucro inatingível. Era uma bolha, uma bolha imensa na qual a avistava na posição fetal, precisando de ajuda. Talvez, se espetasse a bolha com a sua agulha de bordado, a aspirasse diretamente para a vida digna de ser vivida.

Sentou-se, como de hábito, na poltrona próxima à janela. Respirou fundo. Sentiu que antigas pasmaceiras se afastavam, como pequenos rodamoinhos que vinham e iam ao sabor do vento, levando as alegrias para longe. Mas a vida era assim mesmo, só Lúcia não conseguia compreender isso. Não entendia o quanto seriam felizes, se seguissem a sua cartilha. Por isso, faria as coisas do seu modo.

Um vizinho passava próximo à janela e espiava de canto de olho. Já o tinha visto várias vezes pela região e não era dos velhos conhecidos. Era um novo morador. Homem bem vestido, aparentando 60 anos talvez, se bem que não pudesse definir com certeza. Hoje em dia, os homens se enfeitam tanto quanto as mulheres. Esse aí talvez seja mais velho do que pareça. Um bom penteado, um corte bem feito, uma tintura uniforme, uma barba escanhoada e aí se encontrava um velho parecendo bem mais moço. Mas ele era diferente. Era um homem distinto. Um dia, o convidaria para entrar, tomar um vinho, um drinque talvez e quem sabe se tornariam amigos. A vida tinha que ser assim, amaciada, amansada, pega pelos chifres. De qualquer jeito. A isso Lúcia não dava importância.

Pena que o licor estava acabando. Era doce, dava um calor gostoso na garganta e nas mãos. Mas o que não tem conserto, consertado está. Voltar para os bordados era a sua missão. Tarefa que desempenhava com tanto prazer quanto tomar aquele licor velho, do fundo da garrafa.

Deixou-se ficar assim, acomodada na poltrona, ouvindo os barulhos da rua, mexendo magistral nos tecidos, nas linhas, nas agulhas, inventando matizes diversos, desenhos originais e novas laçadas, transformando linhas em verdadeiros labirintos.

Quando Lúcia entrou rapidamente, fechando a porta atrás de si, como se a polícia a seguisse, nem percebera que alguma coisa ruim havia lhe acontecido. Mal levantou a cabeça, perguntou desatenta, “como é que foi lá” e mergulhou no que estava fazendo.

A filha não respondeu, apenas resmungou que tomaria um banho e afastou-se rápida para o quarto. Laura prosseguiu no bordado, nem ligou a tv. Lançava de vez em quando, um olhar oblíquo para a rua, antevendo alguma novidade, mas nada acontecia, apenas o corriqueiro de sempre. Somente o homem distinto voltava e desta vez, nem olhara para a janela. Laura então, apresentou-se no parapeito, jogando os braços para chamar a atenção. Fez um pequeno sinal, um som quase inaudível, mas o homem voltou-se rapidamente, sentindo-se observado. Perguntou se tinha falado com ele. Ela sorriu e acrescentou: – sim. Sim e não.

–– Como assim?

–– Não queria incomodá-lo. É que da minha janela, percebi que o senhor passava várias vezes e fiquei curiosa. Como conheço todo o mundo, achei que era um morador novo no bairro.

––Exatamente. Estou morando no condomínio da esquina. Faz uma semana que me mudei para cá.

––Ah, que bom, seja bem vindo.

O homem agradeceu, afastando-se, quando ela insistiu: –– olhe, se precisar de alguma coisa, pode aparecer. Eu moro com uma filha, mas gostamos muito de nos relacionar com os vizinhos. Será um prazer, se vier.

Ele a olhou meio surpreso e agradeceu novamente.

Laura deixou-se ficar, olhar perdido, vendo-o afastar-se até sumir na esquina, entrando no pequeno prédio de apartamentos. Suspirou descansada e imaginou um mundo muito diferente lá fora. Se pudesse afastar-se de sua janela, ter a agilidade de Lúcia, vestir-se rapidamente e caminhar pelas vielas tortuosas do bairro, sem sentir nenhuma dor nas pernas ou cansaço, certamente, o faria com prazer. Estaria longe, disputando com os transeuntes a verdade das ruas, o dia a dia das mulheres emplumadas, que passam de nariz em pé, sentindo-se donas do ambiente ou do caminhar compassado dos velhos, dos humildes, dos doentes. Ou dos mendigos.

Entretanto, tinha de permanecer ali, quieta, apenas observando, porque a sua hora lhe custava muito a chegar.

Pensou em Lúcia, a quantas anda, assim, tão dissimulada, fingindo que nada aconteceu, correndo para o quarto, afastando-se dela para não tocar no assunto que lhe desagrada. O melhor seria investigar, não fosse esta preguiça que lhe consumia o ânimo. Esperou mais um pouco. Devia estar no banho. Tinha este costume. Parecia querer limpar-se dos pecados, como se estes escorressem pelo ralo.

