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MEU CARRASCO INTERIOR

Este texto foi produzido para um desafio de uma oficina literária. A ideia era descrever conflitos similares aos do romance "O ateneu" de Raul Pompeia, ao conto, nos dias de hoje.

Estava ofegante. Pudera, estava atrasado.Tentei passar pela hall sem ser notado, afinal, àquela hora, o Seu Miguel já teria abandonado o posto, para desfrutar do cigarro à porta do bar e jogar conversa fora com as atendentes. Empurrei com o tênis sujo a portinhola, atravessando a portaria em direção às salas de aula e meu coração se colocou em posição de defesa. Seu Miguel estava ali, patético, me observando dos pés a cabeça. Ao contrário do que imaginava, estava no seu devido lugar, às 8:30h cumprindo o seu dever de impedir a entrada dos retardatários.

— O pirralho tá querendo me enganar, é? – e disparou um palavreado padrão que dispensava desculpa. Exigiu que eu sentasse na poltrona ao lado do balcão. Deu uma olhada na tela do monitor que registrava os corredores e salas de aula e informou que chamaria o diretor. Eu teria de esperar pela próxima aula e não poderia, sob hipótese alguma, me afastar.

Fiquei ali, roendo as unhas, mais preocupado com a pesquisa de Filosofia do que propriamente com a reprimenda do diretor. Quando o diretor dispensou-me com um carimbo de atraso na agenda, já se havia iniciado o intervalo. Esforcei-me em entrar na sala, ultrapassado pelos que se afastavam em marcha de guerra em direção ao pátio. Corria contra a corrente, sentindo o cheiro abafado dos humores que se agitavam em seus corpos ansiosos pela liberdade que corria lá fora. Uns questionavam a minha ausência, outros me premiavam com safanões, abrindo caminho, considerando que o obstáculo os incomodava. Alguns se aproximavam e cheiravam minha boca, perguntando o que eu tinha bebido. Eu é que me sentia nauseado pelo hálito putrefato das bactérias acomodadas, que ora se contorciam em suas bocas famintas, pululando na saliva acordada.

As gurias se juntavam em grupos, pequenas garças se entrincheirando, dando bicadas desenfreadas, procurando vermes desconhecidos para devorar. Não tinham o menor interesse em mim, a não ser no que dizia respeito aos trabalhos escolares. Era considerado nerd. Uma que outra, se aproximava, para mostrar-se catedrática em todos assuntos. Eram astutas e bobas.

Larguei a mochila, desanimado, e voltei para o pátio. Como era proibido permanecer na sala, eu ficaria à espreita, se possível, fugindo dos maus tratos ou das piadas grosseiras dos desafetos. Via de regra, eu me sentia pouco à vontade. Aliás, não ficava bem dentro da carcaça que era o meu corpo: franzino, pernas finas, olhos grandes num rosto pintado de espinhas.

Os guris não se preocupavam muito comigo, naquele momento. A não ser Tiago, um espécime estranho. Era desajustado ao meio, como eu, além de possuir um traço peculiar, que me induzia a afastar-me dele. Era um tolo. Obedecia passivo aos mandos e desmandos dos demais. Sua fisionomia era deprimente: alto, nariz comprido, pescoço vermelho, onde as veias desenhavam variações de fios azulados. A boca grande, os dentes desaparelhados, uma penugem etérea sobre os lábios e um olhar perdido de boi no pasto ralo. Diziam que tinha o hábito de masturbar-se ouvindo músicas sombrias, do estilo emo, que grassava entre pequenos bandos. Na verdade, eu temia ser comparado a ele. Receava juntar-me a um cara tão esquisito, com jeito de tarado e além de tudo, um parvo, um idiota completo. No meu mundo obscuro, entretanto, martelava uma dose dissimulada de culpa por me achar superior.

Do outro lado, próximo ao bar, estava Jura, esgueirando-se por entre um corredor polonês, fingindo que desfilava. Para todos, não passava de um veado exibicionista, que se imaginava mulher. Mas ele tinha alguns amigos, que nem ligavam para as suas preferências, ao contrário de mim, que tinha o estigma da timidez, do medo da aproximação, do rancor pela solidão provocada. Embora levasse encontrões de um que outro mais homofóbico, o Jura tinha lá os seus predicados. Era muito querido entre os professores, tinha a faculdade de organizar grupos e distribuir tarefas e interagia muito bem com as gurias. Além de tudo, a sua auto-estima era alicerçada num corpo forte e numa mente aparentemente resolvida.

