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A lua, a Apollo 11 e minha avó

Era evidente que havia um clima de angústia, agonia e mesmo certa correria na casa. Foi no dia do casamento dos dois. Meus avós estavam deitados em seu quarto. Minha avó observava minha mãe com uma súplica nos olhos: quem sabe aquele casamento religioso não a melhoraria, não curaria de sua doença? Ou pelo menos, não a matasse.

Eu percebia na fisionomia de miha mãe, uma inquietação que não alcançava paz. No fundo, ela sabia que não havia volta: a morte era inevitável. Apenas queria que minha avó não sofresse tanto! E aquela falta de ar que não passava, aquela angustiosa espera de que alguma coisa acontecesse e por um milagre, ela voltasse a conversar normalmente, a respirar com um ser humano normal, a sorrir talvez...

Minha mãe chorava pelos cantos, mas ocultava sabiamente dela aquele sofrimento interno, que por vezes, a fazia desmoronar. Na frente de minha avó, entretanto, sorria e dava esperanças.

Meu avô, por outro lado, parecia não entender bem aquela história, mas aceitava placidamente. Casamento religioso, agora, depois de tanto tempo, assim velhos, assim cansados, assim doentes... Mas se é o que se devia fazer, que se cumprisse.

Naquela época, o homem estava prestes a ir à lua. Era uma esperança para a humanidade, a certeza de que muitas coisas mudariam, talvez doenças fossem curadas, ou talvez até houvesse alguma forma de vida, como alguns por ingenuidade, postulavam . Não se conhecia muito do assunto, mas tínhamos certeza de que alguma coisa boa viria daquelas viagens espaciais. O homem riscando os céus, descobrindo novos mundos, enfrentando o espaço. Havia slogans na tv, na rádio, nos jornais. Todo mundo falava na era espacial. Era um orgulho para a humanidade. A música "Assim falava Zaratustra “ de Richard Strauss dominava qualquer tema relacionado ao espaço.

Eu ficava dividido entre estes dois mundos. O mundo imaginário, com um quê de realidade, pois bastava que o homem pisasse na lua para tudo ficar real e decisivo. Por outro lado, havia o meu mundo pequeno, real, no qual as noites eram intermináveis, em que me inteirava das dificuldades de meus pais, na procura de uma melhora de minha avó, que piorava dia a dia. Era a busca por médicos, por remédios especializados, uma provável hospitalização. E suas dificuldades não se reportavam apenas aos procedimentos invevitáveis do dia a dia, mas sim aos contornos de sentimentos que se acumulavam e os deixavam a cada dia mais acabrunhados e perdidos naquele mundo de dúvidas e digressões de pensamentos.

Até que marcaram o dia em que a Apollo 11 rasgaria o céu em direção ao astro tão almejado, no caso o satélite natural da terra. E também o dia do casamento. Foi numa noite fria de maio. Um maio que se arrastava nos seus últimos dias e noites, porque era nas noites que as coisas aconteciam, nas noites em que o agravamento da doença era sempre mais intenso e a falta de ar voltava galopante. Um maio quase junho e tão frio quanto!

O padre chegou, aproximou-se dos dois. Meu avô olhava desconfiado. Ele também não se sentia bem, e na dificuldade da época em se ter um diagnóstico, por bem, achou-se que deveria permanecer ali, ao lado dela, na cama. Na verdade, caminhava com dificuldade porque havia tido um derrame, como se dizia na época. Então que ficasse ali, repousando, era a ordem estabelecida.

De meus olhos de criança, de 10 anos, fiquei ali, da janela do quarto que desembocava num corredor imenso, que dava para os fundos da casa, observando a cena.

Quando da presença do padre, tão atento aos dois, minha avó até melhorou da falta de ar. Uma tia de olhar arguto passeava pelo quarto, afastando-se em direção à cozinha, irritada. Não acreditava que nada mudasse. Segundo ela, o destino estava selado. Não havia chance para minha avó e tudo não passava de crendices. Minha mãe nada argumentva. Calava-se, quieta. Ela sabia que a esperança era quase nula, mas por que não levá-los a ter um momento de encontro com o mandamento, com o casamento que nunca havia sido realizado; por que morrerem sem este sacramento?(no fundo, era isso que pensava).

O padre realizou a cerimônia. Eles, sentados e encostados na cabeceira da cama.Todo o ritual foi consolidado.
Cumprimentos. sorrisos.

Quando o padre foi embora, houve um certo alívio não só da tia descrente, mas dos demais. Parece que tudo se aquietou.

O maio terminou. Junho chegou rápido, foi um dos meses mais frios do ano. E em 20 de julho de 1969, o homem pisou na lua pela primeira vez. Minha avó ainda resistiu um tempo, até para descrer daquela façanha. E numa noite de julho, porém dois anos depois, ela também se foi. Foi uma noite fria, tão fria que enrijecia a alma. O dia? Foi cinzento.

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