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Um passeio no Gordini, com meu pai

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Fui apresentado ao Gordini de forma inesperada. Tinha uns nove anos, em 64, quando um amigo de meu pai deu-nos carona. Nos acomodamos no carro branco, com os bancos de cor bege, e imediatamente eles começaram a comentar sobre o tamanho do carro, acostumados com veículos avantajados da época, com espaços generosos entre os bancos e porta-malas gigantescos.

O Gordini, antigo Dauphini não era nada disso. Era pequeno, com espaços milimetricamente medidos para ajustar nossos corpos e alguns pertences. Era o que me parecia, ao observar meu pai e o amigo, quase encostarem a cabeça no teto. Nem sei se era impressão minha, ou sugestão pela conversa.

Mas, também, pra mim, isso não era muito importante. O fato de estar ali, com eles, com meu pai dando os seus palpites sobre carros e motos e fazendo perguntas amistosas sobre o automóvel, já mobilizava toda minha atenção, ao ponto de imaginar, um dia comprar um carro como aquele.

Eles conversavam animados. O dono, que a recém havia comprado, enaltecia as qualidades do veículo, informando que a velocidade poderia chegar a 115 km/h, o que me parecia um fato extraordinário. O único carro que podia ultrapassar esta velocidade, era o do Batman, mas até ai, as coisas eram outras.

Meu pai perguntou sobre o consumo, ao que o amigo respondeu, satisfeito, que chegava a 13km/l. Parecia feliz e elogiava o pequeno carro branco, durante todo o percurso. Eu percebia aquele cheiro de carro novo, há pouco comprado e lembrava de alguns livros, que tinham aquele cheiro peculiar da tinta ou do tipo de  papel utilizado.


Nossa pequena viagem prosseguia, porque o amigo de meu pai resolvera mostrar a velocidade que o carro atingia, naturalmente não a máxima, mas a que seria adequada numa estrada.

Meu pai concordou que o veículo era muito confortável, e por certo desempenharia uma velocidade segura.

Eu torcia para que o homem corresse, empolgado com a oportunidade de me embrenhar nas dunas do Cassino. Imaginava que ele iria até lá, afinal um lugar adequado para tal feito.


Seguíamos então pela Avenida Buarque de Macedo e dobramos na esquina do cemitério, pegando  em seguida o que chamávamos de  linha do parque, em direção ao Cassino,  indo até o antigo V (atualmente o viaduto do trevo).

Foi ai que o amigo de meu pai decidiu mostrar a potência do automóvel. Aos poucos, atingiu, já na estrada, uma velocidade de 50km por hora e por momentos chegando a 60. Meu pai ficou impressionado pelo pouco tempo dispendido em alcançar tal velocidade.

Uma poeira levantava as rodas traseiras nublando o vidro, deixando pra trás um pequeno redemoinho, que esmaecia rapidamente nas valetas secas da primavera. O motor emitia um ronco consistente que sustentava a marcha constante. Eu percebia, desenhado no retrovisor um meio sorriso do amigo de meu pai, orgulhoso com a  aquisição.

Enquanto falavam, ele estacionou o veículo numa pequena entrada de um sítio, desceram e o homem imediatamente, me perguntou: – e aí, guri, que tu achou do carro?

“Gostei”, foi o que respondi. Talvez tivesse uma redação para fazer, se tivesse tempo, mas falar ali, não tinha muito o que improvisar. Passou a mão pela minha cabeça e deu uma risada. Meu pai, segurou-me pelo braço e me conduziu para o carro, porque dali, voltaríamos para a cidade.

Meu sonho de dunas havia acabado.  Mas valeu à pena. Valeu à pena a estreia no Gordini, a conversa dos dois e a maneira solidária de meu pai, ao me olhar. Sabia que estava ali, ao meu lado e queria me dizer muitas coisas. Era o seu jeito. Sempre me olhava com carinho, que expressava muito mais do que falava.


Mais tarde, soube que o Gordini foi um dos primeiros carros populares do Brasil,  da Renaut,  mas fabricado pela Willys.  Antes de se tornar o Gordini, ele era o  Dauphine, que não se deu muito bem entre nós e inclusive, apelidado de Leite Glória, pois desmanchava sem bater. Isso acontecia porque as estradas eram muito ruins e  suspensão constituída por bolsas de ar que se endureciam com a carga, foi projetada para estradas europeias.

Rebatizaram então, o Dauphine, como Gordini,  que teve alguns ajustes, como o câmbio que passou a ter quatro marchas para a frente e o motor que elevou a potência para 40cv e mais tarde, em 1964, para a potência de 55cv, apresentando ainda dois carburadores e taxa de compressão maior.

Segundo a Willys-Overland era mais luxuoso, com melhor acabamento interior, frisos e trincos metálicos elegantes; mais confortável devido possuir quatro portas,  grande porta-malas,  forração de carpete e espaço interno bem aproveitado e mais estável, seguro, suspensão reforçada, firme nas curvas e em qualquer terreno. 


A partir daqueles momentos tão agradáveis com meu pai e seu amigo, passei a sonhar com o Gordini, um carro que me parecia ideal. Imaginava que  ao crescer, compraria um Gordini, tal qual o do amigo de meu pai. Talvez, não branco, como o dele, mas de uma cor mais forte e intensa, quem sabe um amarelo? Pensava que meu pai tinha a mesma intenção, mas o que  ele fizera a seguir, fora comprar uma tv Philips de 28 polegadas, acho que para assistir as propagandas do Gordini.

De qualquer modo, não concretizei este sonho. O Gordini terminou em 68 e em minha juventude, o sucesso da época era o Chevette e o fusca, claro, em se falando dos carros médios e pequenos.


O que ficou de verdade, foi a lembrança de mais um momento passado ao lado de meu pai, que por certo, tinha os seus sonhos, e de algum modo compartilhava comigo.







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