E foi assim que aconteceu. Quando a reviu novamente, percebeu que estava com os cabelos escorridos e os dedos murchos. Vestida num roupão de algodão, parecendo sentir frio. Indefesa. Sozinha. Queria ajuda. Laura sabia disso. Por isso, foi a primeira a falar: – por que é que você não fala o que aconteceu lá?

Lúcia deu de ombros, enroscando-se ainda mais nas pernas, encolhidas sobre o sofá.

––Você acha que não é importante se abrir para a sua mãe?

Lúcia a olhou, perturbada e surpresa. Aquela docilidade não lhe era habitual. Abaixou a cabeça, fingindo-se mais cansada do que realmente estava.

Laura levantou-se da poltrona e aproximou-se, fitando-a de perto. Passou o dorso da mão na testa, examinando-a, como fazia quando criança.

Lúcia afastou-lhe o braço, irritada, pedindo que a deixasse. Estava bem, não havia nada para se preocupar.

Laura voltou a sentar-se, arrastando os chinelos. Fez um silêncio repentino. Deu uma olhada para a rua, já às escuras e falou de repente, como se lembrasse do tema assim, de repente.

––Sabe que temos um vizinho novo no bairro?

Lúcia fingiu não ouvir.

––Me parece uma pessoa bastante distinta. Não é um homem jovem, pelo contrário. Tem ares de sessentão. Mas parece ter muita energia, caminha daqui pra lá e de lá pra cá toda hora. Sabe o que eu estive pensando? Em convidá-lo um dia qualquer destes, para tomar um chá com a gente.

Lúcia levantou a cabeça, espantada. A mãe deveria estar pirando, mesmo. Convidar um estranho tomar chá em nossa casa! Limitou-se a olhá-la desconfiada, observando que Laura voltava-se para a janela novamente, como se imaginasse a cena do encontro. Mas em seguida, interessou-se em Lúcia. Alguma coisa lhe dizia que nada andava bem com ela.

––Olhe, Lúcia, talvez não seja uma boa hora para conversar. Está cansada, angustiada...

––Quem disse que estou angustiada? Estou possessa!

Laura sorriu. Esta era a sua filha. Não era mulher de ficar se lastimando.

––Então fale, encontrou as suas amigas?

Lúcia ajeitou-se no sofá, descobrindo uma perna do roupão, alisando-a com uma das mãos, como que identificando uma mancha estranha que surgira subitamente. Não havia nada; criações da mente e pensamentos confusos. Dirigiu-se à Laura, ainda sem olhá-la.

––Na verdade, elas não estavam lá.

Laura abriu a boca para exclamar qualquer coisa, mas fechou-a rapidamente sem um único som, preocupada em ouvir a continuidade da história.

––Elas estavam muito bem protegidas pelo convento, pela Instituição, como sempre o foram em toda a sua vida. Sempre foram ricas, bonitas, de boa família. Claro que as irmãs as protegeriam e eu seria a vilã, a culpada de tudo. A pobre e medíocre figura que tiveram que conviver tantos anos naquela maldita pocilga!

Lúcia derramava impiedosa, todo o ódio incorporado em sua revolta íntima. Era um lodaçal de mágoas.

Laura, sem saber o real motivo sorria de uma maneira meio insana. Entretanto, refutava a afirmação da filha, que se considerava uma figura medíocre. Desta vez, Lucia levantou-se do sofá, pedindo que calasse a boca. Só ela sabia o quanto tinha sofrido naquela escola, naquele meio absurdo em que menos vale mais, ou pelo menos, menos inteligência, menos sagacidade, menos alegria, menos criatividade. O que contava era o nome e o dinheiro.

Laura a interrompeu: ––isto é mais velho do que a Bíblia. Já passou o tempo de se discutir estas bobagens. Sabemos que é assim e nem nos importa mais.

––Não importa à senhora! Em mim estas coisas estão gravadas em ferro, na minha alma!

––Ai, ai, ai, Lúcia. Que coisa mais suburbana, mais dramática, parece tango argentino. Isso são águas passadas!

––Mas águas que respingam na minha vida atual.

––Está bem. Acredito que estas dificuldades do seu passado tenham vindo à tona no encontro. Mas isto não pode atingi-la assim. Você é uma mulher adulta. Não é mais uma criança!

Lúcia silenciou por alguns minutos, depois, voltando a sentar-se no sofá, tentou acalmar-se. Não valia à pena exaltar-se e dar tanta importância a fatos antigos, a mãe tinha razão. Mas no fundo, sabia que para aquele grupo, nada havia mudado. Ela continuava sendo a mesma menina ascendente sem jamais galgar o sucesso das demais, pois já nasceram vitoriosas. Assim, resolveu esclarecer à mãe que o verdadeiro encontro não acontecera, porque fora impedida por Irmã Carlota.

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