Do meu ponto estratégico, podia observar os grupos que se formavam aqui, acolá, de acordo com as preferências ou a necessidade do encontro. As meninas se esforçavam em mostrar os dotes particulares, sacudindo os cabelos e bamboleando o corpo enquanto falavam. No pescoço, nas mãos e nos pulsos, inúmeros badulaques participavam dos movimentos, atiçando olhares, aguçando a curiosidade e a aproximação dos meninos. Michele era uma daquelas audaciosas. Tinha por hábito mascar chicletes, enquanto falava, e gesticulava em demasiado. Mascar não era o problema, o curioso é que o fazia com o aparelho dentário, que a deixava em maus lençóis, quando a engrenagem enguiçava com a goma. Nada demais para os meninos, habituados ao seu jeito ousado de se portar, como beijar de leve no rosto ruborizado, expressando coisas obscenas. Um que outro, mais arrojado tascava um beijo demorado, correspondido como poucos, servindo de modelo à turma.

Eu me surpreendia com tanta facilidade nas demonstrações de afeto e um estreito sentimento de raiva se apoderava aos poucos de mim. Passava, então, a odiar a todos, sem exceção, mesmo aqueles poucos que me dirigiam a palavra e que não zombavam de minhas atitudes. Estava tão absorvido em minhas mágoas, que não reparei a presença inoportuna de Jonas, um dos líderes dos movimentos de demonstração de força. Caminhava em minha direção, naquele modo pretensioso de quem tem a certeza de tudo, gingando o corpo malhado, fazendo estilo e publicidade. A proximidade daquela figura me causava estremecimento, até arrepios de temor, pois não tinha boas recordações do truculento. Tinha a impressão de que estava sempre me testando, havia no olhar, na postura e em toda a sua gesticulação ostensiva uma ameaça latente, uma acusação baseada numa dúvida interna que fazia questão de expressar. Costumava dar umas batidinhas em meu rosto, logo após um estranho gesto de afeto, alisando-me a pele, como se dissesse, “não te aproveita cara, eu sou macho!”Ele sempre deixava claro que duvidava de minha masculinidade e dessa forma, se aproveitava para me agredir.

Algumas meninas espiavam, entre comentários e risadas exageradas, a performance estudada de Jonas. Eu pairava como um galho seco, encolhido na sombra da parede do bar, que fazia um ele na calçada deserta de árvores. Me escondia da turba alegre, que fazia coro com as novidades da manhã, do dia, dos cotidianos férteis. Se eu pudesse, teria um livro na mão, naquele momento. Mas seria expulso do recinto. Jonas, por uma tragédia do destino, continuava ao meu encalço. Seus dentes salientes, atarraxados pelo aparelho lhe produziam um ar de ser interplanetário. Por que chegava daquela maneira rompante, de caçador que já tinha decidido o destino da presa? Examinou-me, assinalou qualquer coisa no meu pé e espetou minha barriga com o indicador, o que me deu uma fisgada intensa nas entranhas. Depois, deu as rituais alisadas no meu rosto e as batidas rotineiras.

— E aí, beleza?

— Beleza – respondi, acabrunhado.

— Por que tu não veio na hora combinada?

— Que hora?

–A hora do desafio. Nerd pensa demais, depois destrambelha. Agora ta decidido, tu vai fazer o trabalho, to avisando.

— Que trabalho?

— Qual é, comeu capim no café da manhã? To falando da Marina.

—Tu falas da professora?

— Não, da tua mãe. É claro, cara, da tia. Ela já sacaneou o suficiente, tu não achas?

— Sei lá cara. Acho que não to nessa.

— Ah, ta sim!Tu foi o escolhido.

— Por que me escolheram? Eu não pedi nada.

