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Então, me explica...

Nem sempre me lembro de ti. Nem sempre me pergunto, porque te foste tão cedo. Nem sempre me envolvo nas histórias que contavas. Nem sempre me enfrento te olhando no espelho. Um espelho que parece muito comigo. Um espelho onde te imagino às vezes, caminhando ao nosso lado pelas ruas quase desertas da cidade, no feriado de Natal. Lembro-te de sapato preto, de verniz, bico de pato e salto fino. Do vestido azul e a bolsa de mão. Mas lembro mais do aconchego de tua mão na minha. Da alegria de meu pai ao teu lado, como um guia, um líder que nos levava à festa dos presentes. Lembro do guaraná, do quindim que sempre nos aguardava no imenso salão do clube. Lembro da expectativa dos prêmios. Dos palhaços, das músicas, dos mágicos. Lembro dos presentes. Uma boneca para minha irmã, um cavalo branco de gesso para mim. Mas lembro especialmente do brilho dos teus olhos, da emoção que passavas, que tornava nossos momentos intensos e felizes. Da alegria que sublinhavas com teu sorriso sincero. Tu eras assim, voltavas desenhando sonhos, torcendo o salto no paralelepípedo enquanto esperavas o táxi e visitavas as lojas enfeitadas para a festa. Por isso, pergunto, traçando um paralelo com a música “Feminina” de Joice , me apropriando de alguns versos, assim alterados: “Ó Deus, me explica, me ensina, me diz o que é ser mãe? Não é no vestir, no gesto, no olhar, é ser mãe em qualquer lugar. Então me ilumina, me diz como é que termina? Termina na hora de recomeçar. Costura o fio da vida só pra poder cortar. E este mistério estará sempre lá. “ Por certo, tens todas as respostas, pois Deus já te criou sabida. Agora no espelho não estás mais. Não te vejo em meus olhos, nem nos sonhos, nem nas ruas desertas de outrora. Teu lugar é tão íntimo, que não há como explicar. Ficas muito mais do que em minha memória. Fazes parte de minha vida. Do meu ser. Do me estar no mundo. Do homem que me tornei. Por isso mãe, às vezes, me pergunto o que somente tu sabes a resposta. Mas foste tão cedo.
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