DO TANGO AO SAMBA-CANÇÃO

Estávamos os quatro a caminho da festa de Natal. Uma destas festas organizadas pelo grupo, como faz a maioria das instituições e empresas na época natalina. A tarde se esvaía em reflexos avermelhados no céu, dando lugar a uma noite límpida que se antecipava aos nossos olhos. Estávamos felizes. Eu, minha amiga, Suelen, (a mesma da crônica “trágico como um tango”), Dinarte, um dos colegas que nos acompanhava e Celina. Um dia falarei destes últimos, tipos bem distintos ressaltando características pessoais muito peculiares.

Hoje falarei de nossa festa de Natal. Suelen revelava-se como sempre irreverente, a começar pela trança artificial que compusera o penteado, o que já de antemão nos fez rir.

Nossa vida, apesar dos problemas comuns a qualquer mortal, não passava de uma grande brincadeira. Nos divertíamos com tudo e também nos emocionávamos com fatos que despertavam, de alguma forma, nossa sensibilidade. De toda maneira, éramos felizes e partilhávamos juntos esta alegria de viver, contagiados que estávamos com nossa própria convivência.

No caminho da festa, Dinarte convidou-nos a beber alguma coisa. Ele gostava de uísque, Celina de caipirinha. Eu na verdade, tinha preferência por vodka, mas naquele momento esta era uma preocupação de somenos. Descemos, observando um detalhe aqui, avaliando a roupa de Celina, que se considerava elegante nos 300 kg que comportava e compartilhávamos com ela nossas observações. Era quase um jogo, no qual nos alimentávamos um do outro, numa sagacidade de carências, revelando o que qualificávamos como crítica, mas que confiávamos em partilhar, confidenciar e discutir em grupo. Era importante aquela discussão, mesmo que discordássemos de muitas coisas estabelecidas por um ou por outro. Tudo fazia parte de nossa convivência franca e sadia. Víamos o rosto avermelhado de Dinarte, que evocava um riso que mais parecia de hiena. Mas, naquela época, as hienas também eram amorosas e nós o aceitávamos assim, do seu jeito.

Todos tomamos uísque. A noite já encobria por completo a região e as luzes incendiavam as luminárias, na percepção de nossos olhares que buscava a festa.

Não muito depois, estávamos todos reunidos. Os colegas, em sua maioria sentados numa mesa enorme, projetada especialmente para a nossa turma. Esperanza, a Diretora, já estava a nossa espera. Seus olhos miúdos, seu cabelos cor anú, um tom tão preto que alcançava um matiz azulado, as mãos postas à mesa, engessadas de pulseiras, o eterno colar de pérolas no pescoço, vestida num tecido escuro, como convinha e como era seu hábito. Era a estréia da churrascaria e a música ao vivo anunciava os melhores acordes, interagindo com o público, a partir das melodias populares e bem conhecidas. Continuamos a festa, entregamos os presentes dos amigos secretos, fizemos as declarações e homenagens de praxe, e todos passaram a conversar de maneira comportada, sem muita efusão, apenas uma coisa burocrática, formal, calcada no senso comum da cordialidade necessária. Refletiam por certo, em suas contas, na perspectiva de irem embora após a distribuição dos doces, no cansaço do dia adia, avaliavam na medida o olhar arguto do colega da frente, na maquiagem absurda da colega que desconhece o bom tom, na falta de preparo à mesa do colega da esquerda, na roupa excêntrica da secretária, no mau gosto da diretora. Pensamentos que os deixavam alienados do verdadeiro objetivo da festa, mas que conservam em sorrisos, marcados nas fisionomias, como máscaras prontas para a composição do cenário.

Nós, ao contrário, estávamos por inteiro, pois nosso objetivo eram bem mais amplo e intenso, e talvez mais verdadeiro. Queríamos sim, viver plenamente o momento e fazer do encontro um motivo de pura diversão.

Em dado momento, a banda executou um tango, que àquelas alturas me parecia adequado, tal a presença da diretora castelhana em nossa mesa. Perguntei-lhe irônico, se gostaria de riscar um tango no chão, tracejando com nossos passos o sabor da dança. Ela me olhou, indignada. Pediu que sentasse e mudou completamente o assunto. Minha amiga, Suelen, não se fez de rogada e na próxima música elegeu-se bailarina à frente do pequeno palco e começou a dançar desvairada. Na verdade, os dois, porque a segui e participei da festa com o mesmo ímpeto e alegria. Seguindo o ritmo alucinado que projetava uma lambada, segurei-lhe a ponta da trança, enquanto ela rodopiava, inventando novos passos numa maratona de mistura de ritmos e sons.

Alguns colegas, por certo, censuravam, outros estremeciam ao som da banda, sentindo o irresistível chamado da dança, mas não se atreviam. Doralice, nossa colega da limpeza, arregalava mais os olhos e acenava a cabeça, quase uma crítica de mãe que tenta ensinar a criança travessa. Esta, não nos incomodava. Ríamos juntos de seu jeito de falar, quase aos gritos, espalhando saliva numa chuva benzedeira que não nos deixava falar. Gládis, uma outra colega, por sua vez, tinha uma maneira estranha de chamar a atenção. Achava graça de nosso arrojo e se aventurava a rir conosco, mas tinha uma boca enorme, dessas que nos dão a impressão que vão nos engolir, quando falam ou riem muito próximas. Era uma maneira divertida de intuir o que pensava.

Esperanza, entretanto, sentia seu mundo desabar, frente a tanta alegria exacerbada. Naquele momento, não mais a tragicidade do tango, mas a melancolia do samba-canção, “Meu mundo caiu”. Naquele dia, minha amiga inaugurou a temporada de dança, num local onde apenas havia música ao vivo, para acolher os clientes, realizando assim, mais uma aventura, na escalada que alicerçava nossa contribuição à alegria. Foi um tempo feliz.

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