—Porque tu é o meu gurizinho – e falou sorrindo, me segurando o pescoço, com as duas mãos. Senti uma mistura de ódio e um frenesi, que não sabia muito bem identificar. Talvez porque nunca tivera qualquer envolvimento com nenhuma guria, eu estava numa fase de conflitos e ambiguidades. Ele se aproveitava da falta de jeito. Me largou, com raiva e clamou, indignado, na direção dos seguidores – e ai, moçada, vem clareá as idéia do nerd aqui. Parece que não entendeu o trato!

Um dos meninos, um baixinho parrudo, disparou ao meu encontro, e em gesto consentâneo, amarrou-me os cadarços dos tênis, um no outro. Todos caíram na risada e se afastaram quando o líder deu o sinal decisivo. — Ele vai cumpri o prometido – e se dirigindo a mim, ameaçador — se não, vai ser pior pra ti. Ou cumpre ou assume!

Na sala, eu não prestava a atenção na prova de matemática. Não me saíam da cabeça as ameaças de Jonas. Não era justo produzir um fake com o perfil da professora Marina no facebook. Queriam humilhá-la utilizando imagens falsas, incluindo comunidades eróticas, e tendo a sua foto manipulada, além de enviar e-mail para todos os professores e alunos com as alterações. E por que eu deveria fazer aquilo? Uma tarefa que seria fácil para qualquer um.

O prazo venceu. Depois de noites de tortura e sentimentos confusos, não cedi, mas o mundo desabava e não havia como reerguer-me dos escombros. Sabia que era o meu fim. Jonas me procurou mais uma vez, só que agora o encontro foi na biblioteca. Estávamos numa sala de estudos, ao fundo do acervo, onde não havia quase ninguém. Ele estava diferente. Não havia brutalidade em seus gestos. Sua postura estava quase tranquila, a não ser o pé, que movimentava, involuntário, embaixo da mesa.

—Então, podemos abrir pra turma?

—Abrir o que?

—Que tu que ser a minha guria?

—Cara, tu enlouqueceu.

—Tu não fez o combinado. Então não resta saída. Só que não vai ser só minha, mas de toda a escola!

—Então, o seguinte, me confessa uma coisa. Diz aí, que tudo foi armação, que tu só quiseste humilhar a professora porque ela disse a verdade sobre ti, não tem nada a ver com a turma, não tem nada a ver com a prova difícil, tem a ver só contigo — blefei, desatinado.

Neste momento, sua segurança desapareceu e voltou a ser agressivo.

—Olha, aqui, cara, não to te entendendo, ta ligado? Fecha esta matraca, se não vou te socá até acabar contigo.

—Então é verdade – arrisquei.

—Verdade o quê? Ta zoando de mim?

Pensei em ameaçá-lo, afirmando que o trato estava gravado no meu celular, mas ele percebeu a minha tramóia. Indignado, começou a bater em cada partícula do meu corpo, empurrando-me contra a parede envidraçada, ensopando as mãos no sangue que me escorria do nariz. Foi então, que num ímpeto desesperado, reagi e lhe acertei um murro tão forte, que o deixou atônito, pelo inesperado e o desequilibrou de encontro à mesa, se estatelando no chão. Aproveitei a queda e calcei seu pescoço com o solado do tênis, enquanto ele tentava desviar o rosto e serpentear o corpo para fugir da postura ultrajante. Eu não lhe dava chance. Quem me visse naquele momento, certamente perceberia um brilho ferino, selvagem em meu olhar. Minha boca sangrava, mas eu cuspia uma dose prazerosa em sua cara, confirmando, pelo menos naquele momento, a minha superioridade.

A porta foi escancarada e Seu Miguel, ao lado de outro funcionário me segurou pelos ombros, pelos cotovelos, retirando-me da sala como um animal acuado. Percebi que atrás deles, os meninos se acotovelavam, pasmados, olhos argutos, bocas que se abriam intermitentes, produzindo sons que eu não conseguia ouvir. Sabia, no entanto, que chegara a minha hora, não importava o custo. Uma leve brisa lambeu meus cabelos e meu coração se acomodou, quieto. Confessava a mim mesmo, que pretendia matá-lo de verdade, embora meu corpo sinalizasse muitas vezes, uma leve excitação na sua presença. Uma lágrima, porém, correu do meu olho apesar do desfecho clichê. Por pior que seja o carrasco, ele sempre nos seduz.

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