TRÁGICO COMO UM TANGO

Passava por nós assim célere, pisando miúdo, uma barriga de 6 meses, vestida em lã, até quase os joelhos, numa calça preta permitindo os movimentos. Passos ágeis, precisos, em busca. Olhos argutos, perspicazes, nem sempre ligados aos austeros e comportados do grupo. Um sorriso amplo, franco, tipo Elis Regina. Cabelos crespos, afinados com a época, nos anos 80. Era jovial, alegre, ativa e alguma coisa nos unia, que na verdade, só fomos descobrindo aos poucos. Uma fina ironia, uma vontade explicita de rir de tudo e de todos, de mastigar a vida em todas as suas nuances e matizes mais profundos, sentindo o sabor e o aroma dos momentos construídos. Festa, diversão, alegria. Era o que cultivávamos para nós.

No entanto, não tínhamos contato mais próximo, eu num horário diferente, às turras com as aulas de literatura, filologia, latim. Ela com a referência na biblioteca, a guarda de livros, a execução de projetos, o estudo da especialização.

Nas férias dos alunos, fomos nos aproximando, talvez por aquele viés irônico e brincalhão. Juntávamos as tragédias, as solidões, as tristezas e ríamos muito. Ríamos de nós mesmos. Aos poucos, formos ficando cada vez mais amigos. Seu filho nasceu, ela voltou da licença e passamos a conviver no mesmo horário. Eu, perdido em minhas histórias pessoais, buscando caminhos, mesclando o que a vida me proporcionava, com o que colocava no papel ou na mente. Era um mundo intenso, de vida familiar, apego, afeto, carinho, e luta, muita luta para ascender ao patamar intelectual. Não aquele bordado nas estrelas de papel crepom dos falsos intelectuais, mas o mundo interior que me afigurava, que se agigantava ante meus olhos, que borbulhava em minhas descobertas, que me afastava da mediocridade do senso comum e me livrava do padrão pré-estabelecido das estruturas formais do emprego, da sociedade, dos relacionamentos. Este viés emocional nos unia dia a dia.

Era uma revolta particular, cada um em seu meandro de emoções, em suas trincheiras de luta, mas com características tão semelhantes, que nos uniam como irmãos. O tempo não passava de uma extensão de nossas almas, que expandíamos em nossas conversas e confidências, ao lado de muitas risadas, intensa alegria de viver e ser feliz. Há muitas histórias que vivemos juntos, enquanto trabalhávamos na biblioteca.

Uma delas, refere-se à Esperanza, a Diretora da biblioteca. Naquela manhã, aproximou-se, passos imprecisos, no piso esverdeado, brilhantemente lixado pela senhora que nos servia o café: uma negra sorridente, sorriso de orelha a orelha, dentes alvos, na pele escura, pontuada de manchas, olhar esperto, iluminado, afetuosa, amiga. O cabelo escondido sob um lenço colorido ou modelado em rolos enormes, especialmente, nos fins de semana. Acho que se enfeitava para a missa. Quanto à voz, era sonora, estridente e enérgica, mas que costumava sempre me chamar no diminutivo. Carinhosa.  A risada retumbante assustava os pássaros que voavam em bando, confusos, temendo tempestade. Chamava-se Doralice, talvez por isso, os pássaros retornassem da fuga, em seguida. Não é nome de ciclone. Dá mais pra poesia e aflição.

Estávamos juntos e quase instintivamente, olhamos os três, na direção do sapatos pretos, meio salto, emoldurando umas pernas finas, que se perdiam no tailleur, via de regra, marrom ou cinza. No pescoço, um lenço verde, meio que ocultava um colar que nos parecia de pérolas. Levantamos em uníssono nossos olhos, paralisados, patéticos. Doralice começou a esfregar nervosa a escrivaninha, perguntando displicente, como havia sido o dia da chefe. Era a pergunta que jamais deveria ter sido feita, tal o seu desfecho catastrófico e inusitado.  Foi a gota d’água para nos olharmos de soslaio por um segundo.

Observamos a pele clara, rosto meio comprido, nariz alongado, olhos escondidos sob uns óculos dourados e o cabelo, ah, aquele cabelo comportado, meio ondulado, de um preto carregado, azulado, semelhante às penas de anu. Esboçamos um leve sorriso, tentando dissimular o desejo de bom dia com o sorriso interno que nos acumulava a mente. O pior estava por vir. A diretora sentiu-se acolhida, talvez para contar um evento que a deixara melancólica. Acomodou-se no espaldar de uma cadeira, colocou delicadamente os dedos cruzados sob o queixo e nos encarou na volúpia trágica de um tango argentino. Dos seus olhos, correram algumas lágrimas lancinantes. Nós esperávamos afoitos o desenrolar da tragédia.

Minha amiga, convidou-a, delicada, que sentasse entre nós, acomodados que estávamos esboçando uma estatística. Doralice, vez que outra levantava a cabeça, arregalando ainda mais os olhos, fazendo uma cara de sofrimento antecipado, expandindo as bochechas numa cara estranha, para acompanhar, solícita, a chefia. Eu declinei de meus pensamentos mais humanos e amaldiçoei o tal convite. Já não havia clima para confidências.  Nenhum dos três, a não ser Doralice mostrava-se segura o suficiente para encarar o que estava por vir. Nossa imaginação fértil já dava saltos inalcançáveis, pois conhecíamos de antemão a postura aristocrática, elitista e arrogante de nossa chefe. Tratávamos como um anteparo a suas necessidade mais urgentes, mas os grandes eventos compartilhava com os seus pares. Então, alguém perguntou alguma coisa, como se havia acontecido algum problema com ela. Novamente, uma lágrima ensopou-lhe os olhos, embaçando os óculos. Tirou-os, limpou com cuidado as lentes, falou baixo, voz insegura, como em segredo. Percebi seus lábios grossos pintados de um rosa morto, definindo ainda mais os dentes salientes. Mas ainda ouvi a frase fatal que seu cachorrinho havia morrido  e acrescentou, dramática: “Ele tinha os olhinhos azuis. Nunca o deixei sem a coleira dourada. Verdadeira jóia! Era tão lindo...”. Não completou o pensamento, embargou a voz.
 

Olhei para minha amiga que repetiu a frase, olhinhos azuis, que pena. Não consegui conter o riso, levantei-me ante o olhar estupefato da mulher. Doralice, fingindo espanar alguns livros, enxugava uma lágrima furtiva que lambia-lhe os lábios.

Empurrei a cadeira com o joelho, tropecei na cesta de lixo, afastei-me célere corredor à fora, procurando sumir em algum labirinto para nunca mais ser encontrado. Minha amiga procurava conter a postura, mas seus olhos diziam tudo que lhe vinham à mente. A cena se preparara para nossa desgraça.

Em seguida, topamos um com o outro, refletindo o fato, desabrochando em cascata o riso contido. Não pela morte do caozinho, mas pela dramaticidade latina de diretora.  Doralice de longe, acenava a cabeça em reprovação. A diretora se ocultara em seu gabinete, talvez tergiversando com seus botões, imaginando-se lapidar suas confidências no futuro e principalmente evitar demonstrar suas fragilidades a nossa frente. Desalmados, cruéis, nocivos aos animais. Não odiávamos os animais, nem o sofrimento que nos legavam com sua perda. Repudiávamos sim a futilidade do ato, o desabafo histriônico, e acima de tudo, víamos na caricatura da chefe, um motivo de extrapolar nossa ironia.

Há outras histórias, outros fatos talvez mais engraçados do que este ou até mesmo, bastante sensíveis no tempo em que convivemos em nosso local de trabalho, mas alguns são insuperáveis em suas lembranças, principalmente para nós. Um dia contarei, como esta amiga abriu a estação de dança, usando uma trança postiça, numa churrascaria. Mas isto é tema para outra crônica